A garota black bloc na capa da Veja responde à revista

“Emma” aponta os erros na matéria em que foi o personagem central

1198 14

“Emma” aponta os erros na matéria em que foi o personagem central

Por Mauro Donato, no Diário do Centro do Mundo

Leia reportagem sobre o Black Bloc na Fórum 125
Emma (Reprodução)

“Emma, de 25 anos, integrante dos black blocs no Rio”, conforme legenda que identifica o rosto coberto por uma camiseta na capa da Veja, está indignada. E afirmou que irá redigir uma “Carta aberta à Veja”.

Na tarde de sábado, logo após a revista chegar às suas mãos, Emma, acampada no Ocupa Cabral, apoderou-se do celular que fazia transmissão ao vivo pelo TwitCasting e passou mais de uma hora vociferando contra a publicação (vídeo aqui).

Revoltada, demonstrava discordar de A a Z da matéria. Ainda na capa, ela aponta um erro que considera primário ao inseri-la como membro de um grupo. “Black bloc não é grupo e sim uma tática de manifestação. Não tenho como ser integrante de uma coisa que não existe.” A chamada (O bando dos caras tapadas) também desperta ira quanto ao trocadilho que ela diz ser “digno do Zorra Total” e que jornalistas deveriam se envergonhar de trabalhar numa revista como aquela.

Auxiliada por um mascarado que a ajuda a folhear a revista cujas páginas estão rebeldes por causa do vento da praia, Emma vai analisando e xingando trechos preconceituosos e moralistas. Sua revolta (e dos que estão ao redor) aumenta diante do relato sobre consumo de drogas e sexo promíscuo. “Entre um baseado e um gole de vodka, (…) vinho barato e cocaína ! Onde isso?”

Ela segue jogando molotovs na Veja até chegar ao quadro de fundo cinza, parte que considera ter sido feita especialmente para si. Abaixo de uma foto em que aparece lendo História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, o texto procura atingi-la de modo a reduzir suas insatisfações a desvarios adolescentes. Emma ridiculariza a tentativa da revista de expor intimidades e frases soltas apenas para diminuí-la.

O mascarado também faz seu desabafo: “Isso foi tudo inventado. A grande mídia faz assim, ela conta a história que ela quer. Essa matéria aqui é completamente mentirosa, não é nem falaciosa, é mentirosa mesmo. A intenção é manipular a opinião pública”, diz ele.

Emma aponta a câmera para as barracas: “Olha lá, todo mundo transando e se drogando.” Ela se enfurece com o golpe baixo ao ser chamada de namoradeira e suspeita que gente infiltrada a delatou na passagem em que “fica” com dois acampados num mesmo dia.

As fotos nas quais ela aparece (capa e miolo) são assunto polêmico. Ainda que através de uma elíptica fenda apenas se revelem os olhos azuis, sobrancelhas finas e um pouco do nariz, todos de traços sugestivamente médio-orientais e de ar misterioso, fica evidente que Emma mexe com a curiosidade. Enquanto conta que o fotógrafo se fez passar por membro de agência internacional, Emma recebe um elogio à sua beleza através do chat interativo. “Obrigada, mas a reportagem não mexeu com meu ego. Não adianta nada a foto estar bonita se o conteúdo é escroto”, disse. “Não vendi foto nenhuma, publicaram isso sem minha autorização”. Uma senhora que estava ao lado pergunta se ela pode processar a revista por uso indevido de imagem. “Sim”, responde Emma. Um outro espectador bem humorado diz ter sentido falta de um poster central na revista. “Poster o caralho, já falei para parar com a idolatria. Não vim aqui para mostrar a bunda, vim mostrar o que tenho no cérebro.”

Emma diz ter sido procurada no acampamento por uma repórter da Veja e também pelo Globo. Dá a entender que recusou ambos os convites por não concordar com a grande mídia. Afirmou ter dito à repórter da Veja que não conversaria com ela pois o editor manipularia tudo conforme seu interesse. Contudo, enquanto lia a reportagem, por diversas vezes declarou: “Eu não disse isso, desse jeito.”

Além dos equívocos denunciados por Emma, a matéria afirma que os blacks blocs são um grupo pequeno e não chegariam a duzentos miilitantes. Apenas na frente da Assembleia Legislativa de São Paulo, na semana passada, havia um grupo de aproximadamente cem indivíduos. Comunidades black blocs no Facebook são encontradas em São Paulo, Caxias do Sul, Minas, Ceará, Niterói, Rio de Janeiro. Só a do Rio possui mais de 23 mil “curtidores”.

Também não é verdade quando a revista afirma que black blocs haviam queimado uma catraca durante uma manifestação (o ato é simbólico e religiosamente proporcionado pelo MPL, não teve nada a ver com black blocs) ou quando alega que nenhum McDonald’s ou Starbucks escapem ilesos de protestos em que haja pelo menos um mascarado (na noite de sexta-feira, novamente na Assembleia, nenhuma guerra de spray ou gás ocorreu mesmo na presença de 60 ou 70 black blocs).

Criticando professores universitários admiradores do movimento, a Veja incita a polícia a enquadrar os “arruaceiros” pelo crime de formação de quadrilha, algo ainda não feito, obviamente, por não ser possível juridicamente (como foi dito por um membro dos Advogados Ativistas aqui no Diário).

Na Carta ao Leitor da mesma edição, lê-se que “VEJA sempre se pautou pela busca da informação correta em nome do interesse público.” Ao encerrar sua participação no Twitcasting, Emma diz para a Editora Abril: “A população está vendo o que vocês estão fazendo.”



