Feministas promovem Ato das Trepadeiras contra femicídio na MPB

Mulheres protestam contra músicas que reforçam a violência em suas letras, na próxima terça-feira (10) em São Paulo

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Mulheres protestam contra músicas que reforçam a violência em suas letras, na próxima terça-feira (10) em São Paulo. Leia abaixo texto de Ana Paula Galvão, publicado na Ciranda.

Na primeira década do século passado, os sambas saiam das regiões empobrecidas e chegavam ao salões da alta sociedade com, dentre outras, a música que proclamava “se essa mulher fosse minha / Apanhava uma surra já-já / Eu lhe pisava todinha /Até mesmo eu lhe dizer chega”, cantada por José Barbosa da Silva.

Na década de 30, o compositor Francisco Alves gravou o imediato sucesso “Mulher de Malandro” que pregava: “Mulher de malandro sabe ser/Carinhosa de verdade/Ela vive com tanto prazer/Quanto mais apanha/A ele tem amizade/Longe dele tem saudade”.

Em 40, Ismael Silva, em coautoria com Francisco Alves e Freire Júnior, gravaram a música “Amor Malandro” e deixa claro a opinião dos compositores:”Se ele te bate é porque gosta de ti, pois bater em quem não se gosta eu nunca vi”.

Indo para os anos 70, pescamos a pérola de João Bosco e Adir Blac “Gol Anulado”, que diz “Quando você gritou mengo/No segundo gol do Zico/Tirei sem pensar o cinto/E bati até cansar/Três anos vivendo juntos/E eu sempre disse contente/Minha preta é uma rainha/Porque não teme o batente/Se garante na cozinha/E ainda é vasco doente”.

Na década de 80, a banda Camisa de Vênus emplacou nas rádios a música “Silvia”, com o absurdo refrão “Ôh Silvia, Piranha/Ôh Silvia, Sua Puta/Todo homem que sabe o que quer, pega o pau pra bater na mulher”.

Já nos anos 90, o pagode brega, na voz de Alexandre Pires divertia milhões com a música que comparava a mulher a um inseto e dizia a plenos pulmões que iria chicotear, bater com chineladas, pauladas e o que mais tivesse mais ao seu alcance na música “A Barata da Vizinha”.

Na primeira década do século 21, o forró nos dá mais um exemplo rude com a canção “Quenga”: “Você voltou/Pra quela casa da luz vermelha/Você se deita com todo mundo/E ainda diz que me ama/Mas qualquer hora/Me da na louca/Me da na telha/Te invado a casa/Te dou porrada/Te quebro a cara/E quebro a cama.”

E em 21 de agosto último, o rapper Emicida nos ’brindou’ com a canção “Trepadeira”, em que o personagem masculino da canção proclama que sua companheira merece apanhar e morrer por envenenamento, além de sua absoluta descartabilidade após o ato sexual, numa composição cheia de apologia à violência social, física e psicológica da mulher, impondo padrões morais e estéticos e cerceando sua liberdade, cujo o auge da promoção misoginia está na rima: “merece era uma surra de espada-de-são-jorge e um chá de comigo-ninguém-pode“.

CHEGA!!!!

Queremos, a partir do 1º ATO DAS TREPADEIRAS, desautorizar qualquer um a dançar, a sorrir cinicamente, a se divertir e, muito menos, a ganhar dinheiro às custas de hematomas, dores, humilhações diárias e mortes que chegam ao endêmico número de UMA MULHER AGREDIDA A CADA 12 SEGUNDOS, só no Brasil.

Trata-se de um profunda mudança cultural da qual não podemos mais nos furtar em promover. Não é um problema do RAP, não é um problema do samba, não é problema do pagode, do funk, do sertanejo, nem do rock e nem do POP, é um problema da sociedade e, sobretudo, de TODAS as mulheres.

Não queremos mais o eterno papel de vítimas que nos enfiam goela e ouvidos abaixo!

Somos guerreiras! Somos trabalhadoras e se “a rua é nóis”, é bom que fique bem claro que “100% da rua foi a mulher que pariu!”.

#1atodastrepadeiras #femicidasnaopassarao #trepadeirasnaocalarao

Dia 10.09 – terça-feira – às 20h30 – na Rua Paes Leme, em frente ao SESC Pinheiros!



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26 comments

  1. Guilherme Responder

    Ridículo protesto! tantas coisas mais graves para protestar nas ruas e as trepadeiras vão lá fazer merda por causa de uma musica kkkk quanta ignorância, #emicida #trepadeira #sonzeiramesmo

    1. Denise Luz Responder

      Tantas coisas mais graves e você aí comentando protesto ridículo. Apenas.

