A situação crítica das abelhas produtoras de mel

A perda das abelhas melíferas decorrentes de um mal ainda misterioso, a Desordem do Colapso das Colônias (DCC), deixaria o planeta mais pobre e mais faminto

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A perda das abelhas melíferas decorrentes de um mal ainda misterioso, a Desordem do Colapso das Colônias (DCC), deixaria o planeta mais pobre e mais faminto

Por Bryan Walsh*, em Envolverde

Você pode agradecer a Apis mellifera, melhor conhecida como abelha melífera europeia, por uma a cada três porções de alimento consumidas por dia. Desde os pomares de amêndoas do centro da Califórnia – aonde cada primavera, bilhões de abelhas vindas de todo os EUA migram com o objetivo de polinizar a cultura multibilionária – aos campos de mirtilo do Maine, as abelhas são os operários não remunerados e anônimos do sistema agrícola americano, adicionando mais de US$ 15 bilhões à produção agrícola a cada ano. Em junho, a loja Whole Foods em Rhode Island, como parte de uma campanha que destacava a importância das abelhas melíferas, retirou, temporariamente, da seção de hortifrúti todos os alimentos que dependiam de polinizadores. De 453 itens, 237 foram retirados, incluindo maçã, limão, abobrinha e outras cucurbitáceas. As abelhas melíferas “representam a cola que mantém o nosso sistema agrícola unido,” escreveu a jornalista Hannah Nirdhaus em seu livro em 2011, The Beekeeper’s Lament.

E agora, a cola está falhando. Em meados de 2006, os apicultores comerciais começaram a notar algo estranho: suas abelhas estavam desaparecendo. Os apicultores abririam suas colmeias e as encontrariam cheias de favo de mel, cera, e o próprio mel, porém desprovidas de abelhas.

Como os relatórios vindos dos apicultores estavam cada vez mais numerosos, os cientistas inventaram um termo apocalíptico apropriado para o mal misterioso: Desordem do Colapso das Colônias (DCC).

Subitamente, os apicultores se encontraram em meio aos holofotes, o público foi cativado pelo mistério da DCC. Sete anos depois, as abelhas melíferas continuam morrendo a uma escala nunca antes vista, e as razões continuam misteriosas.

Um terço das colônias de abelhas melíferas dos EUA morreu ou desapareceu durante o último inverno, um aumento de 42% em relação ao ano anterior, e muito acima da média de 10% a 15% de perda que os apicultores estavam acostumados a cada inverno. Embora os apicultores possam repor as colmeias mortas com o tempo, as altas taxas de perda estão impondo fortes pressões sobre a indústria e a agricultura.

Havia apenas a quantidade suficiente de abelhas viáveis nos EUA durante essa primavera para servir a polinização vital de amêndoas na Califórnia, colocando em risco uma produção que vale US$ 4 bilhões. As amêndoas representam um grande negócio – elas são as exportações agrícolas mais valiosas da Califórnia, valendo mais que o dobro que as icônicas uvas para vinho. E as amêndoas, totalmente dependentes das abelhas, são as referências de um problema ainda maior.

Para frutas e hortaliças tão diversas como a meloa, cranberry e pepinos, a polinização pode ser a única chance do agricultor de aumentar sua produtividade ao máximo. Sem as abelhas melíferas, a agricultura seria permanentemente diminuída. “A mensagem para se pensar é que estamos muito próximos do ápice,” diz Jeff Pettis, o pesquisador líder do Laboratório de Pesquisa de Abelhas do USDA. “Agora, é um lance de dados”.

É por isso que cientistas como Pettis estão trabalhando duro para solucionar o que está comprometendo as abelhas. Os pesticidas agrícolas são obviamente suspeitos – especialmente uma nova e popular classe química, conhecida como neonicotinoides, os quais parecem afetar as abelhas e outros insetos mesmo em doses que deveriam ser seguras.

Outros pesquisadores focaram em pragas matadoras de abelhas, como o cientificamente nomeado Varroa destructor, um ácaro parasita que destrói colônias desde que foi acidentalmente introduzido nos EUA durante os anos 80.

