“Não queremos ser reconhecidos. Queremos que nos deixem ser”

O cotidiano de El Alto, na Bolívia, mostra a importância de se discutir a relação entre os indígenas e o meio urbano nas cidades da América Latina

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O cotidiano de El Alto, na Bolívia, mostra a importância de se discutir a relação entre os indígenas e o meio urbano nas cidades da América Latina

Por Lídia Amorim

El Alto, região metropolitana de La Paz, Bolívia. Quem chega pela primeira vez aqui se depara com cenários totalmente diferentes do que se encaixaria no conceito de cidade que o mundo ocidental contemporâneo reconhece. Com 1 milhão de habitantes, sendo que 83% se reconhecem como indígenas – principalmente de ascendência aymara ou quéchua –, a cidade é uma urbe que intriga e provoca admiração, sobretudo pela sua aparente desordem. Mas não é que não tenha uma ordem. O centro da cidade – sem praça principal nem igreja matriz – obedece a uma ordenação própria, com uma lógica comunal e originária. Formada por migrantes que, a partir dos anos 1960, chegaram à cidade de La Paz buscando melhores condições de vida, El Alto é, nas palavras do yatiri e especialista em semiologia andina Marcelo Zaiduni, “o caos ordenado”. E, mais que isso, trata-se de um gigantesco exemplo latino-americano de uma possível – e necessária – integração entre povos originários e a cidade.

Quando alguém chega para viver em El Alto, principalmente se é estrangeiro, é recebido com desconfiança. O andino é natural e historicamente desconfiado, e cada bairro é a representação de uma coletividade. Querem saber quem é você, o que faz e por que veio.  E todos vigiam até que o coletivo se acostume. Quando isso acontece, é como se você fosse adotado por uma grande família. “Nos ayllus, sempre trabalharam os aymaras, nossos antepassados, que se ajudavam. Assim sobreviveu o povo aymara até agora”, conta Felipa Catacora, vice-presidenta da poderosa Fejuve – Federação de Juntas de Vizinhos de El Alto.

Cada bairro tem uma junta de vizinhos, uma reprodução do modelo de organização das comunidades. E a prova disso é uma organização impressionante – com modelos de justiça e regras próprias. Essa capacidade de articulação é o que faz com que qualquer governante trema e jamais queira confusão com a cidade, mais alta que a já elevada La Paz em 400 metros.

Para muitos, a vida urbana deveria se caracterizar pelo anonimato da cidadania comum. Os grupos de pessoas que adotam regras e comportamentos sobre os quais estabelecem uma identidade própria sempre foram o terror de grandes modelos urbanos. São a anticidade. É mais ou menos o que acontece com os novos bairros – e no caso de El Alto, cidades – étnicos. É onde se canta, dança, se fala com outros sotaques, costumes, idiomas. Onde nascem e se protegem novas identidades. Os indígenas urbanos reproduzem essa segmentação cultural, indo contra qualquer tipo de convenção. Não é um processo visível em todas as cidades latino-americanas, mas é uma tendência cada vez mais forte, já que milhares de originários todos os dias chegam às grandes urbes do continente.

(Foto Boris García)

O centro de El Alto, conhecido como Ceja, é palco histórico do surgimento de uma nova lógica, de um cerco que amedronta a cidade criolla – ou que muitas vezes se deseja criolla – que está mais embaixo. A primeira vez que esse lugar aparece na história de uma maneira muito simbólica é no cerco de Tupac Katari, Bartolina Sisa e seus aliados à cidade de La Paz, em 1781. Foi o protesto indígena mais significativo da região andina. Uma tentativa de recuperar Chuquiago Marka (nome de La Paz antes da chegada dos espanhóis).
O indígena saiu da sua comunidade e se instalou com sua família, seus poucos bens e sua imensa cultura. Essa cultura devorou a La Paz colonial. E o cerco já não é físico como na época de Tupac Katari, mas se torna cada vez mais forte.

