Cinco teses sobre Assange, Manning e Snowden

O que revelaram Manning e Snowden é a agonia do império dos Estados Unidos. O que revelaram Assange e outros é a agonia do sistema estatal como o conhecemos

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O que revelaram Manning e Snowden é a agonia do império dos Estados Unidos. O que revelaram Assange e outros é a agonia do sistema estatal como o conhecemos

Por Johan Galtung*, em Envolverde/IPS

Tese um

O assunto de divulgar informação reservada não se trata de revelar segredos, mas sim de não violência e da luta da desobediência civil contra os grandes males sociais.

Revelar informação secreta pressupõe que se possa alertar alguém, que de fato quer ser alertado, e que está em posição de fazer algo a respeito.

Obviamente, os que podem fazer algo a respeito da política externa dos Estados Unidos, os que têm o poder – o Legislativo: congresso e em especial o Senado; o Executivo: Departamento de Estado, Pentágono e Casa Branca; o Judiciário: Suprema Corte; o econômico: bancos gigantes; a cultura: os grandes meios de comunicação – sabem perfeitamente bem que isso acontece.

São todos esforços para conservar o poder imperial econômico, militar, político e cultural.

Entretanto, não querem mudanças. E os que querem – uma grande parte da população norte-americana, da dos países aliados e a maioria do resto do mundo – foram alertados, mas em grande medida são impotentes. Ao menos isso é o que acreditam. Sobre este ponto, veja a tese cinco.

Tese dois

A questão básica não é o interesse político-midiático sobre Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, mas sobre a informação que divulgaram.

Manning divulgou um vídeo sobre o ataque de um helicóptero contra várias pessoas, a maioria não combatentes e desarmadas, no Iraque, entre os quais havia dois jornalistas da agência de notícias Reuters.

O resultado: o parlamento iraquiano rechaçou a proposta do governo de George W. Bush (2001-2009) de manter uma base militar nesse país. Os Estados Unidos se retiraram do Iraque em 31 de dezembro de 2011.

Manning também revelou a magnitude total da corrupção do ditador da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, o que avivou a revolta juvenil.

Também revelou que o ditador do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, aceitou os ataques com aviões não tripulados dos Estados Unidos em seu país, o que levou à sua a saída do poder.

Manning revelou que a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ordenou a diplomatas da Organização das Nações Unidas (ONU) que espionassem seus colegas no fórum mundial em busca de informação detalhada sobre os líderes da ONU, com contrassenhas e chaves criptografadas.

Manning revelou que o atual secretário de Estado, John Kerry, pressionou Israel para que se mostrasse aberto a devolver as Colinas de Golã à Síria como parte das negociações de paz.

Manning revelou que a corrupção do governo afegão era “esmagadora”.

Manning revelou a natureza autoritária e corrupta do regime de Hosni Mubarak (1981-2011) no Egito.

Da esquerda para a direita, Assange, Snowden e Manning. (Foto Reprodução/ Internet)

Manning revelou que o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, estava contra atacar as instalações nucleares do Irã porque seria contraproducente.

Manning revelou a política israelense de “manter a economia de Gaza funcionando em sua mínima expressão possível enquanto se evitasse uma crise humanitária”.

Manning revelou que o presidente da Síria, Bashar al-Assad, e sua mulher compraram joias e levavam um estilo de vida luxuoso na Europa, enquanto sua artilharia matava em Homs.

Tomemos o exemplo de Snowden: suas revelações, de que os Estados Unidos espionavam tanto seus aliados quanto o Afeganistão, colocaram em risco os planos de Washington de criar dois grandes blocos comerciais, um transatlântico e outro transpacífico, para excluir o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Assim sendo, então esta é a história do mundo, com os Estados Unidos ganhando tempo.

Tese três

A diplomacia em geral, não só a dos Estados Unidos, ficou a descoberto

Quando Assange publicou as primeiras informações no WikiLeaks escreveu: “O imperador está nu. Mas não só o imperador norte-americano, como também a imperatriz diplomacia”.

“Que tipo de discurso ridículo é este, tão concentrado no negativo, nos atores, em geral pessoas da elite em países de elite? Mexericos, caracterizações pueris, o tipo de ‘análise’ de poder típico da imaturidade. Onde está a análise da cultura e da estrutura, que é anos luz mais importante do que os atores que vem e vão?”, questionou.

“Onde estão as ideias positivas? Onde estão as ideias sobre como transformar os desafios da mudança climática em cooperação para um benefício mútuo e equitativo como os projetos para destilar água na fronteira de Israel com Líbano e Palestina, alimentados por espelhos parabólicos, e a positiva cooperação entre Estados Unidos e Irã sobre energias alternativas?”, ressaltou.

“A democracia morre a portas fechadas e o WikiLeaks as abre; um enorme serviço à democracia”, afirmou.

O que revelaram Manning e Snowden é a agonia do império dos Estados Unidos. O que revelaram Assange e outros é a agonia do sistema estatal como o conhecemos. Ambos processos levarão tempo, o anterior mais do que este último. Mas, sem errar: estas três pessoas fizeram história.

Três nomes que serão lembrados quando alguns presidentes dos Estados Unidos passarem a um merecido esquecimento. Quem recorda as maiores autoridades inglesas na Índia, como os vice-reis e seus crimes, reis dos vícios? Gandhi mantém vigência.

Quem conhece os nomes dos ingleses que trataram de manter as colônias no litoral do Oceano Atlântico? George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin ofuscaram a todos.

Talvez, inclusive, contribuam para a redução dos exércitos e, se os Estados Unidos mudarem, para o entendimento entre as nações. Um prêmio Nobel da Paz compartilhado pelos três. Não muito provável, porque a Noruega é cliente dos Estados Unidos.

Tese quatro

Os aliados dos Estados Unidos obedecem por medo, não por estarem de acordo. Concretamente: obedecem para evitar que um dia a Força Aérea dos Estados Unidos aterrisse nas muitas bases que estão à sua disposição, “pois o governo é incapaz de proteger sua própria população”.

Vêm os Estados Unidos, não os russos nem os muçulmanos. Quanto mais factível se torna, mais os Estados Unidos deslizam para sua predisposição ao totalitarismo bem aceito. O próximo passo, provavelmente acampamentos da Fema (Agência Federal para o Manejo de Emergências) para suspeitos – por categorias, metadados – como os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Tese cinco

Todo o mundo, em especial a mídia, pode acelerar o processo. As maçãs podres devem cair da árvore; uma sacudida ajudaria.

Os meios de comunicação mais importantes, como The Guardian e The Washington Post à frente, merecem nossos cumprimentos. Depois, deixemos que milhões de pessoas cerquem os ministérios das Relações Exteriores e as embaixadas pedindo o fim da espionagem, que afastem seus servidores dos grandes traidores nos Estados Unidos, suspendam a cooperação futura, turvem as relações diplomáticas até que ocorra uma “desespionagem”, semelhante ao desarmamento.

* Johan Galtung, professor de estudos sobre a paz, é reitor da Transcend Peace University (TPU). Também é autor de 150 livros sobre paz e assuntos afins, entre eles 50 Years -100 Peace and Conflict Perspectives (50 Anos -100 Perspectivas Sobre Paz e Conflitos).



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