Outros focam em doenças virais e bacterianas

A falta de um culpado claro apenas aumenta o medo e o mistério, anunciando o que alguns ambientalistas chamam de “a segunda primavera silenciosa,” uma referência ao best-seller de Rachel Carson de 1962, que foi amplamente reconhecido por lançar o movimento ambientalista. Uma citação que é frequentemente atribuída a Albert Einstein se tornou um slogan: “se as abelhas desaparecerem da superfície do globo, os homens teriam não mais de quatro anos de vida.” Uma questão: especialistas duvidam que Einstein tenha dito essas palavras algum dia, mas essa não atribuição é característica da confusão que rodeia o desaparecimento das abelhas, na consciência de que nós matamos inadvertidamente uma espécie que cuidamos e da qual dependemos há milhares de anos.

A perda das abelhas melíferas deixaria o planeta mais pobre e mais faminto, mas o que é realmente assustador é o temor de que o que está acontecendo com abelhas seja apenas um sinal do que está por vir, um símbolo de que algo muito errado com o mundo está ao nosso redor. “Se não fizermos algumas mudanças logo, veremos o desastre,” disse Tom Theobald, um apicultor do Colorado. “As abelhas são apenas o começo.”

Efeitos sub-letais

Se a abelha melífera é vítima de uma ameaça natural como os vírus, ou artificiais como os pesticidas, vale lembrar que a abelha por si só não é um habitante natural do continente. A espécie foi importada para a América do Norte no século XVII, e resiste até hoje porque encontrou um nicho perfeito em um sistema alimentar que pede por culturas cada vez mais baratas, em quantidades cada vez maiores. Isso é um ecossistema mercantilista e artificial que não vem sendo bom somente às abelhas e aos apicultores, mas também denota a estabilidade dos negócios e uma grande revenda aos supermercados e armazéns.

Jim Doan cria abelhas desde os cinco anos, mas o gene apiário em sua família é ainda mais antigo. O pai de Doan custeou sua universidade com os rendimentos de sua apicultura em meio período, e em 1973 ele desligou seus elos com os negócios para cuidar das abelhas em tempo integral. As abelhas estão presentes até no brasão inglês da família Doan. Contudo, Jim frequentou a universidade com o objetivo de se tornar um professor de agricultura, a atração dos negócios com apicultura era muito forte.

Por muito tempo, esse negócio seguia muito bem. A família construiu sua unidade operacional na cidade de Hamlin, no oeste de Nova York, fazendo dinheiro a partir da venda do mel e de contratos de polinização com os agricultores. No ápice dos negócios, Doan estima que foi responsável por polinizar uma a cada 10 maçãs cultivadas em Nova York, administrando aproximadamente 6.000 colônias, umas das maiores operações desse tipo no estado. Ele não se importava com os inevitáveis ferrões – “você tem que estar disposto a ser punido”- e ele podia suportar as primeiras horas. “Nós fizemos muito mel, e fizemos muito dinheiro,” disse ele.

Tudo isso acabou em 2006, o ano em que a DCC alcançou o clímax, e as colônias de Doan não foram poupadas. Nesse inverno, quando ele retirou as capas de proteção sobre suas abelhas – alertado por um amigo apicultor que experimentou um dos primeiros casos documentados de DCC – Doan não encontrou nada. “Havia centenas de colmeias no quintal e nenhuma abelha dentro delas,” disse ele. Nos anos que se sucedem, ele vem passando por perdas repetidas, suas abelhas crescem doentes e morrem. Para repor as colmeias perdidas, Doan precisa comprar novas rainhas e dividir as colônias que restaram, o que reduz a produção de mel e coloca uma maior pressão sobre as poucas abelhas saudáveis que ainda existem. Eventualmente, isso se tornou insustentável.

Em 2013, após décadas dentro dos negócios apiários, Doan desistiu. Ele vendeu os 45 hectares da sua propriedade que estava guardando para vender após sua aposentadoria – e planeja também vender seus equipamentos de apicultor, se encontrar alguém para comprá-los. Doan ainda cuida de algumas abelhas nesse meio tempo, mantendo um fluxo de receitas enquanto considera suas opções. Entre as opções, está trabalhar na rede Walmart.

Imagem em close da Apis mellifera (Foto Teone-Envolverde)

Doan e eu caminhamos pelo seu jardim, que está empilhado com caixas de abelhas que se assemelhariam a um armário de arquivos, se as gavetas não zumbissem e vibrassem. Doan me emprestou uma jaqueta de proteção e uma viseira que cobria meu rosto. Ele caminhou lentamente por entre as caixas – em parte porque ele é um homem grande e porque as abelhas não apreciam movimentos bruscos – e espalhou fumaça, que mascara os feromônios de alerta das abelhas e as mantém calmas. Ele abriu cada caixa e removeu as armações – as telas estreitamente espaçadas onde as abelhas constroem os favos de mel – checando como está uma nova população que ele importou da Flórida. Algumas armações estão cheias de células com abelhas andando, fluído de mel e ninhadas saudáveis, cada célula contém uma cria. Porém, outras armações parecem abandonadas, até com a cera dos favos de mel se desintegrando. Ele coloca essas caixas – conhecidas como mortas – em seus lugares.

Ele costumava amar checar suas abelhas. “Agora, chegou a um ponto em que quando cada semana que eu observo as abelhas, eu me assusto,” disse ele. “Será um bom dia, elas estarão vivas, ou eu encontrarei apenas um monte de porcaria? Isso me deprime profundamente.”

Doan não é o único que está abandonando esse infortunado trabalho. O número de apicultores comerciais caiu 3/4 nos últimos 15 anos, e enquanto todos concordam que esse grande esforço já não vale mais a pena, eles diferem quanto quais são as possíveis causas que merecem culpa. Doan afirma que são os pesticidas neonicotinoides e há um forte argumento a ser feito contra eles.

Esses compostos químicos são usados em mais de 140 diferentes tipos de culturas assim como em jardins domésticos, isto é, inúmeras chances de exposição para qualquer inseto que pouse sobre as plantas tratadas. Doan me mostrou estudos de amostras de pólen retiradas das suas colmeias que indicam a presença de várias substâncias químicas, incluindo os neonicotinoides. Ele prestou declarações perante o Congresso sobre o perigo que as substâncias impõem e está envolvido em um processo judicial, juntamente com outros apicultores e grupos ambientalistas, que pede a suspensão de pesticidas pertencentes a classe dos neonicotinoides à Environmental Protection Agency (EPA). “Os impactos [proveniente dos pesticidas] não são periféricos, e nem teóricos,” diz Peter Jenkins, um advogado do Centro de Segurança Alimentar e líder do conselho do processo. “Eles impõem ameaças reais à viabilidade dos polinizadores.”

Os agricultores americanos vem pulverizando suas lavouras com pesticidas há décadas, ou seja, as abelhas melíferas – que podem voar mais de 8 km em busca de alimentos – vem sendo expostas às toxinas muito antes do pico de DCC. Porém, os neonicotinoides, que foram introduzidos em meados dos anos 90 e se tornaram amplamente propagados nos anos em que se seguiram, são diferentes. Essas substâncias são conhecidas como sistêmicas, o que significa que as sementes são encharcadas neles antes de serem plantadas. Traços dos compostos são eventualmente transferidas para toda as partes da planta madura – incluindo o pólen e o néctar que abelhas podem entrar em contato – e podem permanecer por muito mais tempo do que outros pesticidas. Realmente, não há nenhuma maneira de prevenir que as abelhas não sejam expostas a alguma concentração dos neonicotinoides se os produtos forem aplicados por perto. “Nós estamos aumentando as evidências de que os neonicotinoides podem carregar efeitos prejudiciais, especialmente em combinação com outros patógenos,” disse Peter Neumann, presidente do instituto Bee Health da Universidade de Berna, na Suíça.

