Do barro se faz a arte em Pernambuco

Artesãos modelam o cotidiano nordestino em peças que traduzem a história da região e a contam para o mundo

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Artesãos modelam o cotidiano nordestino em peças que traduzem a história da região e a contam para o mundo

Por Arthur Maciel, fotos de Jesus Carlos / Imagem Global

Esta matéria faz parte da edição 123 da revista Fórum.
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A menina era agitada, coisa normal da infância, gostava de correr e fazer as traquinagens comuns em sua idade e devido à liberdade oferecida pela vida no campo. O pai, oleiro, resolveu inovar no castigo. Botou um prato com água, um pedaço de pano e uma bola de barro no chão, e disse a ela que sentasse ao lado e modelasse o bicho que ela quisesse. “Faça um cachorro, um boi, uma lagartixa, o que você gostar.” A menina relutou, mas depois de mexer um pouco com a massa, achou que tinha conseguido agradar o pai. “Tá bonito, minha filha, muito bonito, agora faça mais, que tem um homem em Olinda que disse que compra tudo que você fizer.” Era uma profecia. Passados 80 anos, a menina continua modelando o barro, tem peças nas mãos de colecionadores e museus em todos os cantos do Brasil e é uma das maiores representantes da arte figurativa em barro de Pernambuco.

“Meu pai era um homem muito bondoso, não batia nos filhos, conversava com a gente. Quando, no dia seguinte, eu vi que tinha de ficar com ele novamente foi que percebi que estava de castigo. Não perguntei mais nada. Fiquei no meu canto mexendo com o barro e esse é meu trabalho até hoje. Também aquilo que eu vejo, que penso, faço no barro. Nunca mais parei. Amo o meu trabalho”, relata Maria Amélia da Silva, 89 anos, patrimônio vivo da cultura de Pernambuco, título concedido pelo governo a destacados artistas do estado e que rende a ela uma verba mensal de R$ 750. A artesã é a mais antiga representante viva da arte figurativa de barro da cidade de Tracunhaém, a 65 quilômetros do Recife, na zona da mata norte de Pernambuco. Uma cidade que tem na arte feita no barro a sua mais autêntica expressão cultural. E é, junto ao Alto do Moura, em Caruaru, o maior centro produtor de arte figurativa do estado.

Maria Amélia da Silva, 89 anos, patrimônio vivo da cultura de Pernambuco

A cultura da arte figurativa em Tracunhaém, assim como nas cidades de Caruaru e Goiana, nasceu com a antiga tradição indígena de confeccionar cerâmicas, como potes e jarras de armazenar água, bacias, panelas, copos e toda a sorte de peças utilitárias que abasteciam as casas. Até meados do século passado, os encanamentos da cidade eram feitos de barro. Contam os mais antigos artesãos que foi Lídia Vieira a primeira representante desse tipo de arte em Tracunhaém. Suas peças, entretanto, são raras de serem encontradas, algumas poucas compõem o rico acervo do Museu do Barro de Caruaru, onde também se encontram trabalhos de Maria Amélia e dos maiores artesãos do barro de Pernambuco.

Além de Maria Amélia, Tracunhaém conta com outros dois ceramistas reconhecidos como patrimônio vivo do estado: Manoel Borges da Silva, 76 anos, o mestre Nuca, e Joaquim José da Silva, 76 anos, o Zezinho de Tracunhaém. Noêmia Barbosa da Silva, 61 anos, e Nilson “Santeiro” Tavares, 62, são os mestres agraciados com uma versão municipal do prêmio. É de Nuca uma das obras mais conhecidas em Pernambuco, o Leão Cacheado. Exemplares dessa peça, confeccionados por ele, encontram-se em coleções particulares e acervos de museus. Essa foi a peça que tornou o artesão conhecido pelos colecionadores e críticos de arte.

