Mouzar Benedito: Aprende-se a fazer fazendo

Cada época tem causas específicas e também modos de organização e realização de protestos diferentes. Vou me lembrar de algumas coisas, comparando, mas sem achar que em 1968 foi melhor ou pior.

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Por Mouzar Benedito

Esta matéria está na edição 124 da revista Fórum. Compre aqui

–Tinha que ter um caminhão de som para organizar a manifestação e puxar a passeata… – disse um amigo ao comentar as manifestações que explodiram em junho.

Ele é do tempo das manifestações sindicais pós-ditadura, que tinham, sim, um caminhão com líderes e até animadores na carroceria, usando aparelhos de som bem potentes.

Para alguns, falta liderança; para outros, falta “organização”, mas para mim pareceu tudo muito natural.

– O que falta é experiência – respondi brincando.

Lembrei então de manifestações e passeatas de outros tempos, principalmente de 1968, quando nossas motivações tinham como motivo central o combate à ditadura, e como adjacentes a rejeição ao imperialismo ianque, mais vagas nas universidades públicas e muitas outras coisas, incluindo o protesto contra a Guerra do Vietnã.

Motivos para protestos e exigência de transformações sempre existiram, e continuam existindo. Entre os motivos atuais, acredito, há um imperialismo também, o da Fifa. O Brasil virou colônia dela, obediente, com uma teta enorme para ela mamar.

Bom… Cada época tem causas específicas e também modos de organização e realização de protestos diferentes. Vou me lembrar de algumas coisas, comparando, mas sem achar que em 1968 foi melhor ou pior. Não conto nenhuma novidade, são coisas que já publiquei antes.

Para começar, tem a forma de decidir, marcar horário e local para os protestos. Hoje tem a internet. Em 1968, decidia-se em assembleias, mas às vezes chegávamos ao local do início da passeata e ele estava ocupado pela polícia. Então, passou a ser decidido nas assembleias só o horário do início da passeata. O local era decidido em uma reunião dos líderes estudantis, que repassavam a presidentes dos centros acadêmicos, que por sua vez passavam a líderes de pequenos grupos, e estes davam um jeito de avisar a turma pouco antes do início, tentando evitar que a polícia fosse informada. A maioria não tinha nem telefone.

Uma vez, ficou decidido que uma passeata começaria às 18h do dia seguinte. Para nos informar onde deveríamos ir, a partir das 17h, num ponto de ônibus da Rua da Consolação, haveria um japonês com um blusão de nylon fingindo ler uma revista. A senha era “Onde é que eu pego o ônibus pra Pinheiros?”. E ele indicaria o local. Uma estudante chegou, falou a senha, ele respondeu: “Na praça da República, em frente ao Colégio Caetano de Campos”, e levou uma guarda-chuvada na cabeça. Uma velha furiosa empunhava o guarda-chuva e falava:

– Sem-vergonha! Ensinando o ônibus errado pra moça!

Uma coisa típica da época eram os comícios relâmpagos, para protestar, explicar os motivos dos protestos e chamar as pessoas para as manifestações. Pequenos grupos iam a locais com aglomeração de gente, alguém subia num caixote e dava seu recado. Tinha de ser muito rápido, porque a repressão estava sempre presente.

Por falar em repressão, parte da polícia que reprimia as passeatas levava cachorros policiais, e uma tática que se usava era soltar foguetes para atarantar os animais. Um dia, uma passeata deveria começar em frente ao Teatro Municipal, a polícia já estava lá com seus cachorrões, e foram chegando estudantes secundaristas carregando sacos com alguma coisa dentro. Ficaram andando disfarçadamente, sob os olhares dos policiais, até a hora da eclosão da passeata. Aí, mostraram o que os sacos continham: gatos. Literalmente, eram sacos de gatos. Soltaram os bichanos, um monte deles, e os policiais não conseguiam controlar os cachorros.

Esse negócio de reprimir até quem não tinha nada com isso acontecia muito também. Lembro-me de um amigo que tinha medo de participar das passeatas porque a repressão era violenta. Um dia, andando pela Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, entrou numa loja, comprou algumas coisas e, quando saiu, viu a massa de estudantes subindo a rua, e do outro lado uma porrada de policiais. Haveria confronto. A polícia avançava soltando bombas de gás lacrimogêneo. As portas das lojas se fechavam rapidamente, ele conseguiu pular para dentro de uma delas e, quando baixavam a porta, um policial sádico jogou uma bomba de gás por baixo dela. Ficou todo mundo “chorando” lá dentro.

Mais uma lembrança: uma moça me disse, durante as manifestações de junho, que tinha medo do que aconteceria na Praça da Sé. “Lá tem muito morador de rua. Vão aproveitar para saquear, não vai dar certo”.

Lembrei-me de novo de 1968. Morador de rua era uma raridade. “Meninos de rua”, mais ainda. Numa manifestação na Rua Maria Antônia, um menino e uma menina moradores de rua ouviam atentamente oradores que se revezavam discursando contra a ditadura, contra o imperialismo, contra o acordo MEC-Usaid e outras coisas.

Num certo momento, a menina sentou na calçada e falou desconsolada:

– Eu não entendo nada do que eles falam.

O menino pegou a mão dela e puxou, dizendo:

– Levanta e bate palma. Eles também não gostam de polícia.



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