Ironicamente, os neonicotinoides são de fato os mais seguros para os trabalhadores rurais porque podem ser aplicados mais precisamente do que outras classes de pesticidas, que dispersam no ar. As abelhas, entretanto, parecem ser singularmente sensíveis aos compostos. Estudos mostraram que os neonicotinoides atacam seu sistema nervoso, interferindo nas habilidades de voo e navegação sem matá-las imediatamente. “A literatura científica está agora explodindo em trabalhos sobre os impactos sub-letais em abelhas,” disse James Frazier, um entomologista da Universidade de Penn State. Os efeitos tardios, porém cumulativos das exposições repetidas podem explicar a causa do porque as colônias continuarem morrendo ano após ano, apesar dos esforços dos apicultores. É como se as abelhas estivessem sendo envenenadas aos poucos. É inegavelmente atraente culpar os neonicotinoides pela crise das abelhas. A adoção amplamente propagada desses pesticidas corresponde bruscamente ao aumento das perdas das colônias, e os neonicotinoides são, antes de tudo, feitos para matar insetos. Os compostos químicos são onipresentes – um estudo recente concluiu que o pólen das abelhas estava contaminado, em média, com nove pesticidas e fungicidas diferentes.

O melhor de tudo, se o problema é os neonicotinoides, a solução é simples: proibi-los. Foi isso que a Comissão Europeia decidiu fazer esse ano, impondo uma restrição de dois anos sobre o uso de alguns neonicotinoides.

Mas enquanto a EPA está planejando revisá-los, a proibição ao estilo europeu é implausível já que as evidências permanecem obscuras. Os apicultores da Austrália vêm sendo em grande parte poupados da DCC ainda que os neonicotinoides sejam usados lá, já a França continua a sofrer com as perdas de abelhas apesar da restrição do uso desses pesticidas desde 1999. Os fabricantes de pesticidas argumentam que os níveis atuais de exposição dos neonicotinoides no campo são muito baixos para serem os principais culpados das perdas de colônias. “Nós lidamos com os inseticidas há muito tempo,” disse Randy Oliver, um apicultor que executou uma pesquisa independente sobre DCC. “Eu não estou totalmente convencido de que essa seja a principal das questões.”

Terreno hostil

Mesmo que os pesticidas sejam grande parte do mistério da morte das abelhas, há outros suspeitos. Os apicultores sempre tiveram que proteger suas cargas de perigos como o American foulbrood (“o abominável americano das ninhadas”) – uma doença bacteriana que mata as abelhas em desenvolvimento – e o pequeno besouro das colmeias, uma praga que pode infiltrar e contaminar as colônias.
A mais sangrenta de todas é a guerra de muitas décadas contra o Varroa destructor, um ácaro microscópico que se refugia dentro das células de crias que abriga as abelhas em estágio inicial. Os ácaros são equipados com uma língua cortante e bifurcada capaz de perfurar o exoesqueleto das abelhas e sugar sua hemolinfa – o fluído que atua como sangue nas abelhas. Uma vez que o Varroa pode ser vetor de inúmeras doenças – eles são equivalentes a uma agulha contaminada para as abelhas – uma infestação incontrolada dos ácaros pode levar rapidamente uma colmeia à morte.

A primeira vez que um Varroa pisou em solo americano foi em 1987 – provavelmente a partir de abelhas infectadas importadas da América do Sul – e mata bilhões de abelhas desde então. Medidas de controle usadas pelos apicultores, incluindo acaricidas químicos, apenas demonstrou uma efetividade parcial. “Quando o Varroa mite fez as coisas da sua maneira, isso mudou o que tínhamos que fazer,” disse Jerry Hayes, o líder do trabalho comercial de abelhas da Monsanto. “Não é fácil tentar matar um pequeno bicho em um bicho grande.”

Outros pesquisados apontaram o dedo para infestações fúngicas como a do parasita Nosema ceranae, possivelmente em junção com um patógeno como o vírus iridescente de invertebrados. Mas novamente, a evidência não é conclusiva: algumas colmeias atingidas pela DCC mostraram evidências ou de fungos, ou de vírus, ou de ácaros, e outras não.

