Ferréz: Fui pra rua

Um dia, por um menino apanhando de um policial, uma senhora sem atendimento médico, isso pode gerar uma comoção, ou esse ou outro ato qualquer pode começar uma revolução.

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Por Ferréz

Esta matéria está na edição 124 da revista Fórum. Nas bancas ou compre aqui

Chegou e entrou pelo corredor com tijolos à vista e o piso cheio de buracos. Pediu para abrir a tranca, o responsável demorava a chegar, gritou para alguém abrir e finalmente uma senhora, negra, 45 anos de idade, aparece, tira uma peça de ferro da cintura, parecida com uma chave de roda e, ao girar a peça, a porta abre e ele entra.

Na porta, alguém se apresenta, branco, alto, cabelo curto, não pega na mão.

– Estou vendo alguém para ficar com eles.

Uma mulher se aproxima, diz para o jovem branco que tem um substituto, ele insiste em outro, parece que ninguém quer a missão de ter de ficar com os alunos.

– Pra mim é tranquilo, eu dou conta, não precisa da presença de um professor, se vocês quiserem.

– Você não conhece os alunos, não tem noção do que eles são.

Ele insiste que não precisa de ninguém, pergunta se os livros da mala estão na mesa.

– Estão, aviso sempre eles, “não rasga o livro, não risca, do jeito que está vai voltar para outros usarem”.

Ele contra-argumenta.

– Não precisa disso, senhora, todo mundo tem direito de rasgar um livro se quiser, livros não são só para serem amados, tem livro que é horrível, então, para quem num teve contato nenhum, tudo vale.

– Mas o senhor não sabe, eu lido aqui com traficante, com ladrão de carro, com furto mesmo, e sei do que tô falando, falo pra eles que o livro tem chip, que a gente sabe onde tá cada um.

Ele ouve essa nojeira saindo da boca dela, um monte de lixo como o que tem na margem da represa do próprio Grajaú, o mesmo monte de lixo que ele vê nas esquinas quando foi pro Guacuri. Olha para o pátio e não vê ladrões, assassinos, menores, vê crianças querendo ter uma oportunidade de aprender.

O pátio está imundo, ele anda com a mala de livros. Desde que decidiu fazer um projeto para estimular a leitura, nunca pensou que seria assim, que voltaria tão desgostoso de cada evento. Foi ao banheiro, procurou uma privada para urinar, mas só existiam buracos no chão, olhou para a mala com os livros, que sentido fazia tudo aquilo? Deixou a mala no banheiro e saiu da escola.

***

Dona Otacília está na fila há algumas horas, faz 10 minutos está esperando o banheiro desocupar, o lugar tem um cheiro horrível, mas lhe disseram que aquele era o hospital que ia resolver seu problema, por isso pegou três ônibus para chegar.

Uma senhora que estava visivelmente em situação de rua saiu do banheiro, parece que tomou banho, Dona Otacília entrou e não conseguiu usar, saiu novamente.

– Aqui é assim mesmo, vêm os mendigos e usam o banheiro, esse hospital tá uma bagunça.

– Sei.

A senhora olhava para Dona Otacília, admirava seus cabelos arrumados, enquanto ela usava touca e estava suada, Otacília olhou e resolveu perguntar.

– A senhora está bem?

– Tô não, minha filha, cheguei a ficar numa maca, mas fui no banheiro e alguém pegou.

– Nossa, então a senhora está internada aqui? Por que está nas cadeiras de consulta?

– Não tem espaço lá dentro, o corredor precisa estar livre, senão eles fecham o hospital. Então, me mandaram achar outro lugar.

– E como a senhora se alimenta se está doente? Eles trazem aqui?

– Como não tô internada oficialmente, eu saio e compro algo, depois vão me pôr no soro.

Dona Otacília acha um absurdo, mas não consegue mais conversar quando chamam seu número. Dez minutos depois ela está no ponto de ônibus.

– A senhora tem que ir a um posto, uma UBS, aqui não internamos nem tratamos sem encaminhamento, pega no posto e volta se eles mandarem uma senha com a senhora.

– Mas moça, o posto tá demorando mais de ano para essa senha, nunca chega a vez da gente e eu tô com muita dor.

Não adiantou argumentar. Dona Otacília espera o ônibus sentido bairro.

***

O professor chega cedo, a sala dos professores está trancada. Ele pergunta à funcionária por quê, ela diz que chegaram livros para uma tal de biblioteca, e agora vai ficar trancada até quando arrumarem lugar para pôr aquele monte de papel.

Suas pernas doem, ele veio de outra escola, onde deu aula por quatro horas.

Olha para o colégio, mato em excesso em todo lugar, carteiras quebradas nos corredores, alunos passando e esbarrando nele, logo ele que tentou fazer ali um sarau, ao qual nenhum professor compareceu, que tentou fazer um mutirão de pintura e só dois alunos vieram.

Olhou para sua ficha de presença, pegou e jogou no lixo, saiu pela porta da frente da escola e não olhou para trás.

***

Sua mãe lhe bateu pela última vez. A alguns metros daquele barraco, ele nunca mais ia voltar, caminhou até o chinelo ficar manchado de suor e lama.

Chegou no centro da cidade, sentou em frente ao Teatro Municipal, olhou para o céu pela primeira vez na vida e pediu a Deus para que arrumasse um lugar para pelo menos dormir.

Uma multidão começou a passar por ele. Era um tal de protesto, alguém gritou, ele entrou no meio.

***

Igor já estava cursando Sociologia na USP havia dois anos, não entendia por que as pessoas não acordavam, esses milhões para a Copa do Mundo, essa roubalheira toda, seriam mais que motivos. Resolveu ligar para James, seu amigo anarco-punk, iriam tomar um trago logo depois das aulas. James veio com algumas folhas, explicou que estavam num movimento pela redução da tarifa da condução, Igor se juntou a ele de imediato, lembrou do que disse um palestrante.

Um dia, por um menino apanhando de um policial, uma senhora sem atendimento médico, isso pode gerar uma comoção, ou esse ou outro ato qualquer pode começar uma revolução.



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