Ser indígena

A Bolívia é considerada um país indígena, assim como Peru, Guatemala, México, Equador. Mas, afinal, qual é o significado de ser indígena hoje? Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), para ser reconhecido como tal, é necessário falar no seu cotidiano um idioma originário, ter ligação com algum território originário, e principalmente, se autorreconhecer. Mas essa definição é suficiente quando o tema é a defesa dos direitos dos povos? Território, autonomia, identidade e dignidade – direitos fundamentais a serem defendidos onde quer que seja. Hoje, uma das principais lutas do movimento indígena na América Latina é também a defesa dos seus direitos como cidadão – considerando como cidadão aquele que vive nas cidades e tem direito e deveres.

A presença e a visibilização da população indígena nas cidades e seu crescente nível organizativo levaram a uma reavaliação do conceito de indígena, categoria analítica e social que muitas vezes era relacionada apenas a grupos que viviam no campo. Quando cheguei à Bolívia pela primeira vez, há sete anos, um dos companheiros de El Alto comentou: “Vivo na cidade, faço faculdade, tomo Coca-Cola, canto hip-hop, e não é por isso que deixo de ser aymara. Minha identidade vai comigo aonde quer que eu vá.”
É o que também crê o ator aymara Juan Carlos Aduviri, indicado aos Prêmios Goya como melhor ator por sua atuação no Filme E também a chuva, de Icíar Bollaín. “Eu posso conviver com qualquer pessoa sem deixar de ser eu, Aduviri, que é meu sobrenome aymara. Quero recuperar meu idioma, tento viver os costumes aymaras na minha casa. Não matar nem uma mosca só por matar, não fazer dano. Muitas vezes, no passado, eu mesmo quis romper com minhas raízes aymaras. Um dia meu pai me falou uma coisa que me tocou muito – que prefiro guardar para mim. E cheguei à conclusão de que se quero alguma coisa nessa vida, primeiro tenho que saber de onde venho. Sou filho de um aymara mineiro e de uma camponesa aymara. Quando me dei conta disso, comecei a encontrar meu lugar, orgulhoso disso”, explica.

O imaginário de que o indígena deve estar no campo ou na floresta, assim como a situação de miséria em que muitos grupos vivem nos centros urbanos como fruto da exclusão social e da violência – situação que afeta diferentes grupos migrantes – fazem desse um tema sensível e complicado. Além disso, surgem temas delicados, como saúde, educação e serviços de acordo com o idioma, usos e costumes do indígena urbano. Nasce, assim, a necessidade de reivindicar os direitos indígenas também nas cidades.

Na Bolívia, mais de 60% das pessoas que se reconhecem como parte de algum povo ou nação originária vivem nas cidades. Surgem problemas com agentes internos e externos questionando a identidade. Muitas vezes, o indígena que vive nas cidades sofre duplo preconceito: por parte de seus habitantes, que sempre o veem como um agente externo, migrante ou visitante e não como parte do fluxo e da dinâmica urbanos, e também a rejeição por parte dos mesmos membros de sua comunidade de origem, que muitas vezes deixam de aceitá-lo como igual, já que supostamente adotou características citadinas. “Só alguns guaranis, que conhecem a profundidade da minha reflexão sobre a minha identidade, consideram que sou uma deles, e não uma mestiça a mais”, conta Isapi Rua, comunicadora e videasta boliviana guarani.

Isapi deixou sua comunidade e migrou à cidade de Santa Cruz para estudar. Sentiu na pele a lógica perversa com que a cidade, localizada no oriente boliviano, recebe o indígena, tratando-o como alguém que invade a cidade e não tem direito a ela. “Quando cheguei à cidade tinha 16 anos. O choque cultural para mim foi muito forte, queria voltar para minha comunidade. Os assédios na rua, a solidão, no colégio faziam piada com a minha maneira de falar. Tudo isso me desesperava”, relembra.

A mesma coisa acontece em diferentes partes da América Latina, inclusive no Brasil. São Paulo tem grandes comunidades indígenas urbanas vivendo em periferias, sem acesso à cidadania. Muitos migraram buscando melhor qualidade de vida. E o Brasil muitas vezes prefere ignorar o tema. São Paulo não é a única. As cidades brasileiras estão cheias de grupos indígenas, reunidos em coletividade ou dispersos, todos lutando pelo direito a uma cidadania indígena urbana.

