Ex-primeira-dama argentina questiona se mulheres têm capacidade para participar da política

Declarações de Hilda "Chiche" Duhalde foram feitas para criticar a atual presidente, Cristina Kirchner

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Declarações de Hilda “Chiche” Duhalde foram feitas para criticar a atual presidente, Cristina Kirchner

Por Aline Gatto Boueri, no Opera Mundi

“Chiche” Duhalde em 2005, ao lado de Néstor Kirchner (Foto: Wikicommons)

A ex-primeira-dama e ex-senadora argentina Hilda “Chiche” Duhalde declarou nesta quinta-feira (16/08) que “é preciso um debate nacional para saber se a mulher está realmente capacitada a exercer política”. Em entrevista ao programa de rádio do jornalista Jorge Lanata, ferrenho opositor do governo de Cristina Kirchner, Chiche disse que “vai ser muito difícil que outras mulheres argentinas cheguem a cargos altos depois dessa experiência nefasta”, em referência à administração da atual presidente.

As declarações de Chiche foram feitas um dia depois do primeiro discurso de Cristina Kirchner após os resultados das eleições legislativas primárias, em que o governismo recebeu mais votos, mas foi derrotado nos principais distritos do país.

Ao abordar o pleito, Cristina disse que seu principal opositor na província de Buenos Aires, Sergio Massa, representa as políticas de ajuste econômico. Massa, que hoje é prefeito do município de Tigre, foi chefe de gabinete da presidente entre 2008 e 2009 e rompeu com o governo menos de dois meses antes das eleições.

Horas depois de seu discurso, Cristina ainda fez outras críticas no Twitter contra seu maior adversário na atualidade. “O que querem fazer agora? Plan Duhalde II? Se até tem o seu ‘chiche’. Eu lembro, eu era senadora.” Na Argentina, chiche é a palavra usada para brinquedos de criança. Cristina Kirchner se referiu à ex-primeira-dama para traçar um paralelo entre Eduardo Duhalde e Sergio Massa, cuja esposa tem tido destaque na campanha eleitoral legislativa.

Questionada sobre as declarações da presidente no microblog, Chiche Duhalde disse que “esse exemplo de mulher exercendo o poder, que se guia mais pelo lóbulo (sic) emocional que pelo racional, deixa uma imagem ruim” para o sexo feminino”.

Lei de Cota Feminina

A ex-primeira-dama aproveitou para falar da Lei de Cota Feminina, sancionada em 1991, pela qual no mínimo 30% das listas de candidatos ao legislativo devem ser mulheres. “Na época eu não estava de acordo, mas depois entendi que era uma discriminação positiva, que permitiria que as mulheres entrassem na política”, avaliou. Chiche concluiu, no entanto que “por algum fenômeno que deve ser estudado por sociólogos, a mulher não participa massivamente da política. Ainda é uma coisa mais de homens”.

Ao questionar se as mulheres participam da política institucional por mérito próprio ou à sombra de um homem, Chiche lembrou que ela também entrou para a vida política levada por seu marido, mas disse que, no seu caso, “as pesquisas indicavam que eu era preferida pelas pessoas”. Chiche também disse que muitas mulheres “se masculinizam” quando chegam ao poder.

Histórico

Hilda “Chiche” Duhalde é casada com o ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), que chegou à Casa Rosada no calor da crise de 2001, quando a Argentina teve cinco presidentes em dez dias. Duhalde deveria governar até 10 de dezembro de 2003, mas adiantou as eleições para março do mesmo ano depois do episódio que ficou conhecido como “Massacre de Avellaneda”, em junho de 2002, quando os militantes Maximiliano Kosteki e Darío Santillán foram assassinados durante a repressão a um protesto.

Chiche, assim como seu marido Eduardo Duhalde, integram o Peronismo Dissidente (ou Peronismo Federal), força política que se opõe ao kirchnerismo, também de origem peronista. A ex-primeira-dama foi senadora (2005-2011) pela província de Buenos Aires, governada por seu marido entre 1991 e 1999.

Nas eleições de 2003, Eduardo Duhalde apoiou a candidatura de Néstor Kirchner, a quem passou o governo em 25 de maio daquele ano.



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1 comment

  1. Cora Responder

    Diante de todas as bobagens que políticos homens fazem,
    diante de todas as falhas e erros que políticos homens cometem, deveríamos
    todos nos perguntar se homens têm capacidade para participar da política. Por
    que não fazemos isso? Simplesmente porque homens não são vistos como grupo, mas
    como indivíduos. Então, a falha de um indivíduo não significa ou implica a
    falha de todos os demais homens. Enquanto as mulheres forem vistas como grupo e
    não como indivíduos, nada mudará. Enquanto homens e, por mais incrível que isso
    pareça, mulheres continuarem criticando mulheres por serem mulheres e não por
    suas falhas, seus erros, seus defeitos não sairemos do lugar. A
    despersonalização do feminino já deveria ter sido superada. Mulheres são
    indivíduos e é assim que devem ser vistas. Isso é tão lógico, qual será a
    dificuldade? Por que não criticar Kirchner pelas decisões que Duhalde considera
    equivocadas? Por que criticar Kirchner por ser mulher? Homens são emocionais
    também e muitas vezes reagem levados pela emoção. Imputar apenas às mulheres
    esse tipo de sentimento é equívoco que também já deveria ter sido superado.


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