Obama está se curvando à elite branca, diz jornalista sobre caso Trayvon Martin

Rania Khalek criticou resposta do presidente dos EUA à absolvição de George Zimmerman, que matou o adolescente

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Rania Khalek criticou resposta do presidente dos EUA à absolvição de George Zimmerman, que matou o adolescente

Por Beatriz Rey, de Chicago para o Opera Mundi 

Os moradores de Chicago, no Estado de Illinois, amanheceram no último domingo, 14, com uma pauta de reivindicação diferente daquela que tomou as ruas da cidade nos últimos meses. Os gritos contra o fechamento de 50 escolas públicas foram substituídos por clamores por justiça em relação ao assassinato de Trayvon Martin. O adolescente negro de 17 anos caminhava desarmado pela cidade de Sanford, no Estado da Flórida, quando foi abordado pelo vigia de bairro George Zimmerman, de descendência hispânica. Zimmerman havia acionado a polícia e foi desaconselhado a falar com o garoto. Não adiantou. Martin acabou sendo atingido no peito pelo vigia.

Protesto pede justiça no caso da morte de Trayvon Martin. Absolvição de Zimmerman provocou revolta no país (Foto: David Shankbone / Wikimedia Commons)
Não se sabe exatamente o que ocorreu. Zimmerman alega ter agido em legítima defesa após ter sido agredido pelo menino, que vestia um moletom com capuz no dia. Apesar das evidências de agressão no próprio corpo de Zimmerman, seu DNA não estava nas unhas de Martin – tampouco havia DNA do adolescente na arma. Zimmerman foi absolvido e ainda receberá sua arma de volta. Desde então, o coro contra o que aparenta ser um crime racial só aumentou. Segundo a AP Press, o Departamento de Justiça norte-americano está averiguando o caso para determinar se procuradores federais devem ou não entrar com acusações criminais de direitos civis. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu às pessoas que respeitem o veredito e “o pedido de reflexão dos pais que perderam um filho”.Seguido ao ato que aconteceu próprio sábado à noite, logo após o anúncio do veredito por um júri composto de seis mulheres (apenas uma negra), aproximadamente 200 pessoas protestaram em Chicago ao longo do domingo. Manifestações de tamanhos variados também aconteceram em Sanford, Detroit, Atlanta, Miami, Philadelphia, Washington D.C., Oakland, São Francisco e Los Angeles. Muitos carregavam cartazes com os dizeres “somos todos Trayvon Martin – todo o sistema é culpado”.

Uma das pessoas que buscava entender o veredito era a jornalista independente Rania Khalek, responsável pelo portal “Dispatches from the Underclass – Amplyfying the Voices of the Voiceless” e colaboradora de publicações como The Nation e Salon. Para Khalek, o veredito – considerado racista por ela – é produto de um sistema igualmente racista. “Para o sistema, não há nada errado com um júri composto por pessoas brancas quando a vítima ou o suspeito não é branco”, afirma. A jornalista ainda critica o desempenho da acusação, que, para ela, ignorou a questão do racismo, e os comentários do presidente Barack Obama sobre o caso. “O que eu dele esperava é honestidade. Seja honesto: havia questões raciais em jogo ali”, disse em entrevista a Opera Mundi.

Arquivo pessoal

Opera Mundi: O caso de Zimmerman nos leva a pensar: o quão adequado é o trabalho dos vigias de bairro nos EUA?

Rania Khalek: Não sei o quão adequado era o trabalho dos vigias antes da morte de Trayvor Martin, nem tenho informações sobre o histórico de trabalho dessas pessoas.

[Rania Khalek: fiquei surpresa com o fato de a acusação não ter abordado questão racial durante o julgamento]

Não vejo nenhum problema com o trabalho delas, mas não acho que elas devam andar armadas pelo bairro preparadas para atirar em alguém. Esse é o trabalho da polícia, não de civis.

OM: Cinco dos seis integrantes do júri eram brancos, apesar de serem todos do sexo feminino (e mães). Qual é a sua avaliação dessa composição?

RK: A mídia afirmou que, por serem mães, essas pessoas seriam capazes de entender melhor a situação da mãe de Trayvon Martin. Só que neste país os homens negros são estereotipados e apresentados à sociedade pela mídia e pelo cinema como violentos e assustadores. Há a ideia de que eles são inerentemente criminosos. Para as mulheres, há o medo de que os negros sejam selvagens, de que estejam prontos para estuprá-las. Não estou dizendo que todas as mulheres pensam assim, mas há um nível subconsciente de medo.

Quando você tem um júri composto predominantemente por mulheres brancas deliberando sobre o assassinato de um adolescente negro, faz com que seja mais fácil para a defesa usar estereótipos desse tipo. É uma mentalidade derivada de uma cultura de supremacia branca. O júri certamente jogou contra a acusação. Na verdade, fiquei surpresa com o fato de a acusação não ter abordado isso durante o julgamento. Você tem um homem branco que matou um adolescente negro com um júri composto por mulheres brancas. Isso é tão problemático, e é justamente uma das maiores falhas do nosso sistema judicial. Ou seja, para o sistema, não há nada errado com um júri composto por pessoas brancas quando a vítima ou o suspeito não é branco.