“Não queremos ser reconhecidos, não necessitamos. Queremos que nos deixem ser.” A intervenção realizada pelo intelectual indígena boliviano Hugo Cordero em um congresso que buscava “reconhecer” o conhecimento originário abalou todo o evento e deixou parte da plateia refletindo sobre o tema. “Quando os europeus chegaram aqui, nos chamaram de selvagens, de índios, agora nos chamam de indígenas. Nos chamaram e nos chamam de muitos nomes. Muitos. Mas não somos nada disso. Somos aymaras”, considera Felipa Catacora, vice-presidente da Fejuve.

A vida na cidade

Uma característica muito peculiar de El Alto é que muitas pessoas vivem nas cidades, mas não abandonam seu lugar de origem. São dois grupos: há os que vivem principalmente na zona urbana, mas mantêm sua parcela de terra em sua comunidade, frequentando as festas locais e estando, de uma ou outra maneira, sempre presentes. E há aqueles que vivem na comunidade, têm atividades relacionadas ao campo, como a agricultura e a criação de animais – mas mandam os filhos para estudar na cidade e dependem dela para vender seus produtos e, por isso, também têm sua casa na zona urbana. Ambas são maneiras de viver em trânsito. Pude conhecer pelo menos duas comunidades aymaras que evidenciam esses modos de vida, e muitas delas durante alguns dias específicos estão praticamente vazias, habitadas apenas por crianças e idosos.

Esse modo de viver em trânsito, de ir e vir e ter o comércio e a troca de mercadorias como principal atividade, é algo que remete ao período pré-colonial. Existem evidências históricas de que, antes da chegada dos espanhóis, muitas das cidades atuais eram centros e pontos de encontro comercial de diferentes povos para intercâmbio de mercadorias e produtos – o trueque. Assim, aymaras, quéchuas, guaranis e diversas outras etnias intercambiavam conhecimentos, relações e produtos.

Os persistentes laços com o campo no altiplano aymara ajudam a entender o assunto das juntas de vizinhos em El Alto. Não existe bairro da cidade em que os vizinhos não sejam parte de uma associação. E sempre fazem festas. Muitas festas. As ruas não são lugares só pra transitar. São também locais para se manifestar, se encontrar e claro, para festejar.

Em 1985, El Alto foi declarado município independente de La Paz e, desde 2007, já supera La Paz em número de habitantes. Nesse momento, é a segunda maior cidade da Bolívia, perdendo somente para Santa Cruz de la Sierra. E, pelas ruas da cidade, sua prosperidade se espalha de uma maneira muito própria, com um modelo arquitetônico característico do lugar – a arquitetura alteña.
A retomada indígena atualmente não se faz com balas nem com cercos, nem com protestos. É simbólica, silenciosa e mais eficaz que qualquer outra. Há menos de 500 anos, Chuquiago Marka – um dos mais importantes centros comerciais do mundo andino – foi dividida ao meio pelos espanhóis. De um lado, espanhóis e criollos; do outro, indígenas proibidos de ingressar na zona “branca”. O rio que dividia a cidade já não é visível, hoje, na região central. Coberto pelo cimento, só é vislumbrado na memória dos avós e em alguns livros.

Hoje, as senhoras de pollera caminham orgulhosas pelas ruas com suas roupas coloridas, de tecidos brilhantes, suas mantas de vicunha, seus chapéus borsalinos. É a caríssima moda chola, que mistura influências indígenas, o modo de vestir das espanholas na época da colônia e tendências atuais da moda – que podem ser vistas principalmente nas joias e nos tecidos utilizados. Quem não pode pagar costura. A urbanização do indígena. E a indianização do urbano. “O aymara é muito analítico e de cada cultura analisa o que pode usar e adaptar ao que é seu, se apropria de elementos exteriores sem deixar de lado o que é próprio”, explica o sociólogo Marcelo Rodriguez.

Uma das festas mais simbólicas da cidade de La Paz é a Festa do Senhor do Gran Poder. Milhares de dançarinos tomam as ruas da cidade e são apresentadas danças típicas de diferentes regiões do país, sendo a principal delas a morenada. A festa del Gran Poder, apesar de ter características católicas (o santo de devoção) é por essência indígena. Nela, estão representações da cultura aymara: a morenada (e outras danças de origem indígena), o sentimento de comunidade representado pelas “fraternidades”, a moda chola. “O centro da cidade ainda está configurado como um espaço da elite e uma forma de conquistar e ocupar espaços é dançando”, explica Marcelo Rodríguez. Uma gigantesca tomada simbólica das ruas de La Paz.

