Os silêncios do Papa Francisco

Na visita à comunidade popular de Varginha, o pontífice perdeu três ótimas oportunidades para marcar seus gols e definir a partida

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Na visita à comunidade popular de Varginha, o pontífice perdeu três ótimas oportunidades para marcar seus gols e definir a partida

Por Pedro A. Ribeiro de Oliveira, na Adital

Se o primeiro grande objetivo do Papa é a reforma da Cúria romana, penso que sua estratégia por enquanto é de angariar simpatia da mídia, reforçar alianças, conquistar apoios massivos e, sobretudo, não alvoroçar a oposição – que até o momento está aparentemente quieta. É como no futebol, quando o time joga a partida de ida no campo adversário: reforça o meio-campo para não levar gol. É dentro dessa estratégia que entendo –embora o lamente– sua fala cautelosa durante a visita à comunidade popular da Varginha, no Rio de Janeiro. Francisco “tocou a bola” sem avançar; mas, sem, tampouco, dar espaços aos adversários. Distribuiu sorrisos e abraços, esbanjou simpatia, fez um discurso leve; enfim, fez uma visita pastoral que deixará boas recordações naquele povo sofrido. Perdeu, porém, três ótimas oportunidades para marcar seus gols e definir a partida.

A primeira oportunidade de gol foi a visita à capela da Comunidade: uma construção pequena, típica dos espaços católicos para as celebrações dominicais quando não vem o padre. Cenário ideal para o Papa falar sobre as Comunidades Eclesiais de Base e estimular a Igreja do Brasil a avançar nesse novo jeito de ser Igreja. Não seria preciso um longo discurso; bastaria explicitar que o Papa estava visitando e abençoando o espaço da CEB local. Seria um golaço!

Papa Francisco visita uma casa na Favela da Varginha

A segunda oportunidade estava no próprio tema central da sua fala: a solidariedade. Falou muito bem sobre a cultura da solidariedade que leva a “botar água no feijão”, mas não sobre sua forma política concreta: a economia solidária. Ela é capaz de alcançar êxitos extraordinários por meio de uma receita simples: impedir que o dinheiro se transforme em capital e se torne fonte de lucro e juros. Apontar, porém, uma alternativa prática contra o capitalismo poderia ser entendido como provocação aos conservadores. Novamente, Francisco optou pelo silêncio e perdeu o gol.

A terceira oportunidade estava à vista de todos, no campo de futebol de Varginha: um grande painel com a figura de D. Oscar Romero. Certamente, não passou despercebido do Papa. Uma simples menção que levasse ao mundo seu apreço pelo bispo mártir de Nossa América, seria um gol “de placa”. Mas o Papa parece que não viu…

Espero que esta seja mesmo apenas uma estratégia de início de pontificado e que, no próximo jogo Francisco não perca as oportunidades para marcar seus gols.



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1 comment

  1. Ademir Eing Responder

    E quanto ao fato de ter ído ao encontro do pastor e dos fiéis evangélicos, não teria sido um golaço? Enfim, o fato em si de ir à favela, de derramar lácrimas quando ali, naquela pequena casa com todas aquelas pessoas, algumas delas vindas de muito longe, não confirmam de modo gritante as palavras que ele tem dito e repetido quanto ao lugar da Igreja? … As CEB’s são um novo modo de ser Igreja, que já deu provas cabais do próprio valor. Dom Romero merece todo reconhecimento pelo cristão e pastor que foi e pela inspiração que continua sendo (As últimas notícias vindas de Roma parecem não deixar dúvidas quanto ao empenho de Francisco pelo reconhecimento de Dom Romero). Há muita gente que não pensa assim, mas eles não têm esse direito?
    Sabe o que me incomoda neste comentário? Um certo ranço que tanto mal tem feito e do qual considero necessário se libertar; a parcialidade que, nesse caso, acaba por permear a crítica de um negatividade injusta; a pretenção de saber quais as “jogadas” a serem feitas para se chegar ao gol. Na construção do Reino, penso, não se trata primeiramente de calcular jogadas, mas de se deixar conduzir pelo Espírito para discernir seus sinais e agir sob sua inspiração.

    Vejo Francisco não tanto como um estrategista, mas como um dom do Espírito à sua Igreja e ao mundo; vejo nele um homem livre, um cristão consequente e um pastor autêntico, por servir com alegria, sem pretenções pessoais e inclinações ideologizadas. É por isso, talvez, que me sinta impelido a este comentário.


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