Alguns apicultores estão descrentes que haja absolutamente um problema subjacente, preferindo colocar a culpa da DCC sobre o que eles chamam de PPB – piss-poor beekeeping (apicultura de má qualidade), uma falha dos apicultores em manter suas colônias altamente saudáveis. Porém, enquanto nem todo grande apicultor sofreu com uma perda catastrófica, o fracasso das colônias vem sendo propagado por tempo o suficiente que parece ser perverso culpar as vítimas humanas. “Eu venho criando abelhas por décadas,“ diz Doan. “Não é como se eu subitamente tivesse esquecido como fazer isso em 2006.”

Há também o simples fato de que os apicultores vivem em um país que está se tornando inabitável para as abelhas melíferas. Para sobreviver, as abelhas precisam forragear, ou seja, visitar flores e espaços selvagens. Nosso sistema agrícola industrializado conspirou contra isso, transformando a zona rural do país em vasto cinturões de monoculturas – campos mecanizados de soja e milho que são como um deserto para as abelhas famintas por pólen e néctar. De acordo com o Conservation Reserve Program (CRP), o governo aluga terras dos fazendeiros e as deixam de lado, fora da produção a fim de conservar o solo e preservar a vida selvagem. Todavia, o preço das commodities como o milho e a soja disparou, os agricultores descobriram que poderiam fazer mais dinheiro plantando mesmo que em uma zona periférica do que alugando a terra para o CRP. Nesse ano, apenas 10,2 milhões de hectares serão destinados ao CRP, menos um terço do pico de 2007, e a menor área desde 1988.

Primavera Solitária

Para todos os inimigos que estão se juntando contra as abelhas, um apocalipse das abelhas ainda não está perto de nós. Mesmo com as altas taxas de perdas anualmente, o número de colônias de abelhas melíferas geridas nos EUA permaneceu estável durante os últimos 15 anos, em cerca de 2,5 milhões. Ainda é significativamente menor do que as 5,8 milhões de colônias que mantínhamos em 1946, mas essa diferença tem mais a ver com a competição do mel importado mais barato e com o despovoamento geral das zonas rurais nos EUA nos últimos 50 anos. O número de agricultores nos EUA caiu de um pico de 6,8 milhões em 1935 para apenas 2,2 milhões atualmente, mesmo com o aumento disparado da produção de alimentos.

As abelhas melíferas possuem uma habilidade notável de se regenerar, e ano após ano, os apicultores que sobraram vem sendo capaz de restabelecer seus estoques após tristes perdas. Mas o fardo carregado pelos apicultores está se tornando insustentável. Desde 2006, um número estimado de 10 milhões de colmeias vem sendo perdidas, um custo de US$ 2 bilhões. “Nós podemos repor as abelhas, mas não podemos repor apicultores com 40 anos de experiência,” diz Tim Tucker, o vice-presidente da Federação Americana de Apicultura.

Mesmo tão valiosas quanto são as abelhas, o sistema alimentício não colapsaria sem elas. A coluna vertebral da dieta mundial – grãos como o milho, trigo e arroz – são polinizadas por si só. Porém, nossos pratos seriam muito menos coloridos, sem mencionar que muito menos nutritivos, e sem mirtilo, cereja, melão, alface e várias outras plantas que seriam desafiadas a crescer comercialmente sem a polinização das abelhas. Poderia haver substitutos. No sudeste da China, onde abelhas selvagens morreram graças ao uso em massa de pesticidas, os agricultores, trabalhosamente, polinizam manualmente árvores de pera e maçã com pincéis. Cientistas de Harvard estão experimentando minúsculas abelhas-robô que podem um dia ser capazes de polinizar autonomamente.

De qualquer forma, nos dias atuais nenhuma solução é tecnicamente ou economicamente viável. O governo poderia fazer sua parte implantando regulamentações mais rigorosas sobre o uso de todos os pesticidas, especialmente durante a temporada de plantio. Há necessidades que precisam ser mais apoiadas pelo CRP também para acabar com as monoculturas que estão sufocando as abelhas. Uma maneira que todos nós podemos ajudar é plantando flores amigáveis às abelhas em nossos jardins e mantendo-as livre de pesticidas. O país, segundo Dennis van Engelsdorp, um cientista da Universidade de Maryland que estuda sobre a DCC desde a primeira emergência, está sofrendo de uma “desordem de déficit natural” – e as abelhas estão pagando o preço.