Existem muitas modalidades de adaptação dos indígenas às cidades. Em algumas partes – como em muitos municípios brasileiros –, a segregação urbana predomina. Surgem as mixtecas mexicanas, as aldeias maias guatemaltecas. Em outras cidades latino-americanas, eles se confundem entre as massas citadinas, chegando a formar maiorias. Tornam-se partes inteiras, organizam seus próprios territórios, bairros, suas cidades. É o caso de La Paz e El Alto. Aqui, os indígenas urbanos buscaram uma ressignificação da sua cultura e uma nova maneira de entender e levar adiante. Criaram seu próprio conceito de cidade.

Assim, os indígenas levam suas culturas às cidades e as reinterpretam. Para alguns, o resultado pode ser uma imitação estilizada do que acontece no campo. Uma opinião, de acordo com o pesquisador chileno José Bengoa, “estética, mas não culturalmente válida”. Dia a dia aumenta nas cidades a presença de yatiris, xamãs, curandeiros do corpo e da alma. Os conceitos e paisagens se misturam.  F

 

Aqui e ali – Indígenas urbanos na América Latina

Não é uma novidade a discussão sobre a relação entre indígenas e meios urbanos. Quando os europeus chegaram por esses lados, Tenochtitlan, no México, tinha população indígena e era muito maior que as grandes cidades europeias, por exemplo. Logo se começou a pensar que, se estavam na cidade, deixavam de ser indígenas, uma definição equivocada e muitas vezes conveniente. O estereótipo do indígena como camponês permitiu – e ainda permite – aos governos não dar atenção especifica aos indígenas em diversas áreas.

A Bolívia é apenas um exemplo dos processos que vive a América Latina no que diz respeito aos indígenas urbanos. Assim como na Bolívia nos anos 1960, ser indígena no Peru era sinônimo de ser ignorante, sujo, pobre, e assim já não se chamavam indígenas, e sim campesinos todos os que migravam do campo à cidade. Nessa época, quem ia a Lima se “acholava”. Referir-se a alguém como cholo era profundamente depreciativo e dizia respeito a quem já não se assumia como indígena, mas também não era aceito pela cidade como branco.

No Peru, as coisas começaram a mudar com a guerra declarada pelo Sendero Luminoso. Nesse momento, milhares de indígenas migraram para as cidades, mas já não buscando deixar de ser originários. Chegaram com sua cultura, seu idioma, suas festas e foram transformando o cenário do país. Mas, ainda assim, seja no Peru, na Bolívia, no Chile ou no Brasil, ainda existe preconceito, um olhar de rabo de olho, um não querer sentar-se ao lado da índia que carrega seu bulto.

No Chile, apesar dos esforços dos mesmos governos em massacrar e esconder os indígenas que vivem no país, a população de mapuches, segundo o último censo realizado em 2002, chega a 700 mil pessoas, das quais só 250 mil vivem no campo. Só em Santiago são 300 mil que se reconhecem como mapuches. Bengoa conta que, entre lixões e campinhos de futebol, se encontram grupos de indígenas em Santiago para realizar seus rituais milenários. O xamã é da cidade. Praticamente todos os presentes nasceram lá. Escolas já iniciaram a educação intercultural bilíngue, mas, ainda assim, nas redes sociais é possível ver protestos e textos revoltados porque, depois de séculos de resistência, os mapuches ainda são a parte mais vulnerável da população. E continuam sendo exterminados.

A situação também é complicada na Guatemala, país de grandes sacerdotes maias e de sábios de conhecimento tradicional. Nesse momento, a luta é para que o ditador Efrain Ríos Montt, protagonista da ditadura mais sangrenta e longa da história da América Latina, seja condenado pela morte de milhares de indígenas e membros de movimentos sociais. Depois de um juízo permeado de horripilantes histórias de torturas, violações e assassinatos, Ríos Montt foi, inicialmente, condenado a 80 anos de cadeia por genocídio.

