Israel e Palestina – Quando sua esposa é uma terrorista suicida

A história de amor entre Amin e Siham em "The Attack" comunica o seguinte: a impossibilidade de capturar a essência do "Outro" é justamente o que revela a infinitude do "Outro". Não há como reduzi-lo a uma entidade finita sobre a qual posso ter...

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A história de amor entre Amin e Siham em “The Attack” comunica o seguinte: a impossibilidade de capturar a essência do “Outro” é justamente o que revela a infinitude do “Outro”. Não há como reduzi-lo a uma entidade finita sobre a qual posso ter poder

Por Ronaldo Ribeiro 

“Eu te amo tanto, Amin.”

Dita no escuro e na intimidade do quarto de um casal, é com esta frase que o diretor Ziad Doueiri abre o filme “The Attack” (2012). Tendo como pano de fundo o amor entre Amin e Siham, Ziad Doueiri retrata a vida deste casal de palestinos vivendo em Tel Aviv e convida o espectador a pensar sobre vários temas espinhosos que povoam as mentes dos habitantes da região: fanatismo religioso, identidade cultural, ética e responsabilidade diante do “Outro”.

“The Attack” foi uma ausência importante na 8ª Mostra Mundo Árabe de Cinema em SP e Rio, que trouxe dentre outros o excelente “Cinco Câmeras Quebradas”. Está em cartaz nos Estados Unidos, mas foi censurado em vários países árabes, porque Doueiri, que é Libanês, se recusou a obedecer a lei que não permite negociações entre libaneses e israelenses. Querendo conferir a seu longa o maior realismo possível, Doueiri filmou em Israel com atores locais. Seu filme não foi exibido em sua terra natal como retaliação.

Em “The Attack”, Amin é um proeminente cirurgião trabalhando em um hospital no centro de Tel Aviv. Logo no ínicio da trama, Amin recebe um prêmio por sua excelência como médico e agradece com um breve e sóbrio discurso sobre as dificuldades e possibilidades de se viver em terra estrangeira. Fala da dificuldade e necessidade de se entender o “Outro”, mas sobretudo das semelhanças históricas, genealógicas e geográficas de palestinos e israelenses. Além disso, Amin faz referência ao fato de que nenhum palestino recebera um prêmio há 41 anos – uma possível alusão aos ataques terroristas contra israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972*, e também à longa ocupação dos territórios palestinos desde os confrontos de 1967. No dia seguinte após a premiação, enquanto almoça com seus colegas de trabalho, uma explosão ocorre no centro de Tel Aviv. Dúzias de crianças feridas são levadas para o bloco cirúrgico onde Amin trabalha, todas vítimas de um atentado a bomba. Naquela noite, Siham, a mulher de Amin, não dormiria em casa. Teria sido ela a terrorista suicida por trás do atentado a bomba.

Deste ponto em diante, Amin embarca em uma viagem para tentar entender o que se passara com a mulher. Começa a indagar se ele efetivamente a conhecia. Vai para a palestina, território que há muito não visitara. Redescobre a terra natal e as mazelas e alegrias de estar por lá. Em breve o médico percebe que já não era visto mais como um dos seus. Não se reconhece nos colegas de infância e não é reconhecido por eles. No retorno a Tel Aviv, Amin sente o mesmo no reencontro com os colegas israelenses que agora o viam sob suspeita. Amin tornara-se um desterrado não só em sua mas em qualquer terra, perdera sua identidade cultural.

Nunca perdera, contudo, a voz da mulher em sua memória: “Eu te amo tanto, Amin. A cada vez que você me deixa, uma parte de mim morre.”

Uma das perguntas mais fundamentais que o filme oferece talvez seja a seguinte: no momento do confronto, é possível compreender e aceitar o “Outro” em suas infinitas diferenças e facetas culturais?

Doueiri não oferece respostas fáceis. Mesmo sendo ambos palestinos, Amin e Siham tem facetas desconhecidas um para o outro. Em certo sentido, reproduzem em nível individual as diferenças, impossibilidades e conflitos enfrentados em nível social. O filme comunica bem que há sempre uma infinitude de surpresas e mistérios mesmo naquilo que julgamos conhecer melhor; e também que muito do que somos está presente naquilo que julgamos desconhecido. O “Outro” sempre traz um pouco de nós mesmos, portanto. Vemos isso na vida conjugal, profissional e social de Amin e Siham, e no relacionamento de ambos com palestinos e judeus. Após a morte da esposa, Amin constantemente visualiza o rosto de sua amada, tentando compreender traços de sua personalidade e de seu comportamento que lhe tinham escapado em vida.

O filósofo Emmanuel Levinas discute o que chamou de uma “epifania” diante do rosto do “Outro”. Para Levinas, “O rosto fala. Fala, e é a partir desta fala que toda ética tem início. A primeira palavra do rosto é o ‘não matarás’. Há uma espécie de comando no rosto, como se um mestre falasse comigo”**.

No momento em que Amin perde sua mulher ele percebe que não a conhecia por completo. Entende simplesmente que a mulher acabara por subscrever à lógica perversa do terror como último recurso possível contra a opressão israelense sobre seu povo. Ao mesmo tempo, no decorrer do filme, Amin admite que a tarefa de entender por completo as intenções de sua mulher é impossível de ser levada a cabo.

Exatamente disso trata Levinas quando sugere que a impossibilidade de conceitualmente capturar o “Outro” é justamente o que revela a infinitude do “Outro”. Não há como reduzir o “Outro” a uma entidade finita sobre a qual posso ter poder, sugere Levinas. Se aceitamos tal proposição, para Emmanuel Levinas o gesto inicial que funda nossos pressupostos éticos seria o de reconhecer o rosto do “Outro”, e a partir daí aceitar diferenças, mesmo aquelas que não sejam compreensíveis. Como sugere Avital Ronell, “Tem sido bastante devastadora a procura por significados, por entendimento […] Todo mundo quer algo como ‘significado’. Deixar as coisas em aberto e radicalmente inapropriáveis, e admitir que são algo que ainda não entendemos, é bastante menos satisfatório, mais frustrante e certamente mais necessário […] Precisamente onde não há significado palpável você tem que ser extremamente ético para se relacionar com o “Outro” […] No momento que você acha que conhece o “Outro”, você está preparado para matá-lo”***.

A bela ainda que trágica história de amor de Amin e Siham é marcada por incertezas. No caso de Amin, as incertezas, tanto em nível individual quanto no nível macro-político, não cessavam de ecoar em seu ouvido nas palavras de sua mulher morta: “A cada vez que você me deixa, uma parte de mim morre. Você queria tanto um filho, mas eu não poderia lhe dar um filho que não iria ter pátria.”

Assista ao trailer do filme “The Attack” (em inglês)

* Manohla Dargis traz esta ideia em seu artigo no NYT “First a Bombing, Then a Truth That’s Elusive”.

** Minha tradução de excertos de “Totality and Infinity”, de Emmanuel Levinas.

*** Minha tradução de excertos de “Examined Life”, com Avital Ronell.

**** Slavoj Zizek traz critica interessante a ética de Levinas em “Smashing the Neighbor’s Face”.



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