  2. rodolpho Responder

    protesta contra o catra vocês não querem né?

    1. Ana Paula Trepadeira Galvão Responder

      Eu quero! Me apresente uma música dele dizendo algo como “vou surrar aquela puta se ela não der pra mim e der para outros caras” que ele será o próximo da lista! ;)

  3. Cristiane Gandolfi Responder

    estarei na sala de aula, não poderei participar. mas, este texto será debatido com minhas alunas de pedagogia. já mudei minha aula, há tempos eu buscava um texto como este. Me identifico com este feminismo, estamos juntas. Tenho aulas a noite, é dificil faltar ao trabalho, mas, nos proximos atos, quero participar. terças e sextas para mim é muito complicado, mas, nos demais dias da semana, trabalho com EAD, talvez consiga participar. abraço fraterno, prof. cristiane gandolfi. adorei o texto. estamos juntas.

  4. Maria Araujo Responder

    Uma luta digníssima que a mais tempo tivesse sido organizada. Só não consigo entender o título, não gostei dele. O texto saiu da boca de cada mulher que é consciente. Muito sério, vamos a luta com toda dignidade .

  5. Raul Longo Responder

    Total apoio. É o mesmo que fazer música racista, homofóbica, incentivando a chutar muleta de deficiente físico, empurrar velhinho na escada. Isso é apologia ao crime. Proibir impressão e divulgação não é censura. É caso de segurança e saúde mental pública. É o que dá a exibição comercial e exploração do corpo feminino: misogenia por complexo de incapacidade. E não é só nas músicas. Novelas e reality shows são um descalabro. Ou se contém isso ou nossa sociedade será cada vez mais doente.

  6. Edla Eggert Responder

    é nóis na fita e sem hematomas!!!

  7. Ester Albertini Responder

    Primeiramente A mulher precisa se autoconhecer, para descobrir o seu valor, e com isso, vem o seu amor-próprio, para não admitir as áudio-atrocidades. Em outras palavras, desenvolver a sua autoestima. Assim como o homem também, além de aceitar que a vida é da mulher, e o corpo é dela também, e ela faz o que ela quer desse. Em segundo lugar, a indústria fonográfica, não só brasileira, como também mundial, vivem da baixa-autoestima alheia, (já li trações de várias músicas internacionais, dos anos 70 para cá, e grande parte delas caem nas semelhanças entre as letras de funk, forró e parangodé – axé no Sudeste e no Sul do Brasil) e o Estado(como organização social), se aproveita disso, para controlar a mente da massa, para que essa não analise as músicas, e simplesmente saiam cantando e dançando-as como se fossem alucinógenos, para que esses se mantenham dependentes do Estado, não estudem, não pensem, para que os chefes de Estado, permaneçam no poder.

  8. Darlene Responder

    Comprei o disco , ouvi a música e não vejo nada de desrespeito à mulher na letra… apenas uma música que fala de uma mulher que não mereceu o amor de um homem. Lembrando que essa música é uma resposta ao outro RAP, “vacilão”, que fala de um homem que não merece a mulher que tem…

    1. Ana Paula Trepadeira Galvão Responder

      ELE acha que a COMPANHEIRA não o merece, e dá uma surra nela…
      O vacilão come todo mundo e no final fica sozinho…
      Ou seja…se isso não desrespeito, querida, para tudo q eu desço!

  9. Dos Santos Responder

    quem escreveu isso tava virado(a), meu deus, tantas musicas estam falando de merdas e vão reclamar do rap, sempre o rap né? mas vai vendo na onda de protestos ta valendo qualquer coisa né? menos reclamar do funk ostentação que ta confundindo a cabeça dos jovens, dizendo se vc não tem dinheiro para pagar uma garrafa de bebida vc não é ninguem, vai vendo as ideia…

    1. Ana Paula Trepadeira Galvão Responder

      Dos Santos, é lamentável a formação cultural promovida pelo funk ostentação. Ela é cruel na medida em que forma o imaginário principalmente dos mais pobres.

      Porém, o Emicida, nesta música, está promovendo o femicídio, que é o violência física contra a mulher promovida por parceiros afetivos (ou ex).

      Felizmente, acredito que não teremos outra deixa como esta para pautar a questão da naturalização da misoginia e da violência contra a mulher na produção cultural. Se o Emicida cantasse sertanejo e fizesse uma música como esta, a oportunidade léxica seria a mesma.

