Aldeia Maracanã volta para casa

Depois de uma audiência pública na Justiça Federal no dia 5, um grupo de indígenas retomou o prédio com o apoio de manifestantes. A ocupação já dura mais de uma semana e o número de barracas aumenta a cada dia

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Depois de uma audiência pública na Justiça Federal no dia 5, um grupo de indígenas retomou o prédio com o apoio de manifestantes. A ocupação já dura mais de uma semana e o número de barracas aumenta a cada dia

Por Natasha Ísis, do Canal Ibase

“Teve gente que saiu daqui levando tapa na cara. Mas estamos de volta”, conta um dos índios que voltou para o espaço do antigo Museu do Índio, lar da Aldeia Maracanã. Depois de uma audiência pública na Justiça Federal no dia 5 de agosto, um grupo de indígenas formado por 21 etnias retomou o prédio com o apoio de manifestantes. A ocupação já dura mais de uma semana e o número de barracas e visitantes aumenta a cada dia.

Índios e apoiadores voltam a ocupar o prédio. (Foto Natasha Ísis/Canal Ibase)

Sem dúvidas, o momento que a Aldeia vive é outro. Os canais de diálogo com o governo estão mais abertos e o apoio popular é grande. Além disso, antes ameaçado de demolição, o prédio foi tombado na última segunda-feira, 12, pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Mesmo com a permissão de permanecer no local, os ocupantes se revezam para garantir a segurança do local, com medo de uma ação surpresa que possa retirá-los à força novamente. Agora, a luta é pela gestão do espaço.

– Estamos em um momento muito, muito importante e simbólico para todos nós. A melhor forma de ocupar esse prédio é respeitar a história dele. Por isso, está certa a criação de um Centro Cultural de Referência Indígena neste local. Temos agora que discutir o modelo de gestão e a governança que ele terá – afirmou a secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, Adriana Rattes, na primeira reunião com as lideranças indígenas após a ocupação.

Durante a última reunião entre o poder público e os ocupantes, a resistência deixou clara a sua vontade de instalar no espaço uma universidade indígena gerida por eles. Inicialmente, a Secretaria de Cultura levou até os indígenas duas propostas de gestão. A primeira sugere uma terceirização, onde uma organização escolhida pelos índios seria responsável pelo local através de uma concessão até 2020. A outra sugestão consiste em uma gestão conjunta entre governo e outras organizações do Centro Referência Indígena da Aldeia Maracanã, englobando também a Universidade Indígena. Os representantes do poder público deixaram claro que os indígenas podem trabalhar no local, mas não residir.

Para os indígenas, as condições impostas pelo governo não são satisfatórias. De acordo com o manifesto do movimento, o impasse se dá por diferenças político-culturais, principalmente com relação aos princípios dos povos indígenas, que são intrinsecamente ligados a questões de ancestralidade, bens comuns e relação com o espaço. Dessa forma, para eles não é possível vislumbrar a sobrevivência de uma Aldeia Maracanã atendendo as exigências mencionadas. No entanto, o esforço para um diálogo continua, com mais uma assembleia marcada dentro de quinze dias.

Enquanto isso, a Aldeia continua a respirar aliviada por estar de volta. Doações chegam todos os dias por visitantes, que são convocados a voltar sempre. Para os índios e militantes que passam os dias defendendo o espaço, é possível ver uma grande mudança na visão do público sobre a ocupação.

– Eu já passei fome aqui, mas agora tem comida para todo mundo. Antes, nos assustávamos com gritos no meio da noite dizendo para a gente “ir trabalhar” e nos xingando de “índio vagabundo”. Agora as pessoas passam aplaudindo, tirando foto, falando para a gente ter força e continuar aqui – conta um dos indígenas, que preferiu não se identificar.



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