Uma cidade à espera de um médico

O município de Manga faz de tudo para atrair mais médicos. Dos sete da cidade, apenas um cumpre a carga horária. A prefeitura reclama? Não, porque tem medo de perder os poucos que se aventuram naquelas terras

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O município de Manga faz de tudo para atrair mais médicos. Dos sete da cidade, apenas um cumpre a carga horária. A prefeitura reclama? Não, porque tem medo de perder os poucos que se aventuram naquelas terras

Por Camila Nobrega*, de Manga (MG) e Rio de Janeiro para o Canal Ibase

Os 4.500 habitantes de Miravânia, município fincado no semiárido do Norte de Minas Gerais, estão contando os dias para a chegada de uma nova moradora. Ela tem mais de 10 anos de profissão e deixará a família, as percussões caribenhas e o país de origem para trás para trabalhar no local. É médica, e cubana. Será recebida na próxima semana com festança na cidade, onde a cultura popular se expressa principalmente nos reisados e em danças como a de São Gonçalo. Pelo programa “Mais Médicos”, do Ministério da Saúde, ela dividirá o atendimento de toda a população com apenas mais um médico, que está sozinho no local.

Volta e meia a cidade de Miravânia perde um médico e vai em busca de outro. O município faz de tudo, até dobra o salário – o oferecimento aos médicos brasileiros já chegou a R$ 20 mil, contando um plantão por semana. Já faz quase cinco meses a espera para completar o quadro. Nenhum brasileiro colocou o local como uma das seis opções de destinação em formulários entregues ao Ministério da Saúde, para trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a vice-prefeita Sônia Schirley Caldeira Mota, há três postos de saúde em Miravânia, e o único médico tem que ficar se revezando.

– Há alguns locais na zona rural que ficam mais de 20 quilômetros distantes da sede. Quando o médico está em alguns desses lugarejos, o resto da população fica descoberto. Se chega uma vítima de acidente ou qualquer outra emergência grave, a pessoa morre. É essa a nossa realidade. A cubana que está para chegar é mais do que bem-vinda.

A saúde pública é alarmante ali. A cidade chama atenção pelo crescimento do número dos casos de câncer, segundo informações da prefeitura. Ali a atividade do agronegócio – com alto uso de agrotóxicos – é predominante, mas não há estudos ainda que comprovem essa relação. Além disso, a doença de Chagas, transmitida pelo barbeiro, é bastante comum, assim como a esquistossomose, cuja ocorrência está ligada ao contato com água contaminada. Em toda a região do Norte de Minas, boa parte da população depende das águas do São Francisco, rio cada vez mais contaminado. Esgotamento sanitário não há, as primeiras redes estão sendo construídas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Enquanto isso, pessoas tomam banho no São Francisco e seus afluentes, escovam os dentes, lavam roupas, pegam água para beber e cozinhar da mesma fonte onde o esgoto se concentra.

Mortalidade infantil chega a 12% em Manga

Nesse contexto, outro protagonista na área de saúde ganha importância: o Programa de Saúde da Família. A visita de um médico às casas dos moradores da região é essencial, faz parte da rotina. É para engrossar essa ideia de prevenção e de atenção às famílias que a médica cubana chegará, com uma bagagem de experiência da medicina cubana, focada exatamente nessa lógica da prevenção.

– Saúde é nosso maior problema. Estamos ansiosos pela chegada dela, a necessidade é muita. As críticas à vinda dos cubanos vêm de onde não há desespero, onde as pessoas têm médico se passarem mal – contou Valdemir Alves Souza, morador de Miravânia, que trabalha no departamento de Cultura da cidade vizinha de Manga.

Crianças brincam no São Francisco,
na cidade de Manga (Foto André Fossati / Cinema no Rio)

Miravânia tem sérios problemas com verminoses e diarreia e está vendo aumentar o número de pacientes com câncer. Mas ali não há tratamento. O jeito é correr para a cidade mais próxima, Manga, onde está o único hospital de toda a região. Se o tratamento necessitar de quimioterapia, a distância aumenta, passa dos 300 km, que é a viagem até Montes Claros. Em casos de último período de gravidez, a mulher é levada para uma Casa de Saúde em Manga e fica esperando, porque, se alguém entra em trabalho de parto tem que enfrentar 70 km de estrada.

