Nuestra América

Foi dramático, mas não poderia ser de outra forma. Um clube que tem o escritor Aníbal Machado, mestre na narrativa do sofrimento, como o jogador que marcou o primeiro gol da sua história, parece fadado às emoções mais vigorosas

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Foi dramático, mas não poderia ser de outra forma. Um clube que tem o escritor Aníbal Machado, mestre na narrativa do sofrimento, como o jogador que marcou o primeiro gol da sua história, parece fadado às emoções mais vigorosas

Por André Rubião

Foi dramático, mas não poderia ser de outra forma. Um clube que tem o escritor Aníbal Machado, mestre na narrativa do sofrimento, como o jogador que marcou o primeiro gol da sua história, parece fadado às emoções mais vigorosas.

O GALO É CAMPEÃO DA LIBERTADORES!

Assim mesmo, em destaque, com caixa alta, porque esse grito estava entalado na garganta de todos os atleticanos.

Hoje, finalmente, a deusa Têmis exerceu o seu poder. Pois do outro lado, na última batalha, havia o Olímpia: essa equipe de guerreiros xamânicos, representantes de um país e de um povo indígena duramente castigados pela história. Numa situação normal, como disse o grande Xico Sá, os paraguaios mereciam toda a torcida e compaixão. Os seres humanos, afinal, deveriam ansiar pela vitória dos mais fracos.

Mas o adversário era o Galo! Ele mesmo, o Clube Atlético Mineiro, o time mais injustiçado do mundo: que o digam 1977, 1978, 1979, 1980, 1981, 1987, 1991, 1996, 1999, 2001, 2012; que o digam José Roberto Wright, Carlos Simon e todos aqueles que contribuíram para a sina dessa torcida apaixonada.

Nesses últimos meses foi diferente. Dizem que em dezembro de 2012 começou uma nova era. Para os atleticanos, com certeza: porque ninguém vai desmentir que nós conseguimos desenterrar aquele sapo fedorento, conseguimos retirar as agulhas encravadas nos bonecos, conseguimos apagar as velas feiticeiras, conseguimos espantar, definitivamente, todos os chifrudos salafrários que assombravam essa nação alvinegra.

Foi preciso muita fé. O Cuca, com a virgem Maria, contribui. Todo atleticano, ao repetir a roupa nos dias dos jogos, contribuiu. O presidente Kalil, assistindo aos jogos na sua TV pequena e antiga, contribuiu. Os jogadores, com as mãos apontadas para cima, contribuíram. O saudoso Roberto Drummond, torcendo contra o vento lá de cima, contribui. Até o Papa, após abençoar o nosso manto sagrado, contribuiu para a conquista.

Amém! Porque a massa, raçuda, merecia. Foi o cronista Fred Melo Paiva, ao revelar que disse para o seu pai, com câncer, que ele deveria ser mais atleticano do que nunca, quem melhor diagnosticou esse sentimento que rasga a veia de toda alma preta e branca.

Sim, qualquer um que presenciou o inferno alvinegro, que cantou o hino no estádio, que viu o sujeito gritar Galo após um copo quebrado, que assistiu um jogo no bar do Salomão, que foi 100% Galoucura, que sofreu com esse time ao longo da história, qualquer um sabe que essa é a torcida mais fanática do Brasil.

E nós acreditamos! Acreditamos no Victor, abençoado; acreditamos no Réver, no Léo e no Gilberto Silva, tanto na defesa como no ataque; acreditamos no Richalyson e no Marcos Rocha, apesar da desconfiança; acreditamos nas mordidas do Pierre, do Josué e do Leandro Donizete; acreditamos na alegria das pernas do garoto Bernard; acreditamos na metralhadora do Diego Tardelli; acreditamos na frieza do Guilherme; acreditamos no estilo maluco do Luan; acreditamos nos vôo do Jô; acreditamos na batuta de um gênio que responde por R10.

Hoje, dia 25 de julho de 2013, é o dia mais feliz da nossa história. Outras conquistas? Sempre teremos. Mas há um sentimento, do qual nós sempre nos orgulhamos ao longo desses anos sofridos, que nós sempre esfregamos na cara dos nossos rivais, que nós sempre suspeitamos e que agora temos certeza e que jamais podemos esquecer: ser atleticano, por si só, vale mais do que qualquer título ordinário.

Aqui é Galo!

P.S.: A nota de desalento fica por conta do público no estádio. Num país mestiço, num clube de massa, é triste ver 90% dos presentes com a pele branca, é triste ver pessoas deixando de ir porque não têm dinheiro para pagar. Não deixemos, após junho de 2013, nosso espírito crítico de lado: a Nustra América, que estampa o título desse artigo, muito além da Copa Libertadores, é o canto do poeta José Martí por um mundo melhor.

André Rubião é membro do Coletivo 21, grupo de escritores mineiros.  



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1 comment

  1. Leandro Responder

    Quando misticismo bobo. É só futebol.


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