Peter Singer: “Ética não é só sobre o que fazemos, é também sobre o que não fazemos”

Em discussão: Aborto, infanticídio, eutanásia, doping!

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Em discussão: Aborto, infanticídio, eutanásia, doping!

Por Ronaldo Ribeiro, de Nova Iorque

(Denise Applewhite/Princeton University)

Para um filósofo, Peter Singer adquiriu uma fama e tanto. É tão amado quanto é odiado. Foi chamado de “o mais notório mensageiro da morte” por uma autoridade religiosa de sua cidade natal, Melborne na Austrália. Foi acusado de eugenista, cruel, apologista da bestialidade, ateu sem escrúpulos, e atacado por toda sorte de xingamentos. Professor da universidade Princeton, uma das mais prestigiosas do mundo, em certos círculos acadêmicos ele é reconhecido como gênio. Em outros é visto como teórico que comete erros filosóficos crassos. Peter Singer se defende dizendo que são ataques de religiosos conservadores. Seu livro “Animal Liberation” (1975) é considerado o marco histórico que inicia o movimento dos direitos dos animais. Mesmo quando trata do mais espinhoso dos assuntos, Peter Singer fala de forma pausada, com uma clareza impressionante, como se escrevesse um texto oral. “Ética não é só sobre o que fazemos, é também sobre o que não fazemos”, diz Singer quando o pergunto se não doar dinheiro seria errado. “Sim, acho que é errado gastar com luxo se podemos usar o dinheiro para salvar vidas.” Foi logo após uma série de palestras na universidade Yale, e às vésperas de embarcar para a Europa, que falei com Peter Singer para a seguinte entrevista.

Fórum – O senhor é mundialmente conhecido por suas idéias sobre assuntos delicados como aborto, infanticídio, doping e direito dos animais. Quais são as bases teóricas ou os princípios que governam o seu pensamento e o tratamento dessas questões?

Peter Singer – Sou o que em filosofia chamamos de Utilitarista Preferencial. De forma concisa e simplificada, isso significa que messo minhas ações e as dos outros pelas suas consequências. Levo em conta de maneira igual os interesses de todos os envolvidos. E reconheço que diferentes interesses e preferências vão resultar em diferentes condições de pensamento e de vida.

Qual a sua posição sobre o aborto?

Muitos daqueles que defendem o direito das mulheres de abortar tentam encontrar um momento em que uma vida passa a existir, seja ele no momento da concepção, ou quando já há um grupo formado de células, um feto com batimento cardíaco, etc. Mesmo se considerarmos que já há vida nos estágios mais primordiais da gravidez, sou a favor do aborto, porque aquela vida ainda não constitui uma pessoa com individualidade, auto-compreensão, noção de passado e futuro. De acordo com o utilitarismo que defendo, são os interesses da mãe que devem prevalecer; interesses de uma pessoa com um entendimento complexo da vida, que reconhece seu passado e tenta articular seu futuro, contra o de uma vida que não pode fazer sentido de si própria.

A questão da “pessoalidade”, ou seja, as características que fazem de alguém uma pessoa estão também na base do seu raciocínio e da sua aprovação do infanticídio em determinadas circunstâncias?

Exatamente. Sofri ameaças quando cheguei em Princeton porque alguns conservadores diziam que eu era a favor de matar crianças deficientes. Um absurdo. Para tentar ser claro, se todos os envolvidos com a criança, seus pais, responsáveis, médicos, etc, julgarem que aquela será uma vida em que uma criança nunca se tornará o que entendemos por uma pessoa – com determinadas capacidades básicas de auto-compreensão, sensação, e entendimento, mesmo que rudimentar, acho justificável que todos eles decidam pela morte. Pense em uma criança sem cérebro, por exemplo. O que é que faz com que ela adquira o status de pessoa? Apenas por ser da nossa espécie? Se pensarmos no complexo entendimento que várias espécies animais tem de si próprio, como vivem em grupo, etc, podemos nos perguntar se não tem mais “pessoalidade” do que aquela criança sem cérebro. E se a existência dessa criança também for ser marcada por sofrimento, sim, sou a favor da morte da criança da maneira mais humana possível.

