Redes culturais: desafio à velha indústria da cultura

Sete semanas após entrevista Ninja ao Roda Viva, vale pensar no que movimento representa, em termos de novas relações produtivas

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Sete semanas após entrevista Ninja ao Roda Viva, vale pensar no que o movimento representa, em termos de novas relações produtivas

Por Ladislaw Dowbor, em Outras Palavras

Bruno Torturra e Pablo Capilé no Roda Viva (Foto: Mídia Ninja)

A entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva, focando o sistema inovador de jornalismo Ninja, é particularmente importante. Não pela celeuma criada, mas pelas janelas e desafios que abre. Aproveitamos a discussão para as pessoas entenderem melhor um conjunto de atividades de produção e acesso cultural no país. Interessante também o fato da entrevista ter gerado tanta controvérsia, com o problema do financiamento superando a visão das oportunidades abertas. Estamos na era digital, da conectividade planetária, mas carregamos uma herança de sistemas de produção cultural e jornalística essencialmente controlados por gigantes da intermediação, a chamada indústria cultural e o oligopólio da mídia. Adotaram tecnologias digitais nas imagens, mas como cultura organizacional seguem na era analógica. O pano de fundo, é que hoje, com as novas tecnologias tanto de produção como de divulgação de conteúdos, abriram-se oportunidades de sistemas radicalmente descentralizados e em rede, o que afeta os gigantes verticalizados de intermediação. Os que produzem conteúdos não precisam mais esperar para serem dos poucos selecionados pela grande mídia ou pelo oligopólio da música. A gente não vai mais se ver só na Globo.

O que era para ser entrevista, virou um espaço muito interessante de contraste entre duas culturas, o jornalismo comercial dos entrevistadores que insistiram em chamar as suas atividades de “jornalismo histórico”, e o jornalismo descentralizado e colaborativo que emerge. Os entrevistados, por sua vez, se referiam ao sistema comercial mais simplesmente como “velho” e “analógico”, frente ao universo digital que se descortina.

Toda a primeira parte do Roda Viva se concentrou na veiculação da profunda suspeita dos entrevistadores sobre “de onde vem o dinheiro”, sugerindo naturalmente fontes escusas, falta de prestação de contas e semelhantes. É natural que esta geração da mídia, que trabalha com altos custos e equipamentos sofisticados, não entenda que nesta era em que qualquer pessoa com umsmartfone pode registrar eventos, e tem inteligência e formação para sugerir interpretações – talvez com menos competência profissional mas seguramente com maior diversidade de interpretações – o sistema se desloca. O que não se entende é que sequer tinham conhecimento de moedas alternativas, das formas de funcionamento dos processos colaborativos não monetários, de toda uma economia da cultura não comercial que se desenvolve e já tem anos de experiência. O sistema Ninja não apareceu com as manifestações, já tem 10 anos. Foram precisas as manifestações para que esta imprensa se dê conta que o Ninja existe.

O sistema de financiamento da rede Ninja e da rede Fora do Eixo não constitui nada de revolucionário, existe em milhares de experiências pelo mundo afora e no Brasil, e consiste em reciprocidades baseadas em uma moeda contábil, ou simbólica, que pode ser representada por horas de trabalho, A diferença é que não se paga juros aos bancos, o que torna tudo mais barato, e facilita as trocas, ao se tirar os intermediários de cena. No caso mencionado no Roda Viva, trabalham com pouco dinheiro oficial (reais), e com muito dinheiro equivalente (cards), em que um grupo que realiza um show apoiado no esforço de organização de outro, por exemplo, passa a assegurar uma contribuição correspondente em reciprocidade em outro local ou cidade, expressa emcards, mas sem necessidade de dinheiro. Assim, o pouco dinheiro que arrecadam em reais, tem efeitos multiplicadores dezenas de vezes superior. O sistema tem toda lógica em economia, mas não entra na lógica de quem não está familiarizado, e fica à procura de dinheiro escondido. O Brasil aliás já tem103 bancos comunitários, que emitem moedas alternativas, processo autorizado pelo Banco Central, e que deveria ser do conhecimento elementar na cultura de jornalistas. O Banco Palmas, com a sua moeda “palma”, comemorou há meses os seus 15 anos, a USP publicou um livro comemorativo com pesquisas sobre o funcionamento desta forma de organização econômica (veja o livro em http://dowbor.org/livros-em-colaboracao/).

É interessante confrontar esta lógica econômica colaborativa e democrática com a lógica da mídia comercial. Tudo que pertence à indústria cultural e midiática, inclusive os noticiários e os jornais e revistas em papel, são essencialmente financiados por publicidade, e se trata de recursos extremamente elevados. É um império econômico. As empresas de publicidade que financiam a mídia são por sua vez financiadas por grandes grupos econômicos, como bancos, empreiteiras, grandes redes de intermediação comercial, montadoras, a grande indústria farmacêutica e semelhantes. Há muito pouca participação de pequena e média empresa, ou por exemplo da agricultura familiar que é responsável por três quartos do alimento que chega à nossa mesa. O dinheiro gasto pelas grandes empresas em promoção e propaganda é incluído na planilha de custos, e incorporado nos preços, que são pagos por nós. A TV aberta só parece gratuita porque já pagamos ao comprar os produtos. Quando ouvimos na TV que tal programa nos é gentilmente oferecido pelas casas que têm total dedicação a nós, já sabemos quem paga a conta.

