Eu acredito em Griô

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“Pra começo de conversa

Peço a bênção aos mais velhos

Que me dão sabedoria

Pra brincar com estes versos” (Cordel de apresentação da Ação Griô).

 

Essa é uma Ação que faz refletir sobre a dimensão sagrada da vida e da lógica da convivência econômica baseada na partilha, dois aspectos tão preservados pelas culturas tradicionais brasileiras. Quando o candomblé preserva um olho-d’água ou uma cachoeira como espaço sagrado, ele está preservando a vida. Quando um reisado sobrevive porque todos da comunidade oferecem algo, nem que seja um prato de comida para os caminhantes, ele está realizando a partilha, cultivando um comportamento essencial para a coesão social. Essas expressões da cultura tradicional rompem com o ciclo de alienação e vulgarização da vida e servem de base para a construção de um país justo e solidário.

Nas sociedades contemporâneas vivemos um processo de transformação dos desejos, das horas e até da própria alma. Tudo torna-se mercadoria. Isso resulta na alienação que as populações vivem em relação às possibilidades de conquista de autonomia e emancipação. O contrário da sacralização da vida e da partilha é a vulgarização e a banalização da vida, o individualismo e o egoísmo, a transformação de tudo e de todos em mercadoria, a coisificação do ser. Neste cenário emerge a violência urbana, o desrespeito com o trabalho alheio, a exploração desenfreada, a ausência de amor ao próximo. Tudo perde sentido e somente o lucro tem vez.

No entanto, manter apenas a louvação da tradição não resolve. Afinal, como demonstrou Eric Hobsbawm, as tradições foram inventadas um dia, são construções históricas e incorporam preconceitos e ideologias. O mesmo acontece com o pragmatismo. Não há nada mais atrasado que se guiar pelo senso comum; por trás das ideias consolidadas há construções históricas e o pragmatismo torna-se inimigo da transformação profunda, acomodando-se a uma realização sem questionamento. É nesse momento que surge a necessidade de a tradição se reinventar e a memória assume um papel vital, de reelaboração e reinterpretação da vida. Uma invenção que envolve o embaralhamento, a quebra de hierarquias e a construção de novas legitimidades, sem que haja imposição ou uniformização de culturas. O saber popular, que é diferente do senso comum, assume um novo papel e o conhecimento não formal é percebido em toda sua sofisticação e profundidade.

O diálogo intergeracional e multissetorial proposto pelo Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô, com a reinvenção da Roda da Vida, apareceu como um bom caminho a trilhar. Sem o formato de uma pedagogia única, percebi que valia compartilhar a experiência do Grãos de Luz e Griô, uma ação que une educação biocêntrica com método Paulo Freire e culturas tradicionais. Ao mesmo tempo em que a roda se constrói, ela se rompe, em sucessivos exercícios de conversa, primeiro em duplas, depois trios, quadras de pessoas, novas versões; o ouvir o outro, auscultas sensíveis, percepções sensoriais, o uso de músicas, jogos. Tudo com encantamento.

Com a Ação Griô foram realizadas oficinas culturais, místicas, caminhadas, rodas de oralidade. O conhecimento ancestral sendo valorizado, o conhecimento do comum, dos mestres, que vem do fundo de nossa alma. Esta ação não havia sido planejada. Mas sentia que faltava algo. Cultura digital, juventude, escola, Ponto de Cultura. Faltava a ancestralidade, o elemento terra, um chão firme para pisar e dar o salto. Foi quando, ainda no primeiro edital, uma entidade manda sua proposta:

 

“A pedagogia griô

Vem de um Ponto de Cultura

De Lençóis, lá na Bahia

Vida Roda se mistura

O Grãos de Luz e Griô

Criança velho professor

O criador e a criatura”.