“Foi por conta desse Leão Cacheado que parei de vender meu trabalho na feira e passei a trabalhar apenas por encomenda”, observa mestre Nuca. “Eu, desde menino, acompanhava meus pais na feira de Carpina, onde vendiam jarras, moringas e outros objetos de barro, e também macaxeira e coisas que plantavam no sítio. Comecei a levar os bichinhos que fazia pra brincar e vi que as peças vendiam bem. Nunca mais parei de fazer”, relata. “Um belo dia, já adulto e casado, tive o pensamento de fazer um leão. Dormi pensando na forma de fazer e, no outro dia, fiz o primeiro, com o cabelo liso. Tempos depois, minha esposa teve a ideia de fazer o leão com os cabelos cacheados, e foi assim que a peça fez mais sucesso.” Hoje, o trabalho na casa é comandado pelos filhos Guilherme e Marcos Borges, e pelo sobrinho de Nuca, Zenildo Gomes. “Tive a sorte de ensinar o meu ofício a meus filhos, essa é uma das minhas maiores alegrias”, conta o mestre.

Da mesma geração de Nuca, Zezinho tem na Maria Grávida a peça mais cara de todas que já produziu. Mais cara ao artista, que não esconde a predileção pela criação. “Essa é uma peça pela qual tenho muito carinho e cuidado”, aponta. A tradição da arte figurativa em barro é mantida pelos filhos, em ate­liês pela cidade. Dinho, Nando, Carlos, todos de Zezinho em seus nomes artísticos. A coleção de Zezinho é uma das mais destacadas de Pernambuco, principalmente as peças em tamanho natural. O São Francisco, o São Cosme, o Moisés, o Santo Orando, o Anjo Gordo, o Beato, acervo que felizmente compõe uma exposição permanente do Museu do Barro de Caruaru e pode ser apreciada por todos que visitam a cidade no agreste pernambucano. Um patrimônio público.

Peça de mestre Zé do Carmo

O museu tem a mais completa coleção de esculturas de barro de Pernambuco, inclusive 66 peças criadas por mestre Vitalino de Caruaru, tido no estado como o maior representante da arte figurativa de barro. O mestre é, certamente, o pai desse estilo artístico na cidade, mas quando ele desenvolvia a arte em sua cidade, o mesmo acontecia em Tracunhaém, com Lídia Vieira, e em Goiana, onde, segundo o mestre Zé do Carmo, a arte nasceu com sua mãe, Joana Isabel de Assunção.

De estilo barroco, José do Carmo Souza mantém um pequeno museu na cidade de Goiana, onde expõe parte do acervo de arte figurativa que modelou ao longo de sua trajetória como artesão. Aos 79 anos, o mestre, também patrimônio vivo da cultura de Pernambuco, dedica-se hoje à pintura. As mãos estão cansadas para o barro, justifica. No acervo que mantém, entretanto, pode-se vislumbrar o talento do mestre. Sua temática insiste em “anjos com cara de gente da terra”, como ele define. São anjos músicos, tocadores de zabumba, sanfona e triângulo. Anjos cangaceiros, armados de asas e boas intenções. Anjos revolucionários, como o Zumbi Anjo, que nasceu já nos toques das tintas sobre tela, arte à qual o mestre se dedica atualmente.

Em 1980, quando da visita do papa João Paulo II ao Recife, Zé do Carmo confeccionou uma peça em tamanho natural, um cangaceiro com fisionomia de Lampião e asas de anjo. “É o Anjo Cangaceiro”, disse ao arcebispo Dom Hélder Câmara, no intento de presentear o papa com a peça. “Ou é cangaceiro ou é anjo, ou uma coisa ou outra, as duas não existem numa só pessoa”, conta Zé do Carmo, lembrando da reação do religioso. A peça é a principal da exposição do artesão em Goiana.

