Ferréz: Recorrendo a King

Lendo o livro "Um apelo à consciência", no qual se encontram os grandes discursos de Martin Luther King, não tem como não ficar com a sensação de que devemos continuar a luta desse grande homem.

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Por Ferréz

Lendo o livro Um apelo à consciência – lançado pela editora Zahar e editado por Clayborne Carson e Kris Shepard –, no qual se encontram os grandes discursos de Martin Luther King, não tem como não ficar com a sensação de que devemos continuar a luta desse grande homem.

Nesses discursos, não se encontra uma só palavra de autopiedade, não se acha uma vírgula de desgosto, não há uma única frase de preconceito como as encontradas quando Dostoiévski, falando por seu personagem em Memórias do Subsolo, se dirige ao cocheiro como Mujiquezinho; ou mesmo nos personagens de Fante, sempre culpando os negros, assim como no nosso admirado Bukowski, que deixa escapar seu lado racista de vez em quando. Não, King é esplêndido, contagia, contamina quando diz que não devemos potencializar quem nos oprime, o mesmo discurso que sigo há anos, quando digo que não devemos tornar forte quem não emprega nossos irmãos, quem não fortifica nossa cultura.

Que periferia aguenta isso, sendo drenada todos os dias, centenas de carnês preenchidos, créditos concedidos, me digam: Quem coloca algo de volta na periferia? Eles tiram, com seus panfletos cheios de móveis repetidos, roupas repetidas, sem nem sequer uma frase para dar conhecimento, sem sequer um trecho que faça nosso cérebro não atrofiar de tanta promoção, de tanta palavra didática, que não nos faz pensar, assim como a televisão.

E, no final, aos que oneram a periferia sobrarão perguntas: pagar água quando temos tantos oceanos, pagar luz quando temos que desligar para rezar ao toque da PM, pagar impostos morando praticamente dentro do córrego? E, pode ter certeza, irmão, 20 dias depois do atraso, sua água é cortada, você é tratado igual a bandido, humilhado, tem de ir lá negociar, se explicar, parcelar o atraso, pagar os juros, enquanto reza para não chover e perder seus móveis novamente.

A construção para que cada família viva de forma digna é lenta, a construção para os jogos da Copa já começaram; a inclusão dos mais pobres na economia nacional é onerosa, a viagem dos estrangeiros com seus dólares é estimulada.

Sem discussões, sem gritos, sem protestos, para ajudar você não precisa nem sair de casa, use o único poder que o capitalismo conhece, o poder econômico. Tirem o apoio econômico de quem não respeita os mais necessitados, que, numa conta rápida e certa, são os que mais gastam. Gastam com tênis caros, pois querem pertencer a outra realidade; gastam com carros chamativos, pois querem existir aos olhos dos outros; gastam com produtos para cabelos (somos o número 1 do mundo em consumo de produtos para cabelos), pois queremos ser outras pessoas, temos medo de, pela cor, descendência, etnia, pegarmos também todo aquele sofrimento.
Grande exemplo disso são os revendedores de tênis nos shopping centers, que sempre procuram seguir o padrão elitizado americano e não empregam negros nas suas lojas. Por que municiar a arma do inimigo?

Ao descrever a Operação Cesta de Pão, Luther King afirmou: “Se você respeita o meu dinheiro, você deve respeitar a minha pessoa”, simplesmente diz que não gastaremos mais nosso dinheiro onde não arranjarmos bons empregos.

Estamos em tempos difíceis, pois nos disseram que são fáceis, momentos de uma crise não declarada, em que o preço de tudo custa cada vez mais horas de serviço.

Nunca foram tão necessárias as palavras de King e sua sabedoria para encontrarmos hoje a nossa verdadeira paz interior, nesse mundo de inversão de valores, camisas com rostos de traficantes sendo usadas por jovens, músicas degradantes e a morte do romantismo e da exaltação à honestidade para dar lugar ao lema da vantagem em cima de tudo e de todos.

“Quando máquinas, computadores, lucros e direitos de propriedade são considerados mais importantes do que pessoas, os gigantes do racismo, do materialismo extremo e do militarismo se tornam invencíveis.”

“A verdadeira compaixão é mais que atirar uma moeda a um mendigo. É necessário perceber que um edifício que produz mendigos deve ser reformado.”  F

Ferréz é escritor e colunista da revista Fórum.

Este texto faz parte da edição 122 da Fórum, compre aqui.

Leia também na edição 122 da revista Fórum:
Entrevista com Dexter: O filho brasileiro de Luther King
Entrevista com David Harvey: E a História não acabou
Redução da maioridade: ilusão e oportunismo 
O domínio da cultura punitiva
Expressões do cárcere

 

 



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1 comment

  1. JOSÉ CARLOS RIBEIRO BARROS Responder

    FERRÉZ MONSTRÃO…. SIGO SEUS PASSOS MANO, O MARANHÃO PEDE SOCORRO, pois os opressores o engoliu como um avalanche. S.O.S


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