 

Era o que faltava. Conversamos por mensagem eletrônica, pedi maiores detalhes sobre a prática deles para o desenvolvimento da tradição oral. Griô é o abrasileiramento de griot, palavra francesa, também inventada, uma construção que estudantes da África subsaariana (Mali, Senegal) fizeram ao ir estudar na França; esses estudantes buscavam uma palavra que desse sentido comum às suas tradições, às diferentes denominações dadas aos genealogistas, brincantes, músicos e narradores de história. Mas antes disso, a palavra Griot tem origem no holocausto da escravidão, em que os “negreiros” portugueses percebiam que nos portos de embarque de escravos haviam homens com vestes e gestos diferentes que gritavam a história de seus povos; eles faziam isso para que aquelas pessoas escravizadas, prestes a embarcar a terras desconhecidas, jamais se esquecessem de sua ancestralidade. A estes homens altivos, os portugueses deram o nome de “Gritadores”, daí Griot no francês. Os griôs caminham de aldeia em aldeia mantendo viva a linha de cultura de seus povos. São culturas de transmissão oral, mas nem por isso menos complexas e profundas que a cultura escrita. O mestre africano Tierno Bokar Salif aponta com clareza: “A escrita é uma coisa e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si”. Aprendi isso com um Ponto de Cultura e com o casal Márcio Caíres, o Velho Griô, e Lilian Pacheco, educadora. A Ação Griô tornou-se ação nacional do programa Cultura Viva, e com ela selecionamos mais de uma centena de experiências, das mais diversas.

 

“Todo Ponto de Cultura

Tem sua pedagogia

Juntos numa rede

Ação Griô que se recria

Programa Cultura Viva

Um Brasil que se cultiva

Colhendo sabedoria”.

 

Cada projeto selecionado promove a integração entre saber tradicional e o aprendizado na escola. Como apoio recebia bolsas (R$ 350 por mês no início e depois um salário mínimo, entre 2009 e 2010) para até seis pessoas por Ponto, um mestre, os griôs e um griô aprendiz, que faz a ligação entre escola e mestres e a sistematização do processo educacional transmitido pela oralidade. Em 2009 foram mais de 600 griôs espalhados por todo o Brasil. E não só afrodescendentes, pois a ideia não foi restringir a ação a um único grupo étnico. Há griôs indígenas, descendentes de europeus, caiçaras, asiáticos. Todo o saber popular integrado numa ação. Mestres de capoeira, rezadeiras, baianas do acarajé, construtores de brinquedos, parteiras, pajés, cantadores, artesãos. Mestres que guardam nossa história de geração em geração. E que devem ser recolocados em seu papel, como tesouros vivos, pois “cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima” (mestre Hampáte Bâ). Essa foi a Ação Griô.

Com o governo Dilma, a Ação Griô foi desmontada (a ânsia do imediatismo eleitoreiro, da marquetagem e do burocratismo impregnados simplesmente acabaram com uma Ação de tão baixo custo e tanta sensibilidade como esta). Isto do ponto de vista de ação governamental, mas como prática nas comunidades, a Ação Griô segue ainda mais viva. E qual não foi minha grata satisfação ao assistir uma matéria sobre o papel da Ação Griô em um assentamento rural no agreste baiano. Assistam, compartilhem e vejam quanta coisa boa e bela os Griôs podem fazer por este nosso brasilzão que se recusa a ser coisa!

http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-rural/v/grios-preservam-memoria-e-historia-oral-de-seus-povos-na-bahia/2733527/

http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-rural/t/edicoes/v/assentamento-na-bahia-supera-a-miseria-fazendo-arte/2733534/



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2 comments

  1. Madson Parente Responder

    Tive a alegria de conhecer a Ação Griô em Lençóis-BA, através dos Grãos de Luz e Griô, com Márcio e Lillian.
    Com eles, tive acesso ao livro Ponto d Cultura: o Brasil de Baixo para Cima, Célio Turino
    Espero que cresça cada vez mais esta bela forma de percepção, resgate e vínculo com a nossa história e com a Vida.

  2. JOSÉ ROQUE SATURNINO DE LIMA Responder

    Grande Célio Turnio! Obrigado por mostrar e ter feito tantas coisa maravilhosa pela cultura no e do Brasil.

    Sou Roquinho Lima, do POvoado Rose, a mesma comunidade que o Globo Rural mostrou a reportagemn sobre os Griôs Sisaleiros. Parabéns pela luta na Ação Griô. Acho tambem que no governo Dilma as ações culturais para aqules que nao detem o “poder” financeiro acabaram, destruram tudo que estava sendo construido. Mas eu acredito em mudança e vou ajudar acontecer essa mudança para o bem da cultura principalmente a cultura viva do smestres da tradição oral. Não é que o governo todo é ruim é que tem pessoas que quando chegam ao poder…. Dilma minha presidenta! acorde!! FÇA UMA MUDANÇA NESSE MISNITERIO (MINC)


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