A realidade é que, salvo uma grande mudança no rumo em que os EUA produzem alimentos, a pressão sobre as abelhas não retrocederá. Há mais de 1.200 pesticidas atualmente registrados para uso nos EUA; ninguém finge que esse número se tornará menor. Ao invés disso, as abelhas e várias outras pragas deverão se alterar para se adequarem ao sistema agrícola existente.

A Monsanto está trabalhando em uma tecnologia de interferência de RNA que pode matar o ácaro Varroa através da desregulação do modo em que seus genes são expressados. O resultado seria um mecanismo auto-destruidor para espécies específicas – uma alternativa muito melhor do que os acaricidas tóxicos e muitas vezes ineficientes que os apicultores foram forçados a usar.
Enquanto isso, os pesquisadores da Universidade Estadual de Washington estão desenvolvendo o que será provavelmente o menor banco de esperma do mundo – um armazém do genoma de abelhas que serão usados para a obtenção de uma linhagem de abelha mais resistente a partir de 28 subespécies reconhecidas do inseto ao redor do mundo.

Até agora, os apicultores comerciais se ajustaram às ameaças que pesam mais sob seus encargos, gastando mais para fornecer alimentação suplementar para as suas colônias. A alimentação suplementar aumenta os custos, e alguns cientistas preocupam-se que a substituição do mel pelo açúcar ou xarope de milho possa tornar as abelhas menos capazes de combater as infecções. Porém, apicultores que vivem à deriva em um terreno vazio de nutrientes têm poucas escolhas. O negócio da apicultura pode muito bem começar a assemelhar-se a indústria de agricultura industrial que trabalha em conjunto: menos apicultores tocando operações maiores que produzem rendimentos o suficiente para arcar com os equipamentos e tecnologias necessárias para estar à frente de um ambiente cada vez mais hostil. “As abelhas podem terminar sendo manejadas como o gado, suínos e frangos, onde nós as colocamos em um confinamento e trazemos comida até elas”, diz Oliver, o apicultor e pesquisador independente. “Você pode fazer um pasto apícola.”

Isso é algo que ninguém do mundo da apicultura quer ver. Mas pode ser a única maneira de manter as abelhas melíferas. Tão longo enquanto houver amêndoas, maçãs, damascos e várias outras frutas e hortaliças que precisam de polinização – e agricultores dispostos a pagar pelo serviço – os apicultores encontrarão um jeito.

Então, se as abelhas melíferas sobreviverem, provavelmente não se assemelhará com o que nós compreendemos há séculos. Todavia, poderia ser pior. Para toda a recente atenção voltada sobre as abelhas melíferas comerciais, as abelhas selvagens estão em situação muito pior. Em junho, após a pulverização de inseticidas por uma empresa de paisagismo em árvores, 50.000 abelhas nativas em Oregon foram mortas – o maior envenenamento em massa desse tipo já registrado. Ao contrário das abelhas melíferas, as abelhas nativas não possuem cuidadores humanos.

Mundialmente, mais de 100.000 espécies de animais morrem por ano – quase todos eles sem alarde e aviso. Isso é o que acontece quando uma espécie – que poderia ser a nossa – se torna tão propagada e tão dominante que se amontoa sobre quase todas as coisas.

Não será a segunda primavera silenciosa que amanhece; nós ainda teremos o zumbido dos pastos de abelhas em nossos ouvidos. Porém, os humanos e o punhado de nossas espécies preferidas poderão achar que todas as estações se tornaram igualmente abandonadas.

* Traduzido da revista TIME de 19 agosto de 2013.

**  Publicado originalmente na revista TIME e retirado do Blog Richard Jakubaszko.



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2 comments

  1. Eduardo Affine Neto Responder

    sinistro!

  2. maguih Responder

    Trágico, preocupante, extremamente preocupante!


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