OM: E o desempenho da acusação durante o julgamento?

RK: Não fizeram um trabalho eficiente. Não levantaram a questão racial em nenhum momento, e esse foi um aspecto importantíssimo desse caso. Havia um elefante branco na sala, e ninguém falou nada. As únicas pessoas que falaram sobre o aspecto racial foram as que estavam na defesa. Disseram que Martin chamou Zimmerman de “branquelo assustador”, daí acusaram Martin de racismo contra pessoas brancas. É inacreditável pensar que em uma situação na qual um homem branco atira em um adolescente negro desarmado ninguém da acusação tenha falado em racismo. Mas não estou surpresa, já que o time de acusação também era composto por pessoas brancas e privilegiadas.

OM: O veredito foi racista? 

RK: O próprio sistema judicial é racista. Quando as pessoas falam que o sistema está quebrado, eu diria que ele está funcionando exatamente de acordo com o que foi pensado por quem o projetou. Isso não significa que o veredito não foi racista – na minha opinião, foi. Mas acredito que isso acontece porque o sistema judicial é racista.

OM: Zimmerman tem descendência hispânica, e por esse motivo, há quem defenda que ele não é branco. Essa discussão é relevante para o caso?

RK: Isso não importa. Ele pode não ser tecnicamente branco, mas parece branco, e quando você passa por branco neste país, tem acesso aos privilégios dos brancos. Zimmerman faz parte da cultura de “eu sou um homem branco e posso andar armado atrás de pessoas como Trayvon Martin”. Essa discussão não é relevante porque, mesmo que ele seja hispânico, é aceito pela cultura branca. Na verdade, ele é um produto desta cultura segundo a qual homens e mulheres negros não têm valor algum. Qualquer um que se passe por branco tem o poder de decidir quem vive ou morre. Tem o poder de fazer cumprir a lei, mesmo que não seja um policial.

OM: É possível falar em legítima defesa quando qualquer pessoa pode andar com uma arma escondida?

RK: Precisamos, em algum momento, olhar para o fato de que o país permite que qualquer indivíduo ande por aí armado com a justificativa de se defender. Ter uma arma faz com que qualquer situação fique muito mais perigosa para todos. Não acho que deveria ser permitido andar com armas escondidas. O caso de Zimmerman é o exemplo perfeito. Ele tinha uma arma, Martin não. Zimmerman foi atrás de Martin e iniciou uma briga com um adolescente desarmado, e atirou nesse adolescente desarmado. Não me importa o que o adolescente fez para se defender – se alguém teve direito a autodefesa aqui, foi Martin.

Trayvon ao lado do pai, Tracy. Jovem foi assassinado após ser abordado pelo vigia voluntário George Zimmerman, na Flórida (Foto: Arquivo pessoal/Trayvon Martin)

Se vamos falar sobre legítima defesa, e as pessoas que não carregam armas? Elas não têm direito de se defender? Ou o direito à vida é quando esta está sendo colocada em risco por pessoas armadas? E outra coisa: o medo e o desejo por se defender pode ser muito subjetivo. Zimmerman tinha medo de pessoas negras. Ligava para a polícia constantemente para reclamar de negros andando pelo bairro. Se você tem pessoas armadas com medo de algo que não é uma ameaça, na verdade, as vítimas é que estão se defendendo. Muitas perguntas precisam ser feitas sobre isso e espero que o caso de Martin ajude nesse sentido.

OM: Você recebeu críticas no Twitter ao comentar a fala do presidente Barack Obama sobre o caso. O que você esperava dele?

RK: A mentalidade de que todos deveriam ficar calmos e respeitar o veredito me incomodou. Não é hora de ficar calmo. Não estou dizendo que as pessoas devem ser violentas, mas sim que devem fazer o que estão fazendo: ir para as ruas protestar. Ao contrário do que o presidente falou, é hora de demonstrar insatisfação não só contra o caso de Martin, mas também contra o fato de que as pessoas de cor neste país – especialmente os negros – são alvos desproporcionais da polícia, por exemplo.

Não há punição. O veredito não foi surpreendente. O presidente Obama é o nosso primeiro presidente negro. Não só ele não falou em racismo como ainda trouxe a questão da violência por armas. Pareceu que desviou o foco para a questão de violência por armas em comunidades negras. Estou decepcionada porque ele não fala em racismo e, quando fala, acaba menosprezando os negros.

O discurso que ele deu em Morehouse College em 19 de maio foi assim. A fala foi sobre como os jovens negros devem contornar o sistema. Sobre como o sistema é bom e eles representam o problema quando falham. O que eu esperava dele era honestidade. Seja honesto: havia questões raciais em jogo ali. Um homem acabou de ser absolvido por matar um adolescente negro. E tudo o que o presidente consegue dizer é “fiquem calmos”? Ele não falou o que as pessoas esperavam que ele falasse porque está se curvando à elite privilegiada de cultura branca.

(Imagem de capa: U.S Air Force / Wikimedia Commons)


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