O caso do doping do ciclista Lance Armstrong casou a ira da maioria dos fãs ou apreciadores de esportes…

É verdade. Se não houver prejuízo para a saúde dos envolvidos, substâncias que melhorassem a performance dos atletas tornariam a disputa mais igual. Se alguém não possui atributos genéticos tão bons quanto outras pessoas, poderia recorrer a tais substâncias. Penso que assim o mérito estaria mais ligado ao esforço de cada um, e que o peso da sorte genética e de se ter determinados atributos físicos seria diminuída.

Apesar da polêmica que suas idéias geram, o senhor ficou mundialmente conhecido a partir da publicação do livro “Animal Liberation” (Libertação Animal), considerado extremamente inovador e mesmo radical para a época. Uma das idéias centrais do livro é o “especismo”. Pode explicar?

Especismo é a noção de que temos mais direitos e privilégios com relação a outros animais por pertencermos a uma determinada espécie, e que portanto podemos explorar as outras. Gosto de dizer que somos grande macacos, somos animais. Não há argumentos bem construídos que justifiquem que não tratemos os animais de forma digna.

O senhor acaba de ministrar um ciclo de palestras sobre “Altruísmo Eficiente” . O isso quer dizer?

Refiro-me a um grupo de pessoas que está debatendo estratégias e táticas não só para minimizar o sofrimento alheio mas fundamentalmente para preveni-lo. Fazer o bem para os outros pode parecer uma questão direta e óbvia. Em grande escala, quando vemos milhões de pessoas morrendo por falta de condições básicas de vida, faz-se necessário o uso de campanhas bem pensadas e bem conduzidas.

Falando em estratégias, acumular dinheiro e poder, como Bill Gates e George Soros, e então aliviar a dor dos outros? Ou ajudar aqueles que nos cercam, apesar dos nossos meios, como Madre Teresa de Calcutá? Há um caminho a seguir em uma vida ética e altruísta?

Apesar de uma certa resistência que algumas pessoas podem apresentar às figuras que acumularam grandes fortunas, de acordo com aqueles que concordam com o “Altruísmo Eficiente”, Bill Gates está prestando um serviço muito maior ao mundo. Não só em termos de escala, mas fundamentalmente porque as ações dos institutos que ele financia tentam prevenir e não simplesmente remediar os problemas sociais que enfrentam. É certo que Madre Teresa teve extremo valor e inspirou gerações de altruístas, mas ela tinha um comportamento reativo e não preventivo.

A necessidade de auto-preservação e defesa dos próprios interesses é um resquício da luta evolutiva pela sobrevivência. A metáfora da máscara de oxigênio nos aviões parece ilustrar tal lógica de forma aguda: “Antes de ajudar alguém coloque primeiro a sua máscara.” Por que é que alguém deveria agir de forma altruísta e não simplesmente de acordo com os seus interesses?

Como utilitarista preferencial, grosso modo, apoio aquelas ações que minimizam a dor e aumentam o prazer. Com frequência sou mal entendido ao dizer isso. Ironicamente, penso que quando alguém busca o prazer imediato sem levar em conta a satisfação mais duradoura em consequência dos seus atos, acaba se frustrando após momentos breves de prazer. É possível dizer, assim, que o altruísmo proporciona essa satisfação e prazer duradouros. O paradoxo, portanto, é que quanto mais se busca o prazer menos você o alcança em longo prazo. O altruísmo e as nossas condutas éticas e a moralidade podem ser explicados por esse viés utilitarista.

Com frequência o senhor se refere ao problema teórico da lagoa, dizendo que a maioria esmagadora das pessoas pularia em um lago se visse um garoto se afogando, independentemente das perdas materiais que teriam – se estivessem usando um Rólex de ouro que estragaria com a água, por exemplo. Quais são os mecanismos que não nos deixam agir com a mesma urgência e de forma altruísta no dia-a-dia?

