Allan da Rosa: Verdura e feijão – Entre a oferenda e a oferta

Em Niterói, pro amém da peregrinação papal de novo sangraram a Terra. Em pleno parque de conservação ambiental derrubaram 300 árvores centenárias, abrindo conforto pra missa

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Em Niterói, pro amém da peregrinação papal de novo sangraram a Terra. Em pleno parque de conservação ambiental derrubaram 300 árvores centenárias, abrindo conforto pra missa

Por Allan da Rosa

Nos calombos entre a oferenda e a oferta, até outubro o Brasil vai importar 200 mil toneladas de feijão, falou o ministro da agricultura. Que fartura (Imagem: Divulgação)

Em Niterói, pro amém da peregrinação papal de novo sangraram a Terra. Em pleno parque de conservação ambiental derrubaram 300 árvores centenárias, abrindo conforto pra missa.  Nada de novo em cinco séculos de colônia, com alguns milhões de mortos e de patrocínio bento. Mas qual o salmo dessa serra elétrica? Fazer mais cruz ou mais palanque?

Aqui Brasil, floresta é fonte e é mata. Mata. Quem não se orienta e não reverencia, arreia e vira compostagem mais cedo. Tatas, kotas e xicarangomas nos ensinam a graça da harmonia, a trança entre o que é hoje, amanhã e ontem. E ensinam a sina das pelejas. Há uns anos atrás, no mesmo Rio de Janeiro, Aderbal Ashogun atiçou: se querem tesourar nossos terreiros da Floresta da Tijuca, derrubem o Cristo Redentor também. Aqui é nossa casa, foram cinco negros que reflorestaram. Sabia, ecologia? Mas como sempre, no alto da página o empreendimento ficou por conta do mandante, aquele um. A pinimba esquentou e quase triscando em tribunal sentiram o drama. Pra garantir estátua e cartão postal perseverou a negraça. Alma é cultura.

Terra colhe lágrimas, inda há de nascer a árvore que dá fruta-sal. Logo confiscada por qualquer sementeira de veneno (A amada Monsanto garantiu agorinha na Europa a patente do brócolis…) Fosse ainda o tempo das pacoteiras e não do dinheiro digitado, arrastado no teclado pra onde o chicote seja mais lucrativo no mundão, o tolete de notas seria injetado direto no cofre do chão, enquanto La Pachamama não endurece de vez na pirraça mais justa. Troco vem sem dó e não se paga com royalties. Tá escrito no sangue e no vento, carimbado pelas vozes antigas. Acredita quem quer e quem pode. Onde é o inferno que enfiaram na cartilha?

Vereadores de Piracicaba proibiram sacrifício de animais no ritual dos candomblés. Decretada a lei, foram comemorar na churrascaria? Tim tim… já quem votou e orou, capaz que foi num hambúrguer descongelado da esquina. Podia ler o Levíticos no livro sagrado enquanto mastiga… compreensão casa. O que tem trato e respeito, fundamento na hora do corte e do ebó, não rima com gaiola de vaca louca nem MacMinhoca sadia.

Nos calombos entre a oferenda e a oferta, até outubro o Brasil vai importar 200 mil toneladas de feijão, falou o ministro da agricultura. Que fartura. Terra blindada até cintila. Verde é o dólar. O governo precisa de paz e de acertos com as bancadas da enxada elétrica e do dízimo pra guiar nosso bem viver.

Terra colhe lágrimas, inda há de nascer a árvore que dá fruta-sal. Logo confiscada por qualquer sementeira de veneno (A amada Monsanto garantiu agorinha na Europa a patente do brócolis…) (Foto: Divulgação)

Uma porcentagem fácil pra matemática da barriga. A Associação Brasileira de Reforma Agrária diz que de 90 até 2011 as áreas capinadas pra alimentos básicos como arroz, feijão, mandioca e trigo caíram, respectivamente, 31%, 26%, 11% e 35%. No mesmo intervalo, o chão pro agronegócio exportador, pra mercadorias como cana e soja, aumentou 122% e 107%.

