O marketing da “tolerância zero”

A recente visita de Rudolph Giuliani a Minas Gerais trouxe à baila a discussão em torno da política de “tolerância zero”, um debate complexo que deveria ser feito com cautela e de forma plural

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A recente visita de Rudolph Giuliani a Minas Gerais trouxe novamente à baila a discussão em torno da política de “tolerância zero”, um debate complexo que deveria ser feito com cautela e de forma plural

Por André Rubião*

A recente visita de Rudolph Giuliani a Minas Gerais trouxe novamente à baila a discