A evolução do narcotráfico

Para especialista, elevação do preço das drogas gerou capitais usados na reprodução dos crimes, mas também na especulação imobiliária que iniciou a crise econômico-financeira nos EUA

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Para especialista, elevação do preço das drogas gerou capitais usados na reprodução dos crimes, mas também na especulação imobiliária que iniciou a crise econômico-financeira nos EUA

Texto e fotos por Frédi Vasconcelos

O equatoriano Fernando Carrión Mena é coordenador do Programa de Estudos da Cidade da Faculdade Latino–Americana de Ciências Sociais (Flacso) em seu país, presidente da Organização Latino-americana e do Caribe de Centros Históricos (Olacchi) e editorialista do Diário Hoy. Entre os temas que vem estudando está o da segurança pública e a atuação dos narcotraficantes. Nesta entrevista concedida durante sua participação em um seminário no Brasil, no qual apresentou trabalho que destaca o aumento da violência em várias regiões do planeta, ele lembra que a criminalidade associada ao narcotráfico vem se modificando em especial na forma de atuação, e que já não se pode falar em países produtores e consumidores, pois há produção em países como Estados Unidos e consumo na Colômbia.

Mena destaca que as políticas de enfrentamento como o Plano Colômbia chegaram a um orçamento de 100 bilhões de dólares e não resolveram o problema, ao contrário, aumentaram a violência. Enquanto isso, os preços das drogas também subiram e geraram capitais usados na reprodução dos crimes, mas também na especulação imobiliária. Para ele, apesar desse quadro complexo, o momento atual pode produzir soluções inovadoras. Confira os principais trechos abaixo.

Fórum – A violência é uma linha de pesquisa a que o senhor se dedica há muito tempo. Fala, por exemplo, do crescimento da violência em todo o mundo nos últimos anos. Por que isso acontece?
Fernando Carrión Mena – Sinto que a violência, sobretudo na América Latina, tem crescido de 20 anos para cá. Principalmente pelo desmonte do Estado e pela desregulação do mercado. A partir desse momento, se duplicam as taxas de homicídio, na média, em todos os países. Há exceções, mas na média isso ocorre. Há diferenças por regiões, na área andina, por exemplo, a violência está altamente vinculada ao narcotráfico, principalmente pelo peso que têm Peru e Colômbia. No Cone Sul, a violência é associada principalmente à delinquência comum. Na América Central, pela passagem das drogas, já que por lá circulam cerca de 82% da cocaína que se produz na área andina, o que leva a delitos conexos ao narcotráfico. Sem contar o fenômeno dos Maras [uma espécie de gangue com atividades que vão de assaltos a tráfico de armas, de drogas e seres humanos], que são modelos que se produzem com o ir e vir migratórios das populações, principalmente em países como Guatemala, Honduras e El Salvador.

Outro caso sintomático é o do México, porque é um país com relativamente baixas taxas de violência na faixa central de seu território, mas muito altas na fronteira com os Estados Unidos, por conta de atividades associadas ao narcotráfico, tráfico ilegal de pessoas e contrabando.

Fórum – O senhor fala de cartéis mexicanos envolvido nessas práticas…
Mena – O mais importante do México é o Cartel de Sinaloa, que sustento que não seja nem um cartel, nem de Sinaloa. Digo isso porque ele tem presença em 51 países, um quarto dos países do planeta. Por outro lado, não é um cartel porque opera com pouco mais de 4 mil empresas legais, que estão embaixo de sua própria estrutura administrativa. Hoje é menos um cartel que uma holding de articulação de um conjunto de empresas ligadas ao desenvolvimento da América Latina.

Fórum – Mas essa holding começou com o narcotráfico?
Mena –  Quando se estabelece o Plano Colômbia, a guerra contra o narcotráfico no país, há uma significativa redução dos territórios de produção de coca e dos delitos colaterais ligados ao narcotráfico, porque se expulsam as atividades ilegais do território colombiano para vizinhos como Venezuela e Equador. E se produz uma transformação total do sistema do setor do narcóticos, em que já não são os cartéis territoriais, como os de Cali e Medellín, que têm o controle de todo o processo. O comando passa a ser daqueles que controlam as rotas e, nesse sentido, principalmente os cartéis mexicanos como o de Sinaloa, do Golfo, posteriormente dos irmãos Bertrande Leiva e de Ciudad Juarez. Há uma redução na Colômbia, mas se generaliza na América Latina uma articulação de todo o setor da economia vinculado ao narcótico.