Técnica e empirismo

Cada passo do processo de confecção de uma peça de barro exige uma ciência, um conhecimento totalmente empírico e transmitido de uma geração a outra. Desde o reconhecimento da matéria-prima utilizada, o barro, ao tempo de secagem antes de levar a peça ao fogo. E também na forma correta de, literalmente, cozinhar a peça, conhecimentos são herdados e aperfeiçoados.

A tradição do forno a lenha é mantida por 99,99% dos artesãos do barro. Nas cidades de Goiana, Tracunhaém e Caruaru, em um universo de 20 artesãos entrevistados, apenas um utiliza o gás como fonte de energia para o funcionamento dos fornos.

“Nem todo artesão domina a arte de cozinhar as peças”, avalia Carlos Gonzales Gonçalves, 33 anos, filho de Terezinha Gonçalves e José Gonçalves Simões, artesãos e proprietários de um ateliê na Rua Mestre Vitalino, 107, Alto do Moura. Ele utiliza uma técnica aprendida com o pai, que hoje está enfermo e recluso por conta de uma doença degenerativa. “E se a queima da peça não é bem feita, ela racha ou fica chamuscada, ou fica frágil, quebradiça”, observa.

Nessa fase final do trabalho, Carlos observa cada detalhe, desde a organização das peças no forno até a hora da queima. “As melhores madeiras são a algaroba e o mameleiro. O fogo tem de ser feito aos poucos, todo o processo vai durar de seis a sete horas. Não é a fogueira que cozinha a peça, mas o calor produzido pela brasa”, ensina. “Ao final, quando a temperatura já atingiu os 700 graus, umas cinco ou seis horas depois de iniciado o processo, a gente queima as peças, acrescenta lenha ao forno completo de brasa e deixa as labaredas tocarem as peças por cerca de uma hora. Passado esse tempo, a gente recolhe a brasa do forno e deixa as peças esfriarem, pelo menos por 12 horas, dependendo do tamanho do forno que a gente usa. Esse tempo pode ser maior ou menor”, calcula.

Cabe à matriarca da família o comando dos trabalhos que se valem tanto da produção em série de bonecas quanto de peças decorativas muito utilizadas por arquitetos na decoração de lojas e residências. Como também luminárias e jarras, e as peças de onde surgiu o trabalho com o barro, panelas, pratos, copos e outros utensílios que hoje abastecem famosos restaurantes de Pernambuco e outros estados. É tradição no Nordeste o conceito de que comidas preparadas em panelas de barro têm um sabor mais apurado que as preparadas em panelas de alumínio.

O ateliê funciona como uma empresa, administrada pela mão forte da genitora. Entre os três filhos, um cuida do que é produzido no torno; outro, do cozimento das peças; outro, da modelagem à mão. A base das bonecas é produzida no torno. A cabeça, de formas feitas também em barro e acopladas às bases. Depois de cozidas,  passam para as pintoras, contratadas para dar cor às peças e, daí, vendidas aos comerciantes, tanto de Pernambuco como de fora do estado, de onde partem para as mãos dos compradores finais, para decoração de ambientes diversos. “Vende muito, essa Nega Maluca”, observa Terezinha Gonçalves. Mas são os utensílios para restaurantes e as peças decorativas o carro-chefe do trabalho comandado pela artesã.

Também adepto do trabalho em série, José Lima Gomes, 52 anos, o mestre Zezinho Muriçoca, trabalha tanto com o torno como modela peças únicas, para colecionadores, como as que compõem a coleção de máscaras, que são a marca do seu trabalho. Penduradas em paredes, seja de colecionadores, seja em seu ateliê, expressam curiosas fisionomias que se identificam com velhos hábitos regionais.

O coronel dando carão, o velho espantado, sorrindo, mangando (caçoando) de alguém, são a tônica de sua arte. Uma construção sutil de faces comuns do povo, em traços rústicos e de muita sensibilidade criativa. O trabalho com o torno é no mesmo esquema das bonecas de Terezinha Gonzaga, com cada trabalhador fazendo sua parte numa linha de produção, que visa essencialmente à venda de grandes quantidades de peças. Em vez de bonecas, Zezinho trabalha na linha de produção de galinhas de angola estilizadas.

