Augusto dos Anjos, João Cabral e o Apedrejamento na Cisjordânia como um Gesto de Nobreza

O apedrejamento dos soldados israelenses por crianças palestinas pode e deve ser entendido como um gesto de nobreza, como um último suspiro de luta palestina contra a opressão sufocante de uma nação estrangeira, como um "rito de passagem"da adolescência para a vida adulta

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“Crianças têm hobbies, meu hobby é dar pedrada” **

Muhammad Abu Hashem

O apedrejamento dos soldados israelenses por crianças palestinas pode e deve ser entendido como um gesto de nobreza, como um último suspiro de luta palestina contra a opressão sufocante de uma nação estrangeira, como um “rito de passagem”da adolescência para a vida adulta.

Da Paraíba, passando pela Cisjordânia, de volta a Pernambuco:

Lições da Paraíba –

Augusto dos Anjos era um poeta rebelde. Utilizava-se de formas rígidas, herdadas do simbolismo e do parnasianismo, para comunicar a crueza e a aspereza com que via o mundo.

Quem é que se esquece do tapa na cara que são os seus Versos Íntimos?

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Sem ser panfletária, a poesia aguerrida de Augusto dos Anjos convida  à reflexão sobre a ambiguidade, a duplicidade de intenção dos gestos, os vários significados das intenções, bem como suas injustiças e violências. O poeta tocava em um ponto: difícil compreender uma agressão que se apresenta de forma mais sutil; uma agressão que surja inicialmente na forma de um beijo ou de um afago.

Lições da Cisjordânia – 

Imagem terrível aquela do apedrejamento. Da adúltera bíblica que foi salva pelo messias, até apedrejamentos recentes em vários países, como o Irã, o Paquistão, a Indonésia, etc, a sensação de náusea e revolta daqueles que observam a selvageria parece-me universal; mesmo que tais sensações sejam experimentadas no conforto das nossas casas através do youtube.

A mesma sensação de indignação e nojo se sente no filme que retrata a morte por apedrejamento da iraniana Soraya Manutchehri, falsamente acusada de adultério pelo marido.

Ou ainda o apedrejamento ficcional da devassa Geni nos causa arrepios – Chico Buarque sabia disso bem ao compor Geni e o Zeppelin utilizando-se de harmonia, melodia e arranjos sombrios.

Reverter a ojeriza intuitiva que o apedrejamento causa na maioria de nós é dificílimo. Passar a ter empatia por outro tipo de apedrejamento é tarefa complicada porque a palavra carrega consigo um peso horrendo.

Contudo, se imaginarmos territórios ocupados contra a opinião pública internacional há mais de 40 anos; se imaginarmos territórios onde a locomoção é diariamente truncada por conta dos “checkpoints”, onde os invasores estrangeiros exigem documentos dos nativos e justificativas para se deslocarem de um ponto a outro; se imaginarmos como gerações de crianças veem seus pais serem presos e ficam sabendo que foram torturados em prisões estrangeiras…

…aí então o apedrejamento dos soldados israelenses por crianças palestinas pode e deve ser entendido como um gesto de nobreza, como um último suspiro de luta palestina contra a opressão sufocante de uma nação estrangeira, como um “rito de passagem”*** da adolescência para a vida adulta.

Para a criançada Palestina, Augusto dos Anjos:

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Lições de Pernambuco – 

Como já dito em tantas ocasiões, a poesia de João Cabral de Melo Neto produz vários de seus efeitos através da economia de palavras, de um léxico específico e repetitivo, do uso de dualidades e da pouca adjetivação. Poesia que comunica, ela também, injustiças, e as formas e os recursos que os abandonados das terras áridas do nordeste encontram para existir.

Vejo aí uma ligação entre o sofrimento dos nordestinos do sertão e o dos palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

Em lugares tão distantes e distintos, a pedra é símbolo: a pedra ensina, a pedra salva, a pedra mata. 

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra; lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

De tanto tomar tapa na cara, suponho que uma multidão de palestinos também tenha a pedra Cabralina entranhada na alma.

* Este texto foi escrito em reação ao excelente artigo In a West Bank Culture of Conflict, Boys Wield the Weapon at Hand publicado em 5/8/2013 no jornal The New York Times.

** A citação no título do texto foi retirada do artigo mencionado.

*** Expressão usada por Jodi Rudoren no artigo mencionado.

(Vídeo em inglês comentando o caso de um menino de 5 anos sendo preso por ter lançado pedras nos soldados)



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1 comment

  1. Cristina Responder

    Lindo texto, Ronaldo!


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