Fórum – A ironia é que o “combate às drogas” dos Estados Unidos trouxe o tráfico para mais perto de suas fronteiras…
Mena –  No geral, o que se vê é que esse tipo de política que começou na Colômbia, totalmente focalizado, se rearticula e ocorre um deslocamento. Na Colômbia o que houve foram as duas coisas, rearticulação e deslocamento, principalmente afetando o México, onde já se vem aplicando há cerca de cinco anos o chamado Plano Mérida, fazendo com que [o narco] se desloque para a América Central, para Honduras, Guatemala e El Salvador. E agora estão repetindo o mesmo tipo de política focalizada nesses três países, e a impressão que tenho é que isso está baixando para o Brasil. Há uma série de estudos sobre a possibilidade de fazer uma planta de produção de coca na Amazônia. Se isso ocorrer, creio que o mundo mudaria completamente, porque numa área tão grande e inóspita como a Amazônia o nível de produção subiria substancialmente.

Fórum – E a Amazônia fica em grande parte no Brasil, mas é distribuída por vários países, um território internacional incontrolável…
Mena –  Isso é incrível, e é um dos motivos pelos quais em algum momento os Estados Unidos quiseram reivindicar que a Amazônia fosse declarada um patrimônio da humanidade. Era pelas plantas medicinais, pela bacia hidrográfica e, creio que, também, por uma estratégia contra o narcotráfico. E me parece que, nesse caso, o Brasil tem uma política nacionalista muito boa, de defender a Bacia Amazônica e, que funciona também para outros países da Bacia Amazônica, praticamente toda a América do Sul, com exceção de Uruguai e Chile. Isso é também uma grande política brasileira de integração na Unasul e de toda a parte sul do continente.

Fórum – Essa estratégia de combater o narcotráfico militarmente é burra, o essencial não é combater a lavagem de dinheiro?
Mena –  O que se vê claramente com essa política que começou com Richard Nixon, com um orçamento de 100 milhões de dólares, é que, depois de 42 anos, o orçamento chegou hoje a 58 bilhões de dólares só por parte do governo dos Estados Unidos. Se medirmos por aí já dá para ver que essa política não dá resultados. Mas se somarmos a quantidade de vítimas produzidas, a globalização do consumo, a consolidação de um setor da economia, creio que isso seria suficiente para mudar essa política de combate ao narcotráfico. Mas a impressão que me dá é que existe uma diferença entre o pensamento hegemônico norte-americano e o que e o que está ocorrendo nos estratos mais baixos da população. Na reeleição de Obama, em dois estados, Colorado e Washington, fizeram plebiscito, e nos dois casos foi aprovada a legalização do consumo de maconha. Aí somam-se mais 17 estados que reconheceram o uso da maconha para efeitos medicinais. E isso, creio, vai obrigar a existência de mudanças mesmo dentro dos Estados Unidos.

Fórum – O senhor também já declarou que hoje os Estados Unidos não são apenas consumidores, mas existe produção de maconha no país?
Mena –  Sim, principalmente na região da Califórnia, onde há também a possibilidade de mais mudanças com um futuro plebiscito, com alterações na produção, distribuição e consumo legal da maconha. Mas hoje já se produzem nos Estados Unidos drogas ilegais como a maconha e drogas químicas. Isso faz do país não só um consumidor, mas também produtor.

Na América Latina, também vêm ocorrendo mudanças. Antes éramos produtores e agora também somos consumidores. O que dá a impressão de que essa lógica de atacar só a oferta ou só a demanda, dependendo do país, não funciona. Hoje estamos muito mais próximos dos países desenvolvidos, que são tradicionalmente consumidores, do que apenas produtores. E por isso, pela primeira, vez há uma condição estrutural, histórica, para encarar uma nova maneira de combater o narcotráfico.