Ao primeiro entendimento, fica a impressão de que o problema de Manga está resolvido, já que o município é o pólo de saúde regional. Acontece que o município possui a palavra quase encantada – um hospital. A realidade, porém, é outra. Dona Pidu, aos 101 anos, que o diga:

– Minha filha, sempre vinha um médico me visitar. Mas já não vem ninguém faz tempo…

Manga tem sete médicos, mas nenhum deles é obstetra. Os partos todos são realizados por clínicos gerais. Os dados de pré-natal estão evoluindo, mas o cuidado neonatal ainda deixa muito a desejar. A taxa de mortalidade é uma das mais altas do Brasil. A cada 100, 12 crianças morrem nos primeiros anos de vida. Não a toa, as mulheres respondem o número de filhos que possuem e sempre completam: esses vivos. Quase todas perderam algum. Outro problema é a prevenção à gravidez, outra função desempenhada pelo Saúde da Família. Uma brincadeira popular ainda diz que, se a menina passou dos 15 anos e não tem filho, é porque tem algum problema para engravidar.

O município de Manga também faz de tudo para atrair mais médicos. Dos sete, apenas um cumpre a carga horária. A prefeitura reclama? Não, porque tem medo de perder os poucos que se aventuram naquelas terras. O salário é de R$ 13 mil, sem contar os acréscimos de plantões. No total, são quase R$ 20 mil. Há cidades na região onde esse total chega a R$ 23 mil. E faltam médicos. É o caso do município de São João das Missões, que receberá dois cubanos do programa federal.

– Eles fazem três horas de manhã, três à tarde. Às vezes menos, às vezes faltam. Nós relevamos, porque não há opção. Os médicos brasileiros dizem que não temos infraestrutura, mas acabamos de reequipar unidades básicas. Só que é um lugar pobre, não tem lazer, o acesso é difícil. Mas, se eles não querem vir, têm que deixar que estrangeiros venham. Eles são contrários porque não conhecem a nossa realidade – explicou a secretária de Saúde da cidade de Manga, Vânia Maria Botelho Magalhães.

Enquanto isso, outros profissionais ficam com serviço também bastante pesado e salários quase dez vezes menores. É o caso de enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos, cujo salário no local é de R$ 2.750.

– A chegada dos médicos cubanos deixou à mostra um problema no Brasil: a formação dos nossos médicos, que se preparam para trabalhar na rede particular e fogem do SUS (Sistema Único de Saúde). Não querem ver a atenção primária como uma porta de entrada na profissão, querem ter um consultório. Precisamos repensar a questão da saúde no Brasil. A saúde não pode ser só comercial, e é preciso investir na saúde da família, na prevenção.

A questão, no entanto, é ainda mais complexa. Mesmo boa parte da classe médica foi contra a forma com que jovens profissionais da área lidaram com a chegada de cubanos, com ações discriminatórias e até racistas. Há também uma série de debates sobre o posicionamento dos médicos brasileiros contra a vinda de estrangeiros e houve quem classificasse como xenofobia. A discussão é bastante grave.

Mas há, por outro lado, uma série de problemas e desafios impostos para que o Sistema Único de Saúde (SUS) atenda a demanda da sociedade brasileira e valorize seus próprios profissionais, grupo que vai muito além dos médicos, incluindo enfermeiros, odontologistas, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros. É o que afirma a socióloga Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP):

– O SUS vem acumulando problemas na gestão do trabalho desde sua criação. São vários os problemas, desde a forma de inserção e vínculos dos trabalhadores; salários muito baixos; dificuldades de gerenciar a Força de Trabalho oriunda e resultado da unificação dos três níveis de gestão – municipal, estadual e federal; flexibilização dos vínculos de trabalho gerando a precarização do trabalho; ausência de planos de carreiras adequados à realidade do SUS. Tudo isso gera desestímulo, desinteresse e, consequentemente a desistência de atuar no SUS. Se agrava muitíssimo quando a realidade é o interior do país naqueles municípios com escassas condições de provimento de assistência à população. Destaca-se a região Norte do país onde alia essa precariedade a áreas longínquas e de difícil acesso.

Maria Helena lembra que o SUS é uma política pública ancorada na Constituição brasileira que assegura assistência gratuita e universal a toda a população esteja ela onde estiver. Contudo, esse dispositivo constitucional só pode ser plenamente cumprido se os profissionais forem realmente inseridos e valorizados. A falta de médicos, para a socióloga, é um sintoma da ausência de políticas publicas voltadas a saúde em algumas regiões do Brasil. Ela afirmou ainda que a proposta do Ministério da Saúde está desprovida dos componentes que dariam garantias aos jovens médicos.

Enquanto isso não ocorre, as cidades do interior do país felicitam os profissionais cubanos que aceitaram atendê-las, a maioria deles com grande experiência em programas de saúde da família, focada na prevenção e não apenas no tratamento de doenças. Em Miravânia, a população estará a postos na solenidade de recepção que ocorrerá na próxima semana. O que eles querem é sobreviver.

Colaborou Martha Neiva Moreira

* Viajou acompanhando o projeto Cinema no Rio, que percorre cidades a margem do São Francisco exibindo filmes, a convite da equipe



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