Vitalino – O mentor da arte figurativa em Caruaru

Mestres Manoel Galdino, Manuel Eudócio, Zé Caboclo (José Antônio da Silva), Luiz Antônio, Elias Francisco, são todos contemporâneos e se inspiraram no trabalho de mestre Vitalino para descobrir que a arte figurativa era o dom maior de cada um. Tudo fruto de inspirações dadas por parentes mais velhos ou por ideias que brotaram da imaginação de cada um.

“Eles iam os três, Vitalino, papai e Eudócio, com várias peças, vender na Feira de Caruaru. Não tinham nem papel para enrolar as peças, usavam folhas de caatingueira, uma folha cheirosa que serve inclusive para fazer chá, é medicinal. Assim minha mãe me contou.” O relato é de Marliete Rodrigues, uma das quatro filhas de José Antônio da Silva, o Zé Caboclo, e uma das mais expressivas representantes da arte figurativa em Caruaru. Talento herdado e desenvolvido por ela, especialista na composição de miniaturas em barro. “É um trabalho mais difícil de ser executado, mas que me deu muito prazer em desenvolver. Eu não trabalho somente com miniaturas, gosto de retratar momentos vividos em família”, situa a artesã.

Mestre Vitalino é o precursor dessa arte em Caruaru. Foi também o primeiro a ter o talento reconhecido nacionalmente e, em seguida, internacionalmente, com exposições na Suíça e no Peru. Pau-de-arara, Família de retirantes, Bumba-meu-boi, Caçador de onça, Caçador de gato maracajá, O delegado, O dentista, Homem a cavalo, O nego atirando nas onças, Cachorro pegando tatu, Vitalino pondo peças no forno, Volta da roça, Briga com mão-de-pilão, Assando castanha, Farra na praia, Procissão com zabumba, O diabo dando cachaça ao bêbado: cada cena vivida, ou imaginada pelo mestre, virou mote para a construção de uma nova peça.

Peça de Terezinha Gonçalves

Filho de Marcelino Pereira dos Santos e Josefa Maria da Conceição, Vitalino Pereira dos Santos nasceu em 10 de julho de 1909, no Sítio Campos, zona rural de Carua­ru. Criou sua primeira peça aos 6 anos de idade,um gato maracajá trepado numa árvore, acuado por um cachorro e um caçador que lhe faz pontaria. Até hoje, a peça é refeita pelos descendentes do mestre, como o filho Severino Vitalino, 72 anos, coordenador da Casa Museu Mestre Vitalino, no Alto do Moura, composta de utensílios pessoais do mestre e onde Severino Vitalino modela suas peças, tal qual fazia o pai, sentado com as pernas cruzadas numa posição semelhante ao lótus da meditação oriental.

Em 1947, realizou a primeira exposição fora de Pernambuco, incentivado pelo desenhista e colecionador Augusto Rodrigues. Já em 1955 participou da exposição “Artes Primitivas e Modernas do Brasil”, realizada na Suíça. Vitalino faleceu ainda jovem, em 20 de janeiro de 1963, vítima de varíola, aos 53 anos de idade.

Boa parte do acervo deixado por ele compõe a rica coleção do Museu do Barro de Caruaru – Espaço Zé Caboclo. São 66 peças originais do mestre, que se destacam tanto pela temática que se apropria como pela expressão e movimentos que captura. Nada se repete, são representações autênticas que contam histórias passadas nas cidades por onde Vitalino caminhou. Histórias que se resumem, também, nos títulos dados a cada peça.

Além do acervo de Vitalino, o Museu do Barro conta com peças de vários mestres de Caruaru, Tracunhaém, Goiana e Petrolina, um dos mais ricos acervos públicos da arte figurativa produzida em Pernambuco.

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