      Agora, em relação ao rap, veja: não é este o gênero musical que chama sempre diz “RAP é compromisso”? E que falta de compromisso é esta com a realidade onde a cada 12 segundos uma mulher sofre violência no Brasil? Por dia, são entre 20 e 30 mulheres sendo surradas por seus parceiros (e mais um tanto de outras que são violentadas por desconhecidos)…E, no caso dele, que se diz atento às demandas feministas, é sim, uma super mancada levar ao mercado uma obra dessas.

  10. Tereza Responder

    Evento importante. As letras destas músicas reforçam as localizações sociais que desde de sempre foram destinadas as mulheres no Brasil. São mecanismos de alienação porque promovem a hegemonia masculina e a nossa desautorização moral .

  11. Marilene Alves Lemes Responder

    Importante reflexão.

  12. Lucas Pacheco Pirola Responder

    Li a matéria e apenas gostaria de deixar uma opinião. Sou historiador e faço pesquisa analisando músicas. A análise de uma música é muito complexa, ela pode dizer muitas coisas, pode ter muitos sentidos. Acho muito complicado ao citar várias músicas e colocarem como se fossem todas iguais.
    Quero deixar claro que acho a causa defendida válida e necessária mas quero apenas expressar alguns cuidados que precisamos ter. Dito isso, continuarei, eu pesquiso músicas de rap no período do início do hip hop no Brasil. Pra minha análise ser a melhor possível eu preciso conhecer tudo que for possível sobre rap, então eu acompanho tudo o que está acontecendo na cena atual. Portanto eu conheço a música do Emicida e acompanho a sua carreira desde seu início. Só numa primeira análise que eu fiz eu posso garantir que a música do Emicida não dá pra ser colocada como se fosse igual a outras músicas citadas na matéria. Cada música tem sua especificidade e elas precisam ser reconhecidas antes de qualquer conclusão. Repito, acho a causa válida e necessária mas é preciso tomar cuidados.

    1. André SCCP Responder

      É verdade, cada música tem sua especificidade, mas todas elas tem algo que parece não mudar ao longo do tempo: o machismo!

      1. Lucas Pacheco Pirola Responder

        Eu penso que a sua afirmação confirma mais ainda o que eu tentei dizer. As práticas machistas mudaram sim ao longo do tempo, como a luta feminista também mudou. Só um exemplo: é um erro dizer que a luta que uma mulher branca de classe média têm é a mesma que de uma mulher negra de classe baixa. São realidades totalmente diferentes e portanto lutas totalmente diferentes. São respostas que vem de acordo com cada contexto. Assim, ao longo desse tempo os contextos mudaram.

        1. Denise Luz Responder

          Realidades totalmente diferentes, e ambas atingidas pelo machismo, companheiro. Fazemos esse tipo de discussão dentro dos feminismos e nosso inimigo comum ainda é o hetero-cis-patriarcado que sustenta moralmente o capitalismo.

          O fato de você ser historiador, fazer pesquisas analisando músicas e pesquisar o rap, me desculpe, mas não te dá direito de dar carteirada nesse sentido. Sua opinião culta, formada e acadêmica, não te dá representatividade para falar por nós mulheres do que nos violenta simbólica e corporalmente todos os dias.

          No mais, é preciso expor que, além de si mesmo e suas insígnias, você não usou argumento algum para explicar para as demais ignorantes o motivo pelo qual a música de Emicida não se encaixaria no mesmo padrão das outras mencionadas.
          Não somos estúpidas e podemos compreender argumentos. Tampouco somos suficientemente colonizadas e submissas ao poder do saber intelectual para engolir sua opinião apenas pelo seu currículo.

          1. Lucas Pacheco Pirola

            Desculpe, mas a minha opinião não é apenas acadêmica, se estou hoje na acadêmia é porque contrariei todas as estatísticas que diziam que eu não podia. Eu apenas quis contribuir com a discussão mas se seu extremismo não permite, eu apenas desejo boa sorte na sua luta e eu continuo na minha: que é por todos!

      2. Ana Paula Trepadeira Galvão Responder

        Só um acréscimo: o extremo do machismo -> a misoginia e a violência em si.

  13. José Ferreira Responder

    Normalmente são melodias de gosto duvidoso, que extravasa frustrações. Pois se Deus criou alguém melhor que uma mulher, ficou pra ele.

  14. Nik Søren Responder

    Achei isso tudo muito patético, p’ra não dizer estúpido ou ridículo. Qual é o plano de vocês? Criar leis proibindo a liberdade de expressão e artística? Se alguém ouvir “A Barata Da Vizinha” em seu carro deve ser preso? Se alguém der risada ao ouvir a música vindo do carro, pagará multa?

