A bem-vinda argentinização do Brasil

Manifestações como os "escrachos", comuns no país vizinho, já se tornam um elemento importante no cenário político brasileiro

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Manifestações como os “escrachos”, comuns no país vizinho, já se tornam um elemento importante no cenário político brasileiro

Por Carlos Eduardo Rebuá

 

Os caídos que se levantem!

Os que estão perdidos que lutem!

Quem reconhece a situação como pode calar-se?

Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.

E o “hoje” nascerá do “jamais”.

(Elogio da dialética, Bertolt Brecht)

 

Rivais nos campos de futebol e muitas vezes na política, Brasil e Argentina tem se aproximado nos últimos dois anos (a Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011, representa um “estímulo” importante) pelo menos no que diz respeito às manifestações populares, às ações políticas organizadas. Dentre elas, têm destaque os chamados “escrachos” (ou escraches em espanhol), ‘nascidos’ nos anos 1990 no país de Maradona e Che Guevara, por iniciativa da organização H.I.J.O.S, composta por filhos de desaparecidos durante a mais sangrenta ditadura civil-militar daquele país, entre 1976-1983. Também estão presentes no Uruguai e no Chile, outros dois países destruídos pelo terrorismo de Estado.

Calçada em Porto alegre (Leandro Silva/Escrevinhador)

Os escrachos são manifestações públicas em residências, locais de trabalho ou mesmo na rua, contra indivíduos que torturaram, assassinaram, integraram regimes repressivos, como as ditaduras que ocorreram na América Latina no século passado. Seu objetivo principal é publicizar – pois a maioria destas pessoas continua impune e no “anonimato” – as atrocidades cometidas por tais pessoas, constrangendo-as, pressionando as iniciativas legais e ganhando a adesão de diferentes (e muitas vezes indiferentes!) setores da sociedade civil.

Antes das Jornadas de Junho (2013), tais ações coletivas já haviam sido colocadas em prática em diferentes cidades brasileiras, com destaque para as capitais. Com as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, onde parafraseando Brecht, o ‘hoje’ nasceu do ‘jamais’, tais ações ganham um grande “incentivo” e de certa forma uma maior legitimidade da sociedade, colocando na ordem do dia o debate acerca do público e da representatividade da/na política liberal burguesa. A ocupação em frente à casa do governador Sérgio Cabral, no Leblon, Rio de Janeiro, é paradigmática neste aspecto. Não se tem notícia de ação semelhante em nossa intitulada “Nova República” (iniciada com a redemocratização, em 1985). Não há dúvidas de que tais mobilizações, se aprofundadas e difundidas, podem garantir o avanço de pautas/demandas democráticas e, no caso das lutas por justiça, memória e verdade, relativas aos “anos de chumbo”, efetivamente colocar atrás das grades os anônimos cidadãos que continuam a circular por entre nós, com as mãos manchadas de sangue.

E como dizem os argentinos: DESAPARECIDOS?! PRESENTES! AHORA Y SIEMPRE!!



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2 comments

  1. Diego São Bento Responder

    Como a los nazis les va pasar… Adonde vayan los iremos a buscar!!!

  2. sithan Responder

    Roland Freisler (juiz alemão que serviu fielmente o Regime Nazista) ao que tudo indica, teve vários discípulos no STF brasileiro durante a Ditadura militar. Especialmente entre aqueles Ministros que se recusavam a conceder “habeas corpus” para os réus do regime nazista tardio brasileiro. A exemplo de José Dirceu nos dias de hoje, alguns réus durante a Ditadura eram vítimas sacrificiais do regime, destinadas não à libertação em caso de abuso estatal e sim à tortura e a execução no altar do capitalismo democrático ocidental, motivo pelo qual não poderiam ser soltas. Não podemos e não devemos nunca esquecer que os Ministros do STF durante a Ditadura proferiram decisões tacanhas e injustas com base em Atos Institucionais que pretendiam dar “ares de legalidade” a um golpe de estado. Curiosamente, não tenho visto ninguém pichar o STF com os dizeres TRIBUNAL QUE SUSTENTOU UMA DITADURA, QUE LEGITIMOU A TORTURA E O ASSASSINATO DE BRASILEIROS.


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