Fórum – Em suas pesquisas, o senhor também aponta que boa parte da especulação imobiliária na América Latina e no mundo se deve à lavagem de dinheiro do narcotráfico e de outros negócios ilegais…
Mena – Há dois indícios. Um é a própria crise das hipotecas nos Estados Unidos, que se estendeu ao mundo, principalmente à Europa. Essa crise afetou fortemente a economia do narcotráfico. Como se expressa isso? Primeiro, começa a haver uma nova disputa de mercado, o que gera índices de violência muito altos em nível mundial. Em segundo lugar, o que temos é uma mudança da venda, que não se faz mais de maneira líquida, com as moedas locais, mas por meio de outros mecanismos. Outra questão é que se vê, por estudos feitos na Flórida, que apenas 20% dos recursos da venda da cocaína ou de outros narcóticos ficam nos locais de produção na América do Sul. Cerca de 80% ficam nos Estados Unidos. Isso como consequência dos preços. Os preços na Colômbia são relativamente baixos, ao redor de 1,8 mil dólares o quilo, e nas ruas de Nova Iorque estão a 120 mil. Segundo estudos feitos principalmente na Itália, do dinheiro arrecadado com o narcotráfico, de 25% a 30% são usados para reproduzir o ilícito, com tecnologia, pagamentos a empregados etc. Cerca de 75% ou 70% do dinheiro arrecadado entra na economia. Em outras palavras, na América Latina estariam entrando na economia legal ao redor de 100 bilhões de dólares, principalmente no setores imobiliário, transporte, comércio e turismo. Obviamente que isso muda de acordo com o país, mas esses são os setores a que mais se destinam. Tenho essa impressão, porque em geral se está vivendo uma bolha imobiliária, não há uma explicação muito clara de por que isso está ocorrendo. E creio que um dos fatores que explicam o boom é o dinheiro especulativo do narcotráfico.

Fórum – E esse dinheiro que se reproduz depois acaba gerando mais violência com a maior capitalização desses grupos criminosos…
Mena – Existe isso, mas me parece que depende muito das políticas que são adotadas. No caso específico do estado de São Paulo, há um par de anos havia uma política que me parecia mais preventiva e dava mais resultados. Agora se está adotando uma política mais de guerra, mais de confronto, e isso tem aumentado a violência. Aliás, o mesmo que ocorreu no México. Antes, os níveis de violência na fronteira eram baixos, apesar dos indícios das ilegalidades que existiam e dos mercados ilícitos vinculados ao tráfico de pessoas, armas, narcotráfico etc. No Peru, há também caso parecido, em geral com taxas baixas de homicídios, mas com produção relativamente alta de cocaína. Aqui há uma dinâmica que faz com que seja mais violento ou menos violento segundo o tipo de política que se executa. O ex-presidente mexicano Vicente Fox, por exemplo, é umas das pessoas que defende que se deve negociar com esses setores. E me dá a impressão que, em sua época, provavelmente negociou. Porque o que posteriormente aconteceu com a presidência de [Felipe] Calderón foi uma guerra explícita às drogas, que gerou uma quantidade de mortes, que em dezembro [de 2012] deve ter passado de 60 mil pessoas.

Fórum – É necessário combater o tráfico, mas quando se combate gera-se mais violência. Há saída?
Mena – Creio que sim e me parece que estamos entrando numa conjuntura interessante em termos históricos. Existem setores da opinião pública que estão defendendo coisas distintas, por exemplo, o tema da legalização não é tabu. No Uruguai já há projeto que visa a descriminalizar a produção e o consumo de maconha. Há experiência desse tipo também na Bélgica, na Holanda… Em países da América Latina, o debate sobre a descriminalização do uso já é importante, porque o consumidor não é mais visto como delinquente, mas sim como um enfermo que necessita de políticas de saúde pública. Fico com a impressão de que começa a existir o desenho de uma nova política de segurança que não seja exclusivamente o combate, que tem trazido poucos resultados.

Mas não é apenas a legalização que vai resolver os problemas. Em nossos países somos levados a crer que com uma lei resolvemos tudo… Parece que a legalização é importante, mas também se necessita de política econômica, como acabar com os paraísos fiscais, porque a corrupção está aí. Com esse dinheiro são “influenciados” muitos funcionários públicos, e o dinheiro aparece nesses paraísos fiscais. O caso de Mônaco é muito interessante porque lá vivem 36 mil pessoas, mas têm 460 mil contas correntes. E é necessário enfrentar as assimetrias legais que temos, porque as leis são aprovadas pelos parlamentos nacionais e isso faz com que num país A se tipifiquem determinados delitos e, num país B, outros. Ou se penalizem de maneira distinta determinados delitos. Essas assimetrias fazem com que os delitos busquem os espaços mais benignos para suas atividades. Há a necessidade de uma harmonização pelos menos na América do Sul e creio que, para isso, a Unasul poderia fazer coisas bem interessantes como tipificar dez, 12 tipos de delito para que sejam punidos da mesma forma. Porque se no Brasil há uma lei, na Colômbia outra, e no Equador outra, isso facilita as atividades ilegais.

É preciso também internacionalizar os serviços de inteligência porque a organização dos delitos é transnacional, global, e os crimes são locais. É necessário ter políticas de combate às organizações criminosas sem estar circunscrito apenas a seu território, e isso só é possível com essa integração dos trabalhos.  F

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