Esta fórmula econômica, por sua vez, pressiona o sistema em dois sentidos. Primeiro, porque não se vai escrever noticias desagradáveis que envolvam os grandes grupos econômicos privados, que afinal são as que contratam a publicidade. O resultado é uma deformação profunda da agenda política e o oligopólio da mídia comercial passa a defender a agenda das corporações: o código florestal (agronegócio), juros altos (bancos), financiamento corporativo das campanhas e assim por diante. Segundo, porque como a remuneração vem do volume de audiência ou do número de leitores, instala-se o vale-tudo. Apresentar na mídia PMs correndo atrás de bandidos em favelas ou tragédias geradas pela violência atrai muito mais do que explicações sobre formas de melhorar o sistema de gestão da saúde, para dar um exemplo. Cria-se a tirania dos pontos de audiência, e o que rende não é se está se dizendo a verdade ou produzindo análises inteligentes, e sim a banalização, a fofoca, muita violência e semelhantes. Assim corporações, mídia comercial e empresas de publicidade ficam articuladas num triângulo perverso, pago por nós. A fórmula funciona para os grupos comerciais que são donos desta mídia, mas não para uma cultura inteligente. E muita gente inteligente e decente, que trabalha nesta mídia, presa na armadilha da sobrevivência, se submete.

No caso do financiamento da mídia comercial pela publicidade estatal, a situação é ainda pior. A pretexto de se atingir uma maior audiência, apresentada pelos quatro grupos da mídia (Marinho, Frias, Mesquita e Civita) que dominam a pirâmide da mídia comercial através de uma pirâmide de concessões, onde inclusive boa parte da propriedade dos canais se cruza com funções políticas, a parte esmagadora das verbas publicas de publicidade termina concentrada nos mesmos meios de comunicação. E quando o governo é menos favorável às oligarquias como é o das gestões de Lula e de Dilma, gera-se o absurdo de verbas públicas pagas a grupos privados para falar mal de políticas públicas. Nada aqui de particularmente brasileiro, nada que o Berlusconi não tenha entendido, que Murdoch não aplique.

A verdade é que a própria fórmula do financiamento da mídia tem de ser revista. No caso da grande mídia comercial, sai do nosso bolso a publicidade dos grupos privados, com os custos incorporados nos preços, a publicidade do Estado através dos impostos, e a das estatais através das tarifas. Pagarmos para ouvirmos verdade deformada e uma sequência interminável de idiotices, generosamente apelidadas de cultura, francamente não é o ideal. Ouvir que um determinado programa nos é oferecidopor determinada empresa, é quase doloroso. E tem mais: o oligopólio da mídia comercial sangra cada vez mais os nossos bolsos, pois o sistema é cada vez menos operante, frente à alternativa que se desenvolve de forma acelerada, de produção artística que circula sem jabá, de processos colaborativos que geram um movimento de inclusão artística de milhares onde antes só havia a estreita portinha do “sucesso” na grande mídia. Hoje um número crescente de pessoas passa a acessar no computador, tablet ou smartfone noticiários variados e inteligentes, e também, porque estão se multiplicando shows, reuniões, palestras e outras formas presenciais, gerando um novo universo onde a cultura não é mais limitada à classe média das capitais. A divisão entre produtores e consumidores de cultura está se tornando frágil. Tendemos a ser, como dizem os economistas,prosumidores.

É a equação econômica da grande mídia que está em crise, o que dá um toque irônico à entrevista na Roda Viva, pois mais do que maldade, havia nas perguntas perplexidade de quem não entendeu. Tanta gente dizia que a Wikipédia não funcionaria, e no entanto se trata do sistema mais confiável e atualizado de conhecimento de estilo enciclopédico, baseado no gosto das pessoas contribuírem com algo útil. Clay Shirky, no seu Cognitive Surplus, sistematiza a visão dos processos colaborativos de ampliação dos conhecimentos. Lawrence Lessig, no seu The Future of Ideas, mostra o grande quadro de transformações. A verdade é que hoje qualquer pessoa pode gravar, filmar, comentar e divulgar, contribuindo para o nível de conhecimento de todos, gerando-se um sistema diversificado em rede. O que não é interessante ou competente simplesmente some do mapa, pois as pessoas não acessam, e se acessaram por engano não repassam, não retuitam, e as bobagens morrem na praia: neste sistema, quem passa a mandar é a demanda, não a oferta.