No artigo

14 comments

  1. Cecília Dionizio Responder

    Que triste, ter de ler este tipo de notícia. Qdo. foi mesmo que a imprensa passou a se prestar aos interesses podres de uma sociedade corrupta e cheia de corrompidos? A VEJA que é idolatrada por alunos de comunicação deveria se envergonhar de estar transmitindo, principalmente a eles, o que de pior um profissional pode fazer nesta área: mentir. Lamentável, triste demais, saber que as grandes mídias estão todas corrompidas e só publicam o que lhes convém… Mas é preciso dizer que felizmente há uma esperança. É a de que revistas eletrônicas, como esta, que resgatam a verdade dos fatos, cresçam e se multipliquem pela rede, cada dia mais, para absorver a mão de obra decente que ainda existe neste meio que está cada vez mais contaminado!

  2. Roberto Locatelli Responder

    Acho que os black blocs, os meninos do MPL, Ninja, etc, não são de esquerda, bem ao contrário, eles compactuam, via de regra, do ódio contra o PT que a direita tem. No entanto, estão aprendendo na prática quem é essa direita e que tipo de mídia é essa que quer linchar o PT. Agora querem linchar também os black blocs, já que não veem neles nenhuma serventia mais.

    1. Ana Cranes Responder

      Sou de esquerda e sou contra o PT. Cadê seu deus agora?

      Todos dissidentes do PT tem sua mágoa com o partido, falar que quem tem raiva ou ódio do PT não é de esquerda é forçar demais a amizade….

    2. Carleandro Dias Responder

      Vem pra Bahia e nos mostra onde o PT de Jaques Wagner e Jonas Paulo é esquerda? A esquerda do PT a todo tempo é desmoralizada pela direitalha que se apropriou do partido, isso sim. Outras esquerdas estão mostrando muito mais enfrentamento e em muitos casos devido o fato da banda poder do PT ter se debandado em prol de cargos e vantagens e não das demandas populares. A muito tempo que a hegemonia do PT rompeu com o socialismo, agora tá colhendo as consequencias, companheiro..

    3. Bedap Anarresti Responder

      O PT é que não é esquerda faz tempo. Virou uma quadrilha reformista-nacional-desenvolvimentista-getulista que é, no máximo, a centro-esquerda do capital. Quem está fora e contra o sistema deseja o fuzilamento destes traidores do proletariado!

  3. Joubert Carvalho de Oliveira Responder

    De novo a Veja!!! É “sempre mais do mesmo”. Eles não devem estar satisfeitos porque os manifestantes não estão poupando nem os seus queridinhos do PSDB.

  4. nadja rocha Responder

    Deveria já saber como funciona essa revista. Falta de aviso não foi.

  5. Carlos Responder

    O problema com política é que ela atrai pessoas com ego avantajado como essa garota, que acha que sabe o que é melhor pra todo mundo e que estaríamos melhor se apenas fosse ela encarregada de ditar como nos vivemos nossas vidas. Encontramos muito desse tipo nas empresas também.

  6. Thales Accioly Responder

    pessoal, vcs não entendem , o que é realmente, vou citar, gabriel o pensador agora: Ate quando vc vai levando… porrada porrada, ate quando vai ficar sem fazer nada…
    algumas pessoas acordaram outras não, continuam sendo alienadas pela midía, so pra vcs verem uma afronta da veja ao estado da Paraiba, editar uma foto, da Emma como as cores da bandeira da Paraiba, é um insulto, para mim que sou paraibano, e para qualquer pessoa que saiba usar o PS, pq ta muito mal feito diga-se de passagem, entristece-me olhar para a imprensa não todos, é claro, mas alguns jornalista, que um dia foram a unica defesa que nosso povo, hj em dia a imprensa por causa de matérias como essa, esta sem nenhuma credibilidade….

  7. Luis Responder

    A Revista Veja não tem compromisso com a verdade, apenas com o dinheiro e com a desinformação política e social. Sempre criticada e exemplo negativo de inúmeras reportagens tendenciosas e sensacionalistas ao longo de muitos anos, essa revista perde cada vez mais a sua pouca credibilidade. Me admira ainda ter jornalistas que à apoiam e leitores que à compram. A falta de ética desse tipo de publicação deveria ser avaliada mais seriamente por ser claramente uma insensatez à democracia e à liberdade de expressão, através da contumaz interpretação mal intencionada de informações que são publicadas unicamente conforme seus interesses e posicionamentos unilaterais.

  8. Franco Carlos Responder

    Essa moça não passa de uma “purinha” oportunista que não sabe limpar a bunda.

  9. Franco Carlos Responder

    Se o rosto da “moça” está coberto e teoricamente não pode ser identificado,por que não posso chama-la de promíscua como a própria reportagem a identificou afirmando que ficou com dois acampados no mesmo dia.O que entendi é que ela que dar a vontade e pronto.

  10. Rogério Bezerra Responder

    Os blocsblocs, bota tudo no chão, geração de príncipes e princesinhas, do “quero agora, senão choro”… As “gracinhas” cresceram e viraram esses idiotas. Parabéns senhores pais! Vocês acreditaram nas pesquisas do “Fantástico”. As crianças viraram “hippies” que curtem sua liberdade em carros pagos pelos otários dos pais.

    Os “bloquinhos” agora dão “aquela” força para a direita mais burra e larápia no Planeta. Burrinhos, mesmos!


x