Novatos, velhos e velhacos

Esta semana, o ministro do STF Marco Aurelio Mello pensou que poderia diminuir a importância de outro ministro se o chamasse de “novato”

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Esta semana, o ministro do STF Marco Aurelio Mello pensou que poderia diminuir a importância de outro ministro se o chamasse de “novato”

Por Rodrigo Vianna, em Escrivinhador

Melo, Barbosa e Gilmar – ao que parece – votam sob pressão da velha mídia brasileira. Velha ou velhaca? (Foto: Carta Maior)

O inesquecível ”doutor” Ulysses Guimarães certa vez foi acusado – por um idiota qualquer – de ser aquilo que de fato era: “velho”. Ulysses saiu-se com a sagacidade de sempre: “posso ser velho, mas não sou velhaco”.

Esta semana, o ministro do STF Marco Aurelio Mello pensou que poderia diminuir a importância de outro ministro se o chamasse de “novato”. Transitando entre o escárnio e o tom falsamente professoral, Marco Aurelio defendia a tese de que os ”embargos infringentes” não devem ser aceitos.

São eles, os embargos, que podem cumprir o papel de uma “segunda instância” – corrigindo eventuais erros no processo do “Mensalão”. Melo foi aparteado por um Gilmar Mendes com o olhar injetado de ódio. Os dois alongaram-se em argumentos contra os embargos. Entre eles, destacaram o clamor de certa “opinião pública”.

Podemos imaginar qual a “opinião” que interessa a esses ministros. Trata-se da opinião de mervais e outros imortais? Ou da opinião de blogueiros insuflados por longas carreiras sempre cheias de brilho?

O ministro Luís Roberto Barroso, que votara pela aceitação dos embargos, pediu aparte e disse a Melo que, ao tomar a decisão, não se importava com a manchete do dia seguinte. Deu o recado. Foi então chamado de “novato”.

Se Barroso é “novato”, quem seriam os “velhos” do STF? E os ”velhacos”?

Melo, Barbosa e Gilmar – ao que parece – votam sob pressão da velha mídia brasileira. Velha ou velhaca? Essa mesma mídia, que cobra “pressa” do STF, jamais reclamou do fato de Pimenta Neves (ex-diretor de Redação de um grande jornal paulista, e assassino confesso de uma colega com quem tivera um caso amoroso) ter levado quase dez anos para ser preso!

Barbosa tem pressa. Gilmar Mendes bufa, catatônico. E Marco Aurelio desqualifica como “‘novato” aquele que pede um julgamento livre das pressões midiáticas.

Quem são os novatos? Quem são os velhos? E quem são os velhacos do Supremo Tribunal Federal?

Foi a pressão da mídia – lembremos – que levou ao “julgamento” dos donos da Escola Base, acusados de abusar de criancinhas. Julgados e condenados por certa mídia velhaca, tiveram a vida destroçada. A pressa e o clamor midiático levaram à prisão e tortura de jovens acusados de estupro no Paraná: com apoio da mídia velhaca, a polícia bateu e tirou a confissão dos “suspeitos”. Eram inocentes.

Agora, Merval e a Globo, associados aos blogueiros da revista editada às margens fétidas do rio Pinheiros, já decidiram: o “Mensalão” foi o maior escândalo da história, e José Dirceu era o chefe da quadrilha. Só não será esquartejado fisicamente em praça pública. Mas a imagem pública de Dirceu foi partida em pedaços.

O que surpreende é que, diante desse massacre midiático, 4 juizes ainda tenham votado contra a imputação do crime de formação de quadrilha a Dirceu. Isso é que garante (a ele e a outros réus) uma chance de revisão no julgamento. Pimenta – assassino confesso – teve chance a todos os recursos. Dirceu, acusado sem provas, deve ser linchado?

Não há prova contra ele. Nenhuma. Dirceu está sob ataque por ter comandado a virada do PT nos anos 90. Virada cheia de erros e acertos – diga-se. Mas Dirceu operou a mudança política que permitiu a Lula deixar de ser o “candidato marcado para perder”. Dirceu comandou a mudança. Tinha e tem um projeto de poder para o PT. Um projeto que, em que pesem os vários erros que podem e devem ser apontados, conduziu o Brasil a novo patamar: baixo desemprego, redução das desigualdades, 20 milhões de pessoas fora da linha de miséria, política externa independente.

