A nova realidade do ranking dos maiores grupos de comunicação do Brasil

O mercado brasileiro de comunicações está cada vez mais dividido entre os grandes grupos estrangeiros e a Globo. O resto não vale uma nota de três reais

1660 2

O mercado de comunicações está cada vez mais dividido entre os grandes grupos estrangeiros e a Globo. O resto não vale uma nota de três reais

Por Gustavo Gindre, no Observatório da Imprensa, reproduzido do blog do autor

Há tempos venho insistindo num argumento. O processo de convergência acentuou a penetração dos grandes conglomerados de mídia e trouxe com eles novos players como as empresas de telecomunicações, os fabricantes das smartTVs, Google, Amazon, Apple, Netflix e outros. Diante disso, aquela conversa de que a comunicação no Brasil é controlada pelas tais nove famílias simplesmente não é mais verdade. O tempo agora é outro. O mercado brasileiro de comunicações está cada vez mais dividido entre os grandes grupos estrangeiros e a Globo. O resto não vale uma nota de três reais.

E se antes era ruim, agora pode ser ainda pior, porque o desafio de regular esses gigantes transnacionais pode ser ainda maior do aquele de regular os coronéis da velha mídia. Senão, vejamos.

1. A OI, “super tele” que o governo Lula ajudou a criar quando alterou a regulamentação e permitiu que a Telemar comprasse a Brasil Telecom, tem um endividamento oneroso cerca de 50% maior do que a soma dos endividamentos de todas as suas principais concorrentes (Telefonica, Embratel, TIM, Claro, NET, GVT e Algar). É difícil imaginar como essa empresa conseguirá lidar com uma dívida tão grande, com as enormes demandas de investimentos do mercado de telecomunicações e com a sanha por dividendos demonstrada por seus controladores (e que levou à demissão de seu ex-presidente, Francisco Valim).

2. A receita líquida da Globo (mesmo sem incluir os jornais e as rádios do grupo) é mais de seis vezes superior à receita líquida da Abril S.A., o segundo maior grupo de mídia do Brasil. Se forem acrescentadas a receita líquida do SBT, do grupo OESP e da RBS, mesmo assim a soma não alcança um terço da receita líquida da Globo.

3. O mesmo fenômeno se repete no lucro líquido da Globo. Se somarmos Abril, SBT, OESP e RBS, o lucro líquido da Globo é cerca de 11 vezes maior.

4. Só os jornais da família Marinho (Infoglobo) já são hoje o terceiro maior grupo de mídia do país, atrás apenas da própria Globo e da Abril.

Nichos de mercado

5. O endividamento oneroso da Globo é menor do que seu lucro líquido obtido apenas em 2012.

6. Já o endividamento oneroso da Abril S.A. é mais de dez vezes superior ao patrimônio líquido da empresa. Isso ajuda a explicar o tamanho da crise da Abril e porque os Civita começam a apostar mais em educação do que em mídia.

7. Embora seja o homem mais rico do mundo, Carlos Slim ainda sofre para conseguir lucros expressivos de suas empresas brasileiras (Embratel, Claro e NET). Principalmente a Claro segue sendo seu calcanhar de aquiles e mais uma vez a empresa fechou o ano com lucro líquido negativo.

8. Os grandes conglomerados mundiais de comunicação (Warner, Disney, Viacom, etc) não constam dessa relação porque suas empresas no Brasil (distribuidoras de cinema e programadoras de TV paga, por exemplo) são meros escritórios que repassam o lucro obtido no país para suas matrizes no estrangeiro.

9. Para quem tinha alguma dúvida, os balanços de 2012 são definitivos. A Globo é o único grupo de comunicação de capital brasileiro capaz de sobreviver no médio prazo. Todos os demais são minúsculos frente aos concorrentes estrangeiros e serão tragados ou terão que se contentar em ocupar nichos bem específicos. A ausência de políticas públicas gerou uma situação gravíssima para o futuro de nossa democracia.

***

Pra que entender se eu posso dar um like?

G.G. # do Facebook

O mundo é cada vez mais complexo e nos cobra uma atitude crítica e embasada. Não basta ter uma “convicção de esquerda” e achar que os fatos irão se adequar às nossas convicções.

Meu post de 21/8 (sobre o balanço dos grandes grupos de comunicação) foi republicado no Vi o Mundo, um dos melhores espaços de nossa blogosfera. Hoje (22) passei para dar uma lida nos comentários e confesso que tive uma mistura de decepção e preocupação.

Primeiro, há uma quantidade enorme de falas sem nenhum embasamento real. Gente dizendo que a Globo possui um “passivo escondido” ou que a Oi foi vendida para o Santander (quando, na verdade, o banco comprou apenas a gestora de créditos da Oi) ou apostando que a Globo vai quebrar porque o universo inteiro conspira para a sua falência, etc. Enfim, é uma mistura de informações desencontradas, colhidas aqui e ali, com muito desejo de que o mundo esteja de acordo com nosso entendimento de justiça. Mas, se queremos mesmo mudar o mundo, a primeira coisa a fazer é compreendê-lo de forma desapaixonada e criteriosa. É preciso, acima de tudo, ter rigor com a informação, o que parece ser o oposto dessa época de conhecimento fast food.

Segundo, muita gente lê já predisposta a criticar. O que eu disse naquele texto (e repito há tempos) é que a falta de políticas públicas está gerando um cenário onde prevalecerão apenas os grandes grupos transnacionais e a Globo. Eu não disse, em momento algum, que seria necessário, então, salvar os frangalhos dos demais grupos da grande mídia nacional. Muito pelo contrário, esses senhores prestaram ao longo de suas vidas um desserviço à democracia brasileira e estão quebrando em grande parte por conta da incompetência em gerir seus negócios. Mas, também é forçoso reconhecer que será muito mais difícil regular grandes grupos transnacionais do que empresas brasileiras geridas pelos velhos coronéis da mídia. Isso significa que eu torço para o sucesso da Abril ou do SBT? Por que o raciocínio haveria de terminar num Fla x Flu? Ora, se você acha um problema que tudo caminhe para ser a Globo e as transnacionais, logo você defende a grande mídia nacional, certo? Não!!!!!

Enfim, dá um certo cansaço desse debate que parece não levar a lugar algum, quando a maioria das pessoas está disposta apenas a dar um “like” em algo que pareça concordar com a visão de mundo delas, algo que ajude a desopilar a fígado, embora possa não avançar um milímetro na tentativa de entender e com isso mudar a realidade.

Para esse tipo de raciocínio seria muito melhor que eu tivesse escrito que a Globo vai mal das pernas e deverá falir em breve. Aí choveria “likes” porque esse tipo de informação vai ao encontro de nossa torcida e daquilo que julgamos ser o melhor para o mundo. E se é o melhor para o mundo, obviamente tenderá a ser realidade mais cedo ou mais tarde. Pouco importa se, infelizmente, a realidade dos fatos aponta no sentido contrário. Mas, quem liga para a realidade quanto temos o Facebook, não é mesmo?

***

Gustavo Gindre é jornalista e integrante do Coletivo Intervozes; foi membro eleito do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) por dois mandatos

 



No artigo

2 comments

  1. zonda Responder

    Vivemos ainda cercados pelos muros do broadcasting: quem acha que a tv vai morrer num ‘plim-plim’ precisa dar uma voltinha, sair da cerca da web com seus aplicativos maravilhosos em telefones da hora que ‘até falam’ – nova forma de aprisionamento, mas ainda uma cerca-viva que deixa entrever outros caminhos.

    A criação da EBC, a partir da quase ‘massa falida’ da radiobras, foi o único passo mais forte que o governo deu nos últimos anos em prol de uma comunicação pública – contudo, a carência de cobertura nacional, a fronteira tênue com a informação estatal, que importa mas não pode ser mandatária nesse caso, faz da iniciativa um plano-piloto.