Há vários mecanismos psicológicos envolvidos na justificação que alguém dá para não ajudar ou se envolver com causas alheias. O problema da lagoa expõe alguns desses mecanismos. Com frequência as pessoas acreditam que os problemas são grandes demais (a fome na África, por exemplo), e que seus atos não terão consequência ou que essa será mínima. Há também o medo da ajuda ou do dinheiro não chegar ao seu destinatário. Finalmente, não é possível perceber a urgência que existe em agir. Se uma criança estiver afogando, e você for a única pessoa por perto, sua decisão em ajudar tem a consequência clara de salvar a vida de alguém

Nos Estados Unidos o trabalho voluntário é quase um pré-requisito para que os alunos sejam admitidos nas universidades. O que o senhor acha da quase “obrigatoriedade” de se fazer trabalho voluntário? Devemos importar tal modelo? E o fato de um trabalho altruísta ser “obrigatório” diminui o seu valor?

Esse fenômeno acontece porque grande parte dos americanos consegue ingressar no ensino superior, por isso os futuros alunos querem se diferenciar dos outros para que consigam estudar em uma escola de elite. Essa quase “obrigatoriedade” que você menciona tem consequências positivas, portanto. Quanto a importar o modelo, não estou certo que devemos forçar ninguém a fazer o que não quer. Penso sim que devemos expor as consequências do que as pessoas deixam de fazer, seja por apatia, egoísmo ou ignorância.

Falando de educação superior, departamentos de ciências humanas e letras têm diminuído os números de professores em função de cortes sistemáticos de verbas, tanto nos EUA quanto no Brasil. Filosofia e literatura estão se tornando especializações e deixando de ser disciplinas obrigatórias. Há alguma correlação entre estudar ciências humanas, filosofia, literatura, e se conduzir uma vida mais altruísta?

Sem dúvida. Percebi isso em inúmeros alunos que tive e na minha própria vida. A filosofia me deu a oportunidade de pensar com calma sobre intuições morais que tinha e que não eram corretas. Há pouco mais de um século o trabalho escravo era moralmente aceitável. É claro que continuamos tendo condutas que no futuro serão vistas como imorais. Como sociedade, acredito que tratamos os animais de forma imoral. Por isso me tornei vegano.

Para além da Filosofia, qual foi o papel do estudo das ciências humanas na sua formação?

Sempre tive interesse e gosto pelas artes, e gosto muito de ler ficção. Estudei muito historia e pensei em me tornar um acadêmico na área. Na Filosofia, e em particular na ética aplicada, percebi que poderia tratar de questões atuais e assim contribuir para o mundo de forma mais ampla.

Recentemente as empregadas domésticas conseguiram adquirir direitos que anteriormente não constavam da Constituição do Brasil. Isso tornou o seu serviço mais caro. No debate público sobre o assunto, alguns grupos apontaram que o desemprego na classe aumentará, e que seria melhor oferecer empregos em piores condições do que não oferecer nenhum. Debate semelhante ocorreu nos Estados Unidos quando foi divulgado o fato que em alguns lugares na Ásia a empresa Apple paga cerca de dois dólares por hora de trabalho, um salário irrisório, portanto…

Não conheço bem os detalhes do caso das empregadas domésticas nem o contexto brasileiro. Mas parece-me importante dizer que as condições dos trabalhadores devem sempre ser melhoradas. Isso me parece óbvio. Mais uma vez, pela lógica utilitarista, os empregadores já têm uma vida bastante abastada e com algum conforto. Ética não é só sobre o que fazemos, é também sobre o que não fazemos. Os empregadores provavelmente já têm boas condições de vida. Não favorecer alguém a prosperar, alguém que está diretamente ligado a você, porque talvez seu conforto diminuirá um pouco, como no caso que você mencionou das empregadas, é eticamente condenável.



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