Tudo isso é imperdoável!

Os embargos infringentes permitiriam uma análise menos passional do chamado “Mensalão”. Qual prova levou à condenação de Dirceu? O STF precisa explicar.

Barbosa precisa explicar também porque tirou da ação principal dois diretores do Banco do Brasil (ligados ao PSDB?) que assinaram as liberações de verba para a agência de Marcos Valério. Henrique Pizzolato, petista, está no Mensalão. Foi condenado.  Os outros, ligados aos tucanos, não foram a julgamento? Por que? Porque isso desmontaria a tese de Barbosa, que passa pelo uso do dinheiro da Visanet pela “quadrilha petista”.

A história do “Mensalão” não fecha. Quem pede mais tempo para compreender os meandros dessa história é agora chamado de “novato”.

Curiosamente, Barbosa perdeu a pressa na quarta dia 11 (quando a votação ficou em 4 x2). Estrategicamente, parou tudo, e nos bastidores operaram-se pressõs de toda sorte para barrar os embargos que seriam decididos em nova rodada de cotos no dia seguinte. Na quinta 12 (com o placar em 5 x 5), Barbosa também perdeu a pressa. Faltava o voto de Celso de Melo pra fechar a história. Celso já anunciou que tem a decisão tomada. Já se manifestou publicamente a favor dos embargos. Mas até quarta estará sujeito a todo tipo de pressão.

Celso de Melo é o mais antigo dos ministros. Não é novato. Manterá a opinião firme – contra o fogo cruzado midiático? Agirá como velho sábio ou como velhaco?



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3 comments

  1. LEONARDO GOMES Responder

    OK CONCORDO COM O BAIXO DESEMPREGO E AS PESSOAS FORA DA LINHA DA MISÉRIA, MAS DURANTE QUANTO TEMPO. O BOLSA FAMÍLIA É UM PROJETO EXCELENTE A CURTO-MÉDIO PRAZO POIS EXIGE QUE A CRIANÇA PERMANEÇA NA ESCOLA MAS E A QUALIDADE DESSA INSTRUÇÃO. SE HÁ UM PROJETO É PARA O PT E NÃO PARA O PAÍS.

  2. Rui Responder

    A Velha Mídia e seu Velhaco Ataque

    Ontem à noite na Globo News no
    Programa Painel o jornalista substituto Ernesto Paglia voltou ao ataque da
    empresa para a qual trabalha contra os embargos infringentes no STF. E por
    extensão ataca a democracia.

    Vejamos: pergunta a um dos
    convidados, o historiador tucano Boris Fausto e sócio de FHC em empreendimento
    imobiliário para construção de casa popular (Minha Casa, Minha Vida), se o
    julgamento da AP 470 com o voto de Celso de Melo em favor dos infringentes não
    levará o julgamento a acabar em pizza?

    Tentou conduzir a entrevista com
    a tese de que os embargos infringentes devem ser rejeitados, afirmando
    textualmente que o STF pelo bem da sociedade brasileira deveria assumir o papel
    do Congresso Nacional.

    Ou seja, o jornalista se passou.
    Este é um farto material a ser analisado pela Corte Internacional de San José,
    da qual o Brasil é signatário. Sem meias palavras propôs uma usurpação do poder
    legislativo. Como se chama isso? Caso o STF substitua o legislativo eleito por
    sufrágio ele está passando por cima da Constituição.

    Que é isso, onde a Globo chegou? Mal
    acaba de fazer uma autocrítica sobre a sua participação no Golpe de 64 e no
    AI-5 em 68 e propõe em seu lugar outro golpe?

    Para nossa sorte os três
    convidados estavam serenos: além do historiador Boris Fausto, Carlos Melo,
    Insper e Rubens Gleizer, direito FGV. E em em seus comentários sugeriam a ele
    moderação.

    Espero que a chamada opinião
    pública que está fora da Globo acorde. O Ernesto Paglia está pressionando o ministro Celso de Melo?

    Os embargos infringentes são
    recursos previstos pela lei. Mas a Globo e seus empregados estão convencidos
    que podem tutelar o STF. É hora de dar um basta nas Organizações Globo. Dentro
    da lei prevista na CF devemos exigir conduta adequada deste órgão de
    comunicação.

  3. Romildo Queiroz Lima Responder

    O direito a ampla defesa é garantido a todos, independente da sigla partidária que esteja vinculado.


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