Ferréz: O ofício e a oração

O filme está bom, mas paro na metade e vou ver um doc, amanhã é dia de compromisso e a mente tem de ficar a milhão.

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Esta matéria faz parte da edição 123 da revista Fórum.

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Noite.

O filme está bom, mas paro na metade e vou ver um doc, amanhã é dia de compromisso e a mente tem de ficar a milhão.

Lá fora, os moleque joga bola, uma barulheira do cão, uns palavrão entra pela sala, a vizinha já proibiu eles de jogarem na porta dela, eu de vez em quando só digo para dar uma maneirada na boca-suja.

O doc é duro, ideológico, marca presença, foi presente de um mano que me trombou no metrô, disse que gostava dos meus textos e que tinha um trabalho paralelo na escola onde dava aula, um trabalho de conscientizar a molecada.

Subo e pego um livro, Capitalismo de laços: os donos do Brasil e suas conexões. Como dizia o Ghóez, temos de estudar os inimigos.

Logo o sono chega e amanhã o dia vai ser mais curto.


Dia.

Lavo o rosto e tomo um gole de café preto, vou pro quartinho separar os livros, alguns Cronista de um tempo ruim, alguns Desterro, um exemplar só do Manual e vários Capão Pecado, o que até hoje mais vende nas palestras.

Olho a pasta com os textos, alguns contos, algumas crônicas, sempre deixo para escolher na hora o que vou ler, o clima é que me diz o que fazer.

O telefone toca, o motorista quer saber a que horas pode vir, agora que não tenho mais celular tá todo mundo inseguro, pensando que eu não chego, mas sempre chego.

Marcamos o horário, nessa palestra vai ter transporte, às vezes num tem, aí o metrô me leva ou arrumo um parceiro para me levar, já pedi favor para tantos que nem sei, num gosto de dirigir para longe, ainda mais quando volto guiando depois de tanta ideia, a cabeça fica voando.

A bolsa tá arrumada, a Elaine pegou a máquina fotográfica, nessa ela vai comigo, me ajuda a montar a mesa com os livros, a tirar as fotos, e me faz companhia no caminho às vezes longo.

Nessa vamos varar São Paulo, de um extremo a outro, sentido zona leste.

O motorista é silencioso, dirige com atenção, já peguei uns loucos que cês nem imagina, esse é tranquilo, em uma hora e meia chegamos, a van balançava um pouco.

Ainda não posso pegar peso por causa da recente cirurgia, mas a mochila vai um pouco cheia, esperança de boas vendas.

Entro na escola, a responsável pelo evento vem me abraçar, conversamos um pouco, os alunos estão animados, nunca conheceram um escritor de verdade, segundo ela essa fita eu vou mudar hoje.

Já fiz palestra em todo lugar, Fundação Casa, Faap, na gringa, cadeia, liberdade provisória, escola do interior, cursinho universitário, e nelas já vi de tudo, palestra de autor que só quer se promover, provar que tem seu lugar de destaque no mundo, outros que só falam da obra que ainda vão fazer, tipo uma pré-venda, tá ligado? Outros vão falando dos seus novos projetos para crianças que não sabem nem quem é ele.

Tarde.

Vou ao banheiro, olho no espelho.

– Senhor, me ajude a encontrar o caminho e poder passar um pouco, falar da conspiração da mídia, colocar na cabeça dessas crianças para não seguir o caminho da massificação, lutar contra o consumismo, mostrar a verdade do Ser em vez do Ter. Trazer o amor à família, o valor da periferia, a nossa autoestima, a importância cultural que temos, o valor da nossa cor e da nossa história, me ajude, Senhor, a trazer consciência, senso crítico, autovalorização, e mostrar o plano maquiavélico que sempre beneficiou a elite e nos massacra financeiramente e culturalmente nesses anos.

– Que eu traga em minhas palavras o inconformismo, que eu transmita o ódio de todos os dias iguais, sem uma vida justa para todos, que eu provoque não a revolução pessoal, mas a mudança da sociedade, não o ganho material, mas o valor social de uma vida digna para todos.

– Que eu represente, Senhor, com responsabilidade, os que nunca escreveram, nunca rimaram, nunca sequer tiraram os textos da gaveta, para que esse ofício, a labuta com a caneta seja uma centelha de esperança, e não de comodismo.

– Me ajude, Senhor, a pregar contra as marcas que meu povo usa, mas que usam mão de obra escrava igual ao meu próprio povo, contra o álcool que contamina nossas crianças, contra a sua evolução às drogas, os alienadores de realidade que é tão dura, mas é nossa verve para ter sucesso pela dor. Senhor, me ensine a falar com sábias palavras contra a elite que não mostra o nosso real valor, que nos humilha, nos envergonha pelo nariz, pela boca e ri do nosso cabelo, me mostre como, nessa uma hora, deixar uma marca nessas vidas, para que eu também tenha um sentido na minha própria vida, sendo verdadeiro e honesto, afinal o gueto reconhece isso logo de cara.

– Me ajude, Senhor, para representar todos os amigos que morreram travando a guerra, aos que não puderam ver mais o Sol de cada dia, e aos que nunca souberam o valor de uma vida, que eu fale em nome dessa verdade hoje.

– Da paciência de Mandela, da fúria de Malcon, da verdade de Luther King, das ruas de Lima Barreto, dos versos de Sabotage.

O espelho não responde, mas eu encaro ele ainda por alguns segundos, para ter certeza, e vou.

Ferréz é escritor, entre os seus livros publicados estão “Capão Pecado” e “Deus foi almoçar”.

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