Neste sentido, a fórmula do Ninja proposta na parte final do programa, de abrir um portal, de recorrer a contribuições dos leitores, de oferecer canais abertos de contribuição a quem tem algo a dizer, tem tudo para dar certo. Eu, por exemplo, periodicamente envio um dinheiro à Wikipédia. Não porque me mandam a conta, mas porque eu sei que a contribuição deles para o meu trabalho e o dos meus alunos é grande, e quero que o sistema sobreviva. Estou pagando o que eu acho que vale para mim, e não o que o dono da mídia acha que deve me cobrar. Francamente, estou até me dando um desconto, e não preciso me submeter ao martelar publicitário das grandes corporações. Em termos econômicos, é uma boa transação, o que pago não está escondido nos preços, impostos e tarifas, e o que recebo é o que eu quero, não o que quer o Berlusconi ou equivalentes nacionais. Na prática, o que está se gerando, é uma ampla desintermediação de acesso à cultura e à informação, aproveitamento inteligente do potencial das tecnologias da era digital. Continuar a pagar pedágios a intermediários que nos enganam, quando temos alternativas melhores e mais baratas, não é uma equação econômica interessante.

Devo dizer que estamos construindo o “ninja” da área científica. O OCW do MIT disponibiliza cursos e pesquisas online gratuitamente. A China adotou o CORE (China Open Resources for Education). O Science Spring nos Estados Unidos já reúne 14 mil cientistas que se recusam a publicar na Elsevier e outros intermediários que encarecem a ciência em nome da excelência dos seus serviços de Peer Review, que aliás está sendo substituído pelo Open Peer Review. Comenta um cientista americano: eu não preciso que uma instituição caríssima me diga se o artigo que eu leio é bom. E quando, no caso da mídia política, pagamos para que nos enganem, este não é o caminho. Devo dizer que tempos atrás, a convite da Globo, visitei instalações e ouvi os avanços. O meu comentário sincero, na época, foi que haviam atingido a excelência técnica num sistema ultrapassado. E quanto aos jornalistas, é tempo que se liberem, que se articulem com os vários subsistemas de mídia aberta que estão surgindo, e ajudem a construir a era digital da informação.

Tenho plena consciência que o jornalista precisa ganhar a sua vida. Mas precisa repensar como. Inclusive porque muitos estão sendo jogados na rua sem nenhum problema de consciência por parte do oligopólio. Eu disponibilizo todos os meus artigos e livros online. Com isto circulam muito mais, me torno mais conhecido, e faço palestras, que frequentemente pagam o valor agregado da comunicação presencial. Escrever livros me dá muita alegria, mas não me sustenta. O que me sustenta são as aulas que dou, trabalho produtivo que acho natural enfrentar, ao lado do trabalho criativo que me dá prazer.

Os músicos que saíram fora dos “Selos” e do “jabá”, ganham com shows, e inclusive vendem os discos nos shows. É importante aqui entender que a era digital vai sim exigir de todos nós repensarmos as equações econômicas da nossa sobrevivência. Não basta chamar a PM para combater a pirataria e repetir “seja ético, é tão simples assim”, como se comprar do oligopólio fosse ético. E os que trabalham com conhecimento, com o chamado “imaterial”, sejam jornalistas, professores, artistas ou palhaços, têm de ajudar a construir os novos espaços. Exigir que a publicidade pública, que também vem do nosso bolso, ajude a multiplicar mídia e cultura diversificadas, descentralizadas e participativas seria um bom começo. Inclusive porque o contexto da publicidade seria mais inteligente, e porque as coisas não acontecem mais apenas no Rio e em São Paulo.

O ECAD corresponde claramente ao sistema de atravessadores que faz lucrar quem não cria nada, mas coloca pedágio sobre a criatividade dos outros. Não é uma solução. A indústria cultural gera esperança de sucesso e fortuna que vale para muito poucos, e cria uma ilusão até parecida com os meninos que se inscrevem nas escolinhas de futebol e esperam viver da habilidade dos seus pés. Funciona para tão poucos, que na realidade representa um engodo. Não podemos basear o funcionamento da cultura nas exceções. Temos sim de valorizar as novas experiências, os sistemas alternativos de financiamento colaborativo, de experiências fora do sistema comercial tradicional. A França, por exemplo, trabalha com um sistema público sofisticado de suporte. A iniciativa dos Pontos de Cultura é um exemplo extremamente válido que deve ser retomado e expandido. Onde funciona, a cultura depende sim de forte sistema de apoio, e isto vale para numerosas áreas da economia criativa, inclusive a área científico-acadêmica.

Houve muitas reações emocionais à entrevista no Roda Viva. De vários lados ficam à procura de dinheiro escondido. Acho mais importante pensarmos no fato que o sistema de pedágio atualmente adotado pelas grandes corporações da produção jornalística e cultural é que está levando ao surgimento de formas alternativas de organização. O drama mesmo, é que no sistema atual de financiamento publicitário de grandes corporações econômicas, ou de financiamento estatal destinado ao oligopólio da comunicação, sobra muito pouco para apoiar uma explosão de criatividade, sobre tudo no mundo jovem, que quer se manifestar, e vai inventar novas formas de organização e acesso.



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1 comment

  1. Kleber E. Alvarenga Responder

    Concordo com que a Patrícia falou, também existem outros que não conhecemos. Não posso também falar mau, mas a Mídia Ninja e o FdE não são a mesma coisa. Muito pelo contrario.

    Kleber Alvarenga – Consultor de Sistema Comercial.


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