Breno Altman: Conservadorismo de branco é a vanguarda do atraso

Para o jornalista e editor do site Opera Mundi e da revista Samuel, reivindicações de médicos são de quem olha apenas para o próprio umbigo

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Para o jornalista e editor do site Opera Mundi e da revista Samuel, reivindicações de médicos são de quem olha apenas para o próprio umbigo

Por Breno Altman 

As manifestações de médicos, nessa última terça-feira, revelam um núcleo duro e mobilizado das elites brasileiras. Sua influência nos meios de comunicação, na sociedade e nas instituições já ameaça o programa de saúde recentemente lançado pelo governo. A julgar pelas emendas apresentadas na Câmara dos Deputados, a desfiguração desse projeto será inevitável.

O Palácio do Planalto pode estar pagando um preço por ter agido de forma atabalhoada, sem consultar e articular as correntes mais progressistas da medicina, o que seria obrigatório para batalha dessa envergadura. Mas a reação não é contra eventuais falhas de interlocução: sua natureza reside em defender privilégios corporativos, contrapostos aos interesses do país e aos direitos da cidadania.

As três principais bandeiras nas marchas dos jalecos brancos são elucidativas. São contra a extensão da residência em dois anos, com obrigatoriedade de servir o Sistema Único de Saúde. Não concordam com a vinda de doutores estrangeiros para cobrir déficit de profissionais, especialmente nos rincões do país. Reivindicam a derrubada do veto presidencial sobre o chamado Ato Médico, que fixava supremacia da categoria em relação a outros trabalhadores do universo sanitário.

São reivindicações de quem olha para o próprio umbigo. Insuflada pelos extratos mais ricos e articulados com o conservadorismo, a mobilização médica não entra na briga para a melhoria da saúde pública. Seus maiores aliados são os que comandaram campanha para eliminar a CPMF e retiraram cerca de 40 bilhões de reais anuais para o financiamento do setor.

Não passa de deslavada hipocrisia quando se afirma que o problema não é a falta de médicos, mas a carência de estrutura nos hospitais e centros de atendimento. As dificuldades são inegáveis, isso é fato. No contexto deste embate, porém, não passam de álibi para que o andar de cima possa fazer sua vida sem reciprocidade com os milhões de brasileiros que suaram a camisa e pagaram impostos para garantir a existência de boas faculdades públicas de medicina.

O Brasil tem um número pífio de médicos, na proporção de 1,8 para cada mil habitantes. Na Inglaterra, esse índice é de 2,7. Em Cuba, de 6. Nos últimos dez anos, surgiram 147 mil novas vagas no mercado de trabalho, mas apenas 93 mil profissionais foram formados. Há 1,9 mil municípios com menos de um médico por 3 mil habitantes. Em outras 700 cidades, não há doutores com residência fixa. Nem é preciso dizer que esses 2,6 mil municípios sem assistência adequada estão entre os mais pobres e distantes dos grandes centros.

O governo criou o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), para levar médicos ao interior e aos subúrbios. A demanda era de 13 mil trabalhadores, mas apenas 3,8 mil postos foram preenchidos, apesar do salário de 8 mil reais que é oferecido, agora aumentado para 10 mil no Programa Mais Médicos. Até mesmo bairro periféricos de cidades importantes, como Porto Alegre e São Paulo, não conseguem atrair interessados.

Parte expressiva da categoria, diplomada em instituições do Estado, não está nem aí para a hora do Brasil. Não quer sair de sua zona de conforto e se acha no direito de pensar apenas em carreira pessoal e montar um rentável consultório privado em alguma metrópole.

Entidades da área, especialmente o Conselho Federal de Medicina, fazem de tudo para impedir a ampliação do número de faculdades (em nome da qualidade de ensino, é claro) e a contratação de médicos estrangeiros ou formados no exterior. A reserva de mercado, para essa gente, está acima da saúde pública.

E essa gente é muito diferenciada. Enquanto 40% do total de alunos da Universidade de São Paulo frequentaram colégios públicos, na Faculdade de Medicina essa origem restringe-se a 2% dos matriculados. Na turma de 2013, nenhum deles era negro. Médicos ricos querem ficar mais ricos atendendo os ricos. Como os pobres têm bem menos chances de ganhar o canudo, esses que se lasquem.

O governo tentou resolver o problema apenas por métodos de atração. Não encontrou auditório. Resolveu, então, adotar um modelo semelhante àquele adotado, há décadas, por países tão distintos quanto Israel e Cuba, instituindo uma variante de serviço civil obrigatório, ainda que bem remunerado.

A formação de um médico, na universidade pública, custa ao redor de 800 mil reais para o tesouro da União e dos estados. Nada mais justo que haja alguma forma de retribuição pelo aporte realizado por toda a sociedade para cada indivíduo que virou doutor. Dois anos de reembolso, com um razoável contracheque, é uma bagatela. Vale lembrar que o dever do Estado é com o povo, não com os médicos.

Talvez os estudantes das faculdades privadas pudessem estar isentos dessa medida, mas todo o cuidado é pouco para evitar que os endinheirados aproveitem brechas para escapar de sua obrigação social, trocando de curso. Uma ou outra correção cabe ser feita, mas o ministro da Saúde e a presidente Dilma Rousseff estão cumprindo sua tarefa constitucional.

