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Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet não é um alerta para o futuro, é um alerta para o presente.

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Um alerta para o presente

Por Pablo Ortellado

A matéria abaixo faz parte da edição 119 de Fórum, compre aqui.

Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet não é um alerta para o futuro, é um alerta para o presente. Nesse livro, o fundador do WikiLeaks. Julian Assange, discute com três proeminentes ativistas do mundo digital – Jacob Appelbaum, desenvolvedor do software de criptografia TOR, Andy Müller-Maguhn, porta-voz do grupo hacker Chaos Computer Club, e Jérémie Zimmermann, ativista da ONG La Quadrature du Net – os perigos de um mundo onde os dados privados dos cidadãos são sistematicamente coletados e requisitados para vigilância governamental, colocando em grave risco as liberdades civis e políticas.

Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet
Julian Assange
Boitempo Editorial, 190 págs

Empresas como Google e Facebook monitoram todas as atividades dos seus usuários – páginas visitadas, padrões de relacionamentos sociais, palavras-chaves de buscas e muito mais – para melhorar a eficácia da publicidade dirigida. O crescimento desse mercado criou bancos de dados muito amplos e precisos, que têm sido requisitados regularmente pelos governos para combater o crime, mas também para controlar a dissidência política. O barateamento das tecnologias de armazenamento de dados também tem estimulado órgãos de inteligência a fazer monitoramento massivo das comunicações dos cidadãos, algumas vezes com expressa autorização do Legislativo e do Judiciário. Dessa forma, empresas e governos dos países liberais dispõem hoje de mais dados e informações sobre a vida privada dos seus cidadãos do que o governo da ex-Alemanha Oriental possuía nos anos dourados da Stasi.

Cypherpunks é um alerta para esse processo que já está em curso, embora seja invisível para a maioria das pessoas. Para combatê-lo, os autores desse livro defendem o esclarecimento da população, um maior controle público das instituições de vigilância e estratégias técnicas, baseadas em criptografia, para contornar a espionagem de empresas e governos. Além disso, exigem que em contrapartida à proteção dos dados pessoais seja dada maior visibilidade às atividades governamentais. Trata-se de retomar a máxima hacker que, com a assimetria entre governos e indivíduos, exige privacidade para os cidadãos e completa transparência para o Estado. O livro busca mostrar esses fenômenos que estão tão encobertos quanto são urgentes, e sua leitura deve ser o ponto de partida para um programa de ação.

Emparedados

Por Glauco Faria

Carcereiros
Drauzio Varella
Companhia das Letras, 232 páginas

Há alguns anos, fiz uma matéria sobre a vida dos agentes penitenciários para a Revista do Brasil, ocasião em que tomei contato com a realidade massacrante em que vivem esses profissionais. Agentes eram admitidos e, mesmo antes de se prepararem minimamente para a função, estavam trabalhando com antigos funcionários. As jornadas eram de 12 horas por 36, fazendo com que, durante boa parte do tempo, o servidor ficasse também “emparedado”, inviabilizando que participasse de atividades que exigissem frequência diária como cursos educacionais, por exemplo. Com salários baixos para a função, o resultado desse cenários é uma série de profissionais desenvolvendo distúrbios emocionais, como medo de frequentar lugares abertos e alcoolismo.

Treze anos após o lançamento de Estação Carandiru, livro que virou filme de Hector Babenco, o médico Drauzio Varella lançou, em outubro do ano passado, Carcereiros, que trata de forma detalhada, com uma narrativa e histórias envolventes, o cotidiano de agentes penitenciários, que, muitas vezes sem uma formação específica, se veem envolvidos em situações delicadas, conseguindo por meio do conhecimento acumulado no dia a dia evitar que verdadeiras tragédias aconteçam no desolador sistema carcerário paulista.

Se em sua primeira obra Varella trouxe a visão do médico que trabalhou como voluntário na extinta Casa de Detenção, agora ele busca o olhar dos agentes que vivem com os presos as mazelas do que eles próprios chamam de “O Sistema” e que, sem serem ouvidos, vivem e se adaptam às mudanças impostas pela política penitenciária ao longo dos anos. São passagens que mostram solidariedade, mas também corrupção, agressões mútuas e um Estado omisso, que ignora todos os personagens que vivem ou trabalham nas prisões.

São visões humanas e, por isso mesmo contraditórias, que ocasionalmente afrontam nossas convicções e conceitos. Em função disso, induzem a muitas reflexões, mas inevitavelmente conduzem à certeza de que esse não é o modelo prisional ideal para ninguém. Como diz um carcereiro, de forma pragmática, ao avaliar a antiga cultura de se impor ordem nos presídios por meio da força: “O que adiantou bater? Se tivesse dado certo, não teríamos perdido o controle das cadeias para o crime organizado, como de fato aconteceu.” F

 




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