Os indígenas ainda comemoravam quando a condenação foi revogada dias depois por um recurso apresentado pelo advogado do ditador. “O movimento social indígena está passando por situações difíceis, e ainda não existe um projeto nem um instrumento político do povo”, desabafa Felipe Gómez, intelectual maia. “Nas cidades, os maias são absorvidos pelo consumismo e poucos têm expectativas. Mas, ainda assim, lutando contra tudo e contra todos, existem aqueles que trabalham, vivem e não perdem sua identidade, seus idiomas e valores”, conta.

A lista de como vivem os indígenas nas cidades da América Latina é imensa e os relatos não caberiam aqui. No mesmo Brasil, milhares vivem nas cidades e muito pouco sabemos ou conhecemos sobre o tema. Ainda se insiste em dizer que os indígenas brasileiros são poucos e vivem nas matas, de onde, para muitos, não devem sair. Mas não é bem assim. Eles chegam buscando melhores condições de vida ou estudos e formam comunidades ou aldeias urbanas. As cidades no Brasil recebem o indígena com ignorância, preconceito e muitas vezes, com violência. “A minha irmã foi à cidade para fazer faculdade e ainda hoje passa por muito preconceito. Muita gente às vezes não fala que é indígena para não sofrer. Vejo um Brasil racista e capitalista, que só pensa no dinheiro e usa os povos, os negros e os indígenas”, comenta Daiane Lopes Eimejerago, cineasta bororo.

Daiane é uma das primeiras mulheres cineastas indígenas do Brasil e está lançando seu primeiro documentário longa-metragem. Segura, quer utilizar a imagem para contar a história do seu povo, a sua própria história. “Muita gente vive na cidade e fala do indígena, mas não sabe qual é a realidade dele nem na aldeia, nem na cidade. E a maioria dos brasileiros, na verdade, são indígenas. Antes que chegassem europeus, já existiam milhares de indígenas e hoje nos tratam como animais”, comenta.

Diferentes etnias e grupos se apropriam hoje dessas ferramentas em todo o continente. Os resultados são belíssimos trabalhos audiovisuais, denúncias cinematográficas, campanhas em diferentes redes sociais. “Quando conheci o cinema, numa pequena tela em preto e branco, decidi que queria escrever em imagens e sons”, conta Isapi Rua. Absorver e adaptar. Aprender, se apropriar. “Creio que essas tecnologias vão permitir que nos articulemos com outros povos indígenas no mundo e coletivos que estão na luta pelos direitos humanos”, considera Isapi.

E assim vão construindo-se redes. Criam-se instituições como a Associação de Médicos Tradicionais de La Paz ou a Associação de Empresários Mapuche, no Chile. São fenômenos importantes que devem ser analisados com cuidado. Os indígenas urbanos começam a deixar o anonimato. A tendência dessa nova emergência indígena é que pouco a pouco se possa mostrar que, na verdade, estamos falando de maiorias.

As migrações e a ampliação da consciência étnica conduzem a uma integração em que a comunidade de origem conserva um papel simbólico e cerimonial central. Por essa razão, em nenhum momento a luta pela defesa do território perde a importância ou o significado. Pelo contrário. O território ancestral, histórico, tradicional, tem um papel fundamental na vida dos povos e na história humana. É onde estão enterrados os ancestrais, onde existe uma história simbólica, por isso está tão ligado à identidade, à autonomia e à dignidade. “Ser indígena para mim é uma opção política de luta, antes pelo reconhecimento do território, agora pela gestão dele”, defende Isapi Rua.

O que os governos no continente ainda não conseguem entender é essa nova configuração e forma de ver o mundo, com especificidades nas comunidades que estão no campo e nas novas comunidades indígenas urbanas. Para uma verdadeira cidadania indígena e a verdadeira garantia de direitos, é necessário estudar, escutar e conviver, derrubando estereótipos.

E em La Paz, uma vez mais o Gran Poder toma a cidade com suas cores, sons e força nesse cerco simbólico – absorver e se apoderar. De maneira geral, o objetivo de todos os povos latino-americanos é um só: ser igual na diversidade – ter direitos iguais, mas considerando suas especificidades e necessidades. Parece simples, mas se torna complicado diante da incapacidade para compreender tal diversidade.  F



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