O que falta, além de mobilizar os setores da saúde favoráveis às providências adotadas, é travar uma batalha de valores mais firme sobre o programa em discussão. Por enquanto, parece que a preocupação principal é acalmar a ira de médicos ensandecidos pelo egoísmo de classe. O objetivo principal deveria ser debater os deveres de solidariedade dos que recebem privilégios e os direitos de todos a receber assistência médica de qualidade.

Não se pode dar moleza a porta-vozes da ignorância e má fé. Quando personagens como Cláudio Lottenberg e Miguel Srougi se voltam contra a vinda de médicos cubanos, há pouco o que acrescentar. Mentem descaradamente sobre a qualidade desses especialistas, cuja proficiência é atestada pela Organização Mundial da Saúde e pelas 65 nações nas quais trabalham para suprir deficiências locais.

Afinal, seria um horror para o reacionarismo de branco assistir médicos da ilha de Fidel, muitos entre eles negros, pegando no batente em locais para os quais seus colegas brasileiros viram as costas e tapam o nariz. A nudez de seu comportamento lhes seria insuportável.

Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

Publicado originalmente no Brasil 247.

(Foto de capa: Raphael Tsavkko Garcia / Flickr)



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3 comments

  1. Humberto L. Vilhena Responder

    Curioso o termo os médicos, generalização lembra factóide, Será que o editorialista já se deu conta do número de profissionais que hoje seguram o SUS? Já pensou que a falta de um plano de cargos com uso de incentivos e bolsas é apenas um artifício para mudar o sistema? Pois a menos que esteja pautado, deveria!

  2. Augusta De Souza Novaes Responder

    Num país hiper tributado, como o Brasil, onde as chamadas “elites” ( na verdade é a classe média raladora), não têm retorno dos seus impostos, não vejo pq os alunos de Medicina, das faculdades públicas ou privadas, terem que pagar com dois anos de trabalho obrigatório no SUS… Chega de pagar a conta! Já está paga e com muito crédito! Também não precisamos de médicos cubanos, precisamos que o governo faça a lição de casa. Hospitais com estrutura em todo o país! Aliás, escolas de qualidade, previdência, segurança, lazer, estradas. queremos transparência nos gastos públicos e punição para políticos e magistrados, que zombam das verbas públicas . Queremos ter o controle do que fazem do nosso dinheiro. Queremos ter mais do nosso dinheiro gastos com coisas que nos dão prazer, merecemos mais qualidade de vida! Queremos que os corruptos tenham seus bens sequestrados e que sejam presos. Queremos tudo e queremos já! Estamos de “saco cheio” de não podermos nos utilizar dos serviços, que já foram pagos, com tributos extorsivos por nós, “elite conservadora” , na verdade somos classe média,muito trabalhadora/raladora e mal remunerada! Ah, estudar em escola particular não é Privilégio, é Ônus para os pais!!! Onde está a Escola Pública de Qualidade, para que brancos e negros, pobres e “elite” , possam ser bem formados?! Escolhemos a ESCOLA PARTICULAR, POIS QUEREMOS UMA BOA FORMAÇÃO INTELECTUAL PARA OS NOSSOS FILHOS! Que o governo faça o para casa e nos DESONERE! Seria maravilhoso, poder investir o que gastamos com a educação dos nossos filhos, para envelhecermos com mais segurança financeira… Chega de sermos malhados!

  3. Fabio Responder

    Número pífio de médicos? A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda 1 médico para cada 1000 habitantes, sendo que no Brasil como um todo o número é de 1,8/mil… Em cidades grandes (e não só nas capitais) esse número é muito maior… O Brasil possui atualmente 198 faculdades de Medicina, número maior que a China e que os EUA… Qualquer pessoa com QI mínimo sabe que o problema não é a falta, e sim a distribuição… A pergunta que tem que ser feita não é “Cadê o médico?” e sim “Por que o médico não está aqui?”… Ninguém consegue trabalhar sem condições e estrutura… Peça a um engenheiro fazer um projeito com um papel e uma caneta apenas, diga que ele não vai ter material adequado para utilizar e peça para ele assinar a responsabilidade da obra, e pergunta se ele vai querer… Nenhum médico é contra a vinda de médicos estrangeiros, desde que sejam devidamente aptos a isso, portanto sejam submetidos ao exame nacional de revalidação, como é em qualquer outro país do mundo… Dos formados em Cuba, apenas 9% conseguiram revalidar seus diplomas no Brasil.. Por que será? A prova é tão difícil assim? Ao olhar toda a prova, disponível na Internet, observamos que não… Será que sua “proficiência” é mesmo atestada pela OMS e por 65 (!!) países? Acredito que não.. Por que então Paraguai e Bolívia rejeitaram os médicos cubanos? Alegaram que sua formação é a mesma de um enfermeiro, podem procurar essa reportagem na internet… Aqueles que tem menos oportunidades conseguiriam o diploma se houvesse uma reforma no ensino básico e médio do país, mas isso, que é essencial, o governo não se propõe a fazer… Os argumentos desse artigo acima são falhos e inocentes, ao observarmos um por um. A maioria dos médicos recém-formados está, sim, preocupada com a saúde do país, pois trabalham no SUS e sentem na pele a falta de seringas, agulhas, soro fisiológico e medicamentos quando um paciente precisa… Mas isso quem escreve o tipo de texto acima não sabe que se enfrenta no dia-a-dia do SUS.. E ao invés de melhorarmos, chamamos os médicos de fora.. Espero que eles tenham visão de Raio-X e carreguem seringas, agulhas, e soro fisiológico nos bolsos, porque senão a coisa vai ficar feia..


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