Nas quebradas urbanas, longe da roça mas espremidos nos novos latifúndios e navios negreiros, arranhamos os porques do preço do feijão subir tanto: um motivo é a seca nordestina que espreme a esperança. Tristeza é o sobrenome de muitos. Terra esbagaçada depois de séculos de moenda babenta chupando todo açúcar possível da produção, melando castelos, gravatas e chaminés europeias, adoçando chácaras, paletós e jagunços do sinhôzin. Vampirizando africanias. Mas o outro motivo pra gente devolver o feijão na banca na quitanda, tirar batata do saco na hora da balança com o mais da sopa, é a sangria que banca as fazendonas, acocha índios no confinamento federal e comemora o crescimento da roleta no cassino.
Meu mano Baltazar, cantador da Preto Soul, já lançou: “No Brasil, quem não é índio é negro. Eu sou os dois”.

Aqui em São Paulo a Secretaria do verde é gabinete das cinzas, em breve deve chegar novo edital pra logotipo. Povo do desenho, atente: vá pensando imagem bacana pro concurso do novo cartaz. Secretaria das cinzas. Combinando com fardas e aventais. Com menos mato quais serão as novas valas pra quem cai de borco nos enquadros e coturnadas do medo nosso de cada dia?

Movimentos ambientais avisam da joça que vigora na atual gestão da Secretaria do Verde, domínio de um brucutu surdo. Não há diálogo, há mando e exonerações politiqueiras. O senhor Clodoaldo Cajado, há anos administrador do Parque Santo Dias, revitalizou a verdejança no Capão Redondo. Com coletivos e usuários, debateu plantio, conservação, ancestralidade, seminários de educação ambiental e também acolheu debates sobre direitos humanos. De cima veio pro seu cangote um sai-fora. Ele e mais uma leva de gente formada em engenharia ambiental, florestal e agronomia, de papo fértil com o povo dos bairros, foi exonerada por quem chegou sem essa mínima formação exigida por lei, mas com diplomas rápidos de internet ou nem isso. O que importa é ser do time, bancar candidaturas nas eleições que vem? Não importa se vai calar a boca e as mãos. Trocadas as mudas verdes pelos mudos cinza.

Os coletivos ambientais acusam favorecimento de empreiteiras, pra variar. E dizem que já caducou o contrato de serviços de segurança e limpeza de vários parques municipais. Há mais uma anomalia: o atual secretário do verde, senhor Ricardo Teixeira, de famosa truculência, pretende doar ou vender viveiros em nome do corte de custos e responde inquérito instaurado pela Promotoria de… Justiça do Meio Ambiente de São Paulo.

Bem, São Paulo gira nas retas. Cimento e paúra. Vitrine é paisagem, cartão de crédito é travesseiro. Combina com a Secretaria da Saúde, há tempos já Secretaria da Doença.

No Pronto Socorro do Servidor Público, na Vergueiro, entre a orquestra de gemidos, a falta de ar e as ponteiras nas costelas aposentadas, o povo se abana um ao outro, ou se encara e se jura no saguão abarrotado, esperando a consulta movido a Datena e à Cidade Alerta. É ali a preliminar do exame. Esporros teatrais, escândalos calculados, helicóptero musical sobrevoando o gueto e mirando o preto escolhido a meliante da vez. Pausa para as notícias do congestionamento. Breque pros anunciantes e a saúde bombada de academia, a modelo apertadinha. Até a volta ao pânico. Terapêutico saguão de espera.

Horas com essa sessão holística, novo conceito de saúde integral. E chega a hora da ginga necessária pra não cutucar ninguém dos leitos encavalados até nos degraus das escadas. O corredor é o hotel de guerra. O caminho da glória no encontro com um médico amaciado pra pensar em máquinas e comprimidos, não em gente. Vem a receita de dopar. Uma vertigem gostosa. Sonhar com uma praia deserta, golfinhos comendo feijão.

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