“Mais fácil matar do que cuidar”, diz sobrevivente do Massacre da Candelária

Wagner Santos é pessimista em relação à violência nas periferias e alerta para as chacinas que continuam acontecendo no país

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Wagner Santos é pessimista em relação à violência nas periferias e alerta para as chacinas que continuam acontecendo no país

Por Redação

Chacina da Candelária completa 20 anos (Foto: Divulgação)

Wagner Santos é o único sobrevivente de uma das maiores tragédias da história recente do Brasil, o Massacre da Candelária. Nesta terça-feira (23), quando o episódio completa 20 anos, ele enviou uma carta aos governantes brasileiros na qual pede que as autoridades pensem sobre a repetição de atos de violência policial no país. O documento foi escrito em Genebra, onde Santos vive desde 1996, após sofrer ameaças de morte no Brasil.

Confira a carta:  

Prezados Governantes do Brasil,

Para mim, vinte anos passados da Chacina da Candelária, pouca coisa mudou.  Na noite do dia 23 de julho 1993, quando eu estava na Rua Dom Geraldo caminhado para comprar cigarro, passou um carro por mim eu continuei andando. Olhei para trás e pude ver dois garotos vindo. Foi ai que percebei que o tal carro estava voltando. Logo em seguida fui abordado e colocado no carro. Dentro do automóvel, começou uma discussão entre as pessoas que estavam lá e uma delas estava com uma arma apontada para minha cabeça. Foi quando senti uma coisa entrando na minha cabeça. Acabei perdendo a consciência, voltando a acordar apenas nas proximidades do Museu de Arte Moderna.

Ai, como todos já sabem, começaria o meu martírio, ficando no hospital sendo desrespeitado por todos e recebendo ameaças de todos os tipos, levando-me ao ponto de deixar uma carta de despedida para todos que estavam me ajudando e cortar os meus pulsos. Passado este tempo, considero que, para mim, Wagner, naquele momento o governo do Brasil tinha a oportunidade de fazer uma mudança profunda, mas não quis e preferiu continuar e deixar tudo do mesmo jeito.

Fui discriminado até no julgamento, porque as autoridades não respeitavam a palavra de um morador de rua, pois assim eu era considerado. Não tive sequer direito à indenização do estado e fui obrigado a deixar o país, pois este não tinha condição de me manter vivo. Até hoje aguarda pela cirurgia reparadora facial.  São vinte anos de falta de respeito dos governantes, de falta de políticas públicas para os jovens pobres e negros. Não se investe nas crianças.  Mais fácil matar do que cuidar. Eu fico acompanhando as noticias do Brasil e vejo que o país ainda esta longe de ser um país  voltado para a população mais pobre. Ao contrário, direciona suas ações para privilegiar a população de condição financeira alta.

Agora, com as manifestações, os governantes estão sendo obrigados a dar uma resposta para a população que esta cheia da corrupção e da forma como o Estado lhes trata. Falta de dinheiro para saúde, falta um salário melhor para os professores. Os governantes ainda inovam com o chamado recolhimento compulsório levando as pessoas para aqueles lugares que não têm condições algum para receber seres humanos que precisam de ajuda, justamente porque eles não perguntam o que as pessoas querem, vindo sempre com a coisa pronta. Em outros países,  os governantes escutam a população.

Tenho visto que nos últimos anos tem aparecido pessoas se dizendo sobreviventes, mas que nunca apareceram ao longo deste período em todo o processo. Mas, afirmo que só quem tem autorização para falar em meu nome é minha família, especialmente a minha irmã, Patrícia de Oliveira.

Eu não acredito em mudanças no Brasil.  Gostaria muito, mas voltar ao meu país  é algo que vai demorar muito, se é que isso vai ser possível algum dia. Infelizmente, sou mais respeitado fora dele.

Espero, sinceramente, que os governantes brasileiros acabem com as chacinas que até hoje ocorrem, seja com moradores de rua, seja nas comunidades país afora. Se isso não acontecer, será muito difícil continuar dizendo que o Brasil é uma democracia.

Wagner dos Santos,

Genebra, 22 de julho de 2013

 



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