    Vocês distorceram o contexto de algumas das letras p’ra caber no seu argumento banal. A música da barata, por exemplo, diz “toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha está na minha cama”. Não é preciso ser um gênio p’ra entender o trocadilho, e assim a piada. A vizinha dele é uma barata, uma mulher barata, antônimo de cara. Ou seja, ela não se dá valor, ela simplesmente invade a casa do cara e fica esperando pelo mesmo, por vontade própria. Os aspéctos da música que vocês reclamaram, como por exemplo as “coisas” que os músicos afirmam que vão “fazer com a barata dela”, são todas de contexto sexual. “Vou dar uma paulada, furada, esporada na barata dela”.

    Agora me respondam uma coisa, se uma mulher invade a casa do seu vizinho p’ra o assediar, como na letra provavelmente fantasiosa acontece, ele não tem o direito de reclamar? Ele não tem o direito de dar o que ela quer? Eu juro que não entendo, o que vocês gostariam que o personagem fizesse, a levasse p’ra igreja?

    As metáforas usadas na música, em momento algum trata a mulher como um inseto, vocês estão distorcendo tudo nesse texto. Existem duas interpretações p’ra essa letra, sendo a primeira que uma vizinha vagabunda do protagonista o assedia e, apesar dele não gostar, transa com ela mesmo assim. A segunda, levando ao pé da letra, diz que a vizinha dele cria baratas em sua casa e todo dia uma das baratas vai parar no quarto dele, então ele resolve que vai comprar alguma coisa p’ra se defender.

    Lembro que na mesma época existia uma música que dizia algo como “o pinto do meu pai fugiu com a galinha da vizinha”. Vocês acham que essa música denigre os homens por serem comparados a frangos, e trata todo homem como sendo um traidor irresponsável? São apenas estórias simplórias e cômicas, vocês não precisam ficar emputecidas com essas coisas.

    Eu gostaria de deixar claro que nenhuma dessas músicas citadas no seu texto me agrada, acho que são todas uma porcaria, mas a partir do momento em que seu argumento se mostrou tão fraco que eu me vi forçado a defender coisas que nem gosto, tem algo errado com vocês.

    P’ra mudar isso que incomoda vocês, é preciso uma conscientização do povo brasileiro, não um acto estúpido. Eu sei que está na moda fazer barulho com essas besteiras, mas parem p’ra pensar um minuto, por favor. Existem milhões de músicas que falam sobre a vontade de fazer coisas socialmente erradas, como por exemplo matar. Existem filmes, livros, peças de teatro… Isso não é um problema, mas sim o acto de realmente fazer. Eu poderia citar dezenas de músicas de todos os cantos do mundo que falam sobre a vontade profunda de matar seu amado, por uma traição ou loucura, mas desde que isso não passe da vontade tudo bem.

    Se vocês me mostrarem dados provando que pessoas que ouvem essas músicas em questão têm uma probabilidade maior de agredir suas parceiras, então a população do Brasil atingiu o fundo do poço, ao ponto de ser influenciada profundamente à cometer crimes por músicas de comédia.

    Talvez seria melhor matar todos os habitantes do país e repovoá-lo com pessoas da Finlândia. Ops! Acabei de pensar em cometer um crime de genocídio, acham que eu devo ser preso por pensar também?

    Mas falando sério, não entendi até agora o que vocês querem. Se for alguma lei idiota, pelo menos escrevam um texto decente, e se for uma conscientização geral da população, arranjem argumentos melhores.

  15. Fatima Costa Responder

    acredito que o machismo tá direto nas musicas,pois expressa que o autor esta a pensar, ela são criadas certo?conforme a inspiração do momento até acredito que quando pensamos em amor fazemos coisas românticas mas quando estamos indignados ou magoados e até com raiva acho que vai sair merda!!Tem muitas que saem em forma de protesto que até ajudam a pensar nas coisas que estão erradas,mas tipo joga pedra na geni,um tapinha não dói e muitas outras vem para mim de inspiração de homens mal amados.

    1. Ana Paula Trepadeira Galvão Responder

      Pois é Fátima, já é o fim da picada ter músicas que não valorizam nossa sexualidade e individualidade. Imagina então, músicas onde sugerir que alguém que esteja fora de padrões machistas mereça apanhar ou morrer por envenenamento? Não dá mais para aceitar, né?

  16. Renato Nascimento Responder

    kkkkkkk vou montar a marcha dos trepadeiros contra músicas da Anita, Kelly Key, Beyonce, etc, em que exaltam a humilhação do macho!

    Na boa mulheres, sejam mulheres! Vocês sempre foram os motivos das guerras, da paz, da evolução, ou seja, vocês já são “superiores”, nós homens fazemos isso por vocês, pra quê querem o controle total da espécie humana?


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