    O nosso mundo e o próprio governo, posicionado à esquerda ‘de quem vem’, nunca soube (ou apenas ainda não sabe, quiçá!) lidar com a coisa comum: acostumamos à propriedade privada dos outros com cara de ‘nossa’ – concessão travestida.

    Esse fardo é pesado e os cenários e tendências da comunicação contemporânea não parecem lá muito favoráveis para uma mudança drástica no contexto. A revolução não foi televisionada porque não aconteceu, mas ainda boto fé que possa vir a ser tuitada…(em definitivo, ‘likes’ não são revolucionários!)

  2. Rui Responder

    Gustavo,

    Faltam números no seu artigo.Números que suportem a sua argumentação. A Globo deve à Receita. Recebe mais de 50% das verbas públicas de comunicação. Compare para que se possa ter a real noção do que você explícita. Não duvido. Mas gosto de pensar.

    Você não levou em conta a Folha de São Paulo e sua associação com vários jornais regionais, UOL, Valor. E suas empresas no grupo. Acho seu artigo interessante, mas faltam dados de balanço e de mercado. Aí vai ser possível entender a sua tese. No seu texto não vejo a passagem obrigatória entre informação qualificada (jornalismo) e as mídias (Telecom).

    Isso faz a diferença.

    Os jornalistas estão sem trabalho, os blogues crescem e muitos deles sem financiamento, as informações são repassadas sem direito autoral, não há publicidade ou meios de remuneração ou cobrança, apesar de gerarem audiência à rede. Como vai ser o novo modelo de comunicação? A Globo tem problemas sérios: 1. A editora Globo não anda. 2. A ameaça jurídica de perda da TV Globo SP para a Organização Victor Costa, proprietária inicial da TV em São Paulo. 3. O Globo não entra em São Paulo. 4. As Organizações Globo têm em São Paulo o Diário de São Paulo e parceria minoritária com a Folha tem o Valor Econômico. 5. Portal fraco, G1, Globo e etc, devido à questão de como computar receitas vias publicidade. 6. Receita Federal em processo que todo mundo conhece. 7. Enfraquecimento das mídias locais por conta de redução de verbas e baixo investimento. 8. As pessoas devido a atividades como estudo, trânsito, internet, vida noturna consomem menos TV, e por isso, a Globo tem menos audiência entre os mais jovens. 9. Os ataques e a concentração das mídias nas Organizações Globo, incluindo rádios e retransmissoras de TV em todo o País, no primeiro momento geraram lucro. E agora esta mesma concentração se voltou contra a empresa, devido à falta de pluralidade que dinamiza o setor.

    E, por fim, no caso da Abril, há dois meses 150 jornalistas foram mandados embora. Várias revistas de núcleos importantes foram fechadas, caso da Bravo!

    Como você vê, estes grupos desejaram muito e deixaram pouco. E são protegidos apesar de não recolherem impostos e pagar INSS para parte de seus funcionários contratados como PJs. Você acha que as pessoas defendem um nacional em mãos de poucos e iluminados, ou seja, monopólio, e ainda por cima, de baixa qualidade? Não me parece.

    Vários grupos de comunicação foram fechados desde os anos 60. E sempre por conta de interesses entre política e comunicação. Diários Associados, Última Hora, jornais locais, revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos , TVs Manchete(Editora Bloch) e RGE, hoje Globo. A Editora Vecchi, Jornal da Bahia,
    Diário de Minas, Jornal do Brasil, Rádio JB, Gazeta Mercantil e tantos outros. O jornalismo se renova.

    Hoje, a falta de espaços para o jornalismo qualificado fez com que muita gente recorresse às informações da internet. E o feitiço virou contra o feiticeiro. A internet vai bem, obrigado.

    E o dragão está em seu estertor, não solta mais fogo pelas ventas. Apesar de
    alguns continuarem alimentando com 50% das verbas públicas nacionais de mídia.
    Sabemos de quem estamos falando.


x