MST ocupa e pressiona CRMs por registro de médicos estrangeiros

Sem Terra ocuparam ontem (18) sedes dos Conselhos do Ceará e de Pernambuco para defender a concessão de registro profissional a médicos estrangeiros e brasileiros formados no exterior

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Sem Terra ocuparam ontem (18) sedes dos Conselhos do Ceará e de Pernambuco para defender a concessão de registro profissional a médicos estrangeiros e brasileiros formados no exterior

Por Tatiana Félix, da Adital

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) ocuparam ontem (18) as sedes dos Conselhos Regionais de Medicina do Ceará e de Pernambuco para pressionar os órgãos a agilizarem o processo e concederem o registro profissional que permitirá aos médicos estrangeiros e brasileiros formados no exterior exercerem a medicina no Brasil pelo Programa Mais Médicos, do Governo Federal.

“Nós estamos pressionando porque o povo não pode esperar mais, as filas estão grandes nos hospitais. Têm municípios que estão sem médicos há dois meses”, disse Reginaldo Silva, integrante da direção do MST no Ceará. Segundo ele, só na capital Fortaleza 11 médicos brasileiros já desistiram de atuar pelo programa devido às áreas pobres e vulneráveis e à precariedade das condições de trabalho. Ele afirmou que os médicos brasileiros não querem ir para áreas de risco, nem deixar os estrangeiros irem.

“Para nós, isso é um absurdo. Os estrangeiros já estão acostumados a trabalharem em brigadas internacionais, então para eles o programa é mais uma missão do que um emprego. Como vai ficar o povo destas áreas de risco, de pobreza? Os médicos estrangeiros já estão acostumados com isso e os médicos brasileiros querem trabalhar em ‘padrão Fifa’”, ressaltou.

Com o fim do processo de adaptação e formação dos primeiros grupos de médicos estrangeiros cadastrados no Programa Mais Médicos, nesta semana, os profissionais ficam dependendo apenas dos registros para começarem a trabalhar. No entanto, ainda não há garantias de quando isso irá ocorrer.

Apesar de afirmar que o processo para concessão dos registros está em andamento e dentro do prazo do programa, o secretário do Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec), Dalgimar Bezerra, não garantiu a entrega do registro para cerca de 30 médicos estrangeiros, a maioria cubanos, nesta sexta-feira (20).

“Nós tínhamos conseguido uma liminar para não registrar os médicos, mas foi derrubada pelo Tribunal da 5ª Região em Recife. Com a derrubada da liminar, o processo [de registro dos médicos] está normal, mas estamos apelando para outras instâncias federais”, revelou.

No último dia 10, a Justiça Federal do Ceará concedeu uma liminar dispensando o Conselho Regional de Medicina do estado (Cremec) da obrigatoriedade de registrar os profissionais de medicina formados no exterior. No entanto, a liminar que impedia a atuação dos médicos estrangeiros no Ceará, pelo Programa Mais Médicos, foi derrubada pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) de Recife (Pernambuco) a pedido do governo federal por meio da Advocacia Geral da União (AGU).

Prevenção e atendimento humanizado

Um atendimento com foco na prevenção, na realidade de vida dos pacientes e na humanização da saúde, que inclui visitas domiciliares e a orientação para a mudança de hábitos, é a base do atendimento de médicos do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) formados em Cuba.

Em entrevista para a página do MST, três médicos/as brasileiros/as formados na ilha contam como é a experiência de aplicar no campo, as práticas baseadas nos conceitos cubanos. A paraense Luciana Brandão, que se formou em 2005, na primeira turma de médicos do MST em Cuba, disse que tinha “muita bagagem da teoria e prática cubana” para aplicar no Brasil, mas tinha muito que aprender no sistema brasileiro.

Em ordem os médicos do MST Luciana Brandão, Marcos Tiaraju e João Antonio. Foto: Divulgação MST

Ao voltar para o Brasil em 2006, Luciana se especializou em saúde da família e hoje atende 2350 pessoas do assentamento 25 de Maio, na comunidade São Nicolau (município de Madalena, no Ceará), onde prioriza a prevenção e promoção da saúde, realizando trabalhos de saúde da mulher, do homem, da criança, pré-natal, saúde da gestante e do idoso. Nos finais de semana faz plantão no hospital do município de Madalena, que tem uma população de 19 mil habitantes.

Sobre a prevenção da saúde, a médica chama a atenção para os cuidados com a higiene, sobretudo, com a água nos assentamentos, que precisa ser filtrada ou separada do uso dos animais. Para combater a desnutrição e melhorar os hábitos alimentares da população, que não tem o costume de comer verduras, Luciana começou a plantar uma horta com alface, repolho, couve, rúcula e pepino no posto de saúde. “Ensino eles a plantar e comer verduras; a cozinhar sem óleo”.

Além disso, a médica especializada em saúde da família faz visitas domiciliares para ver de perto os hábitos e a realidade dos pacientes, e assim, identificar os problemas. “Tenho um paciente hipertenso, diabético, com asma, insuficiência renal, e cheguei bem na hora do almoço dele. Ele estava comendo um peixe muito salgado. Disse que ele não ia mais comer o peixe, ia comer ovo cozido. Falei para a esposa dele cozinhar um ovo e disse que eu ia comer o peixe. Mas nem dei conta de comer de tão salgado”, contou para a página do MST.

Segundo Luciana, as medidas preventivas são simples e exigem atenção e coerência. “O trabalho de prevenção e promoção que fazemos aponta para melhoras nas vidas dos pacientes. Muitos falam que antes da gente era diferente, que nunca nenhum médico entrou na cozinha deles, sentou na mesa para comer ou na beirada da cama para conversar quando estão doentes”.

Já para o recém-formado Marcos Tiaraju, que atende no município de Nova Santa Rita (RS), a ideia é fazer um “trabalho diferenciado” com equipes de saúde da família para fazer um tratamento contínuo das comunidades do município e criando condições para o bom desenvolvimento do trabalho. “A gente dedica um tempo maior em cada consulta, cria uma relação com o paciente para que eles nos contem um pouco sobre a vida. A partir disso conseguimos intervir sob um ponto de vista psicológico também. Pessoas que chegam com dores crônicas muitas vezes não precisam ser medicadas: uma conversa de quinze minutos resolve e a pessoa sai de lá sorrindo. Tu não tem que tratar a doença, tem que tratar o indivíduo, o ser humano como um todo”, acredita.

Depois de uma experiência em atendimentos de urgência e emergência no Haiti, o médico João Antônio atende cerca de 475 famílias da comunidade Paus Brancos onde destaca o trabalho de prevenção realizado em conjunto com os pacientes.

Ele contou ao MST que realiza um “processo de resgate” com as mulheres na criação da farmácia viva. “É uma forma de luta contra as grandes empresas farmacêuticas, que impõem esse modelo de medicina hospitalocêntrico, medicamentoso, baseado no tratamento imediato”.

Com os idosos e adultos, João e uma equipe de profissionais promovem um projeto que inclui caminhadas e alongamento a fim de melhorar a pressão arterial, a frequência cardíaca, a temperatura e a disposição dos pacientes. “Muitas pessoas que chegaram com a pressão alta e muitas vezes tomavam medicamentos para a pressão, tiveram uma redução de cinco a dez milímetros de mercúrio com as caminhadas”, revelou.

Medicina em Cuba

O curso de medicina em Cuba dura seis anos e para alunos estrangeiros, inicia na Escola Latino-americana de Medicina, localizada em Havana. Desde o primeiro ano os estudantes tem contato com os postos de saúde, e depois de dois anos, quando são enviados para as diversas universidades cubanas, eles entram em contato com o sistema público de saúde. Comparado com o Brasil, o nível teórico é igual, mas o nível de prática é maior, com prioridade para a atenção primária de saúde e em medicina preventiva, métodos mais baratos de manter a pessoa saudável.

Com informações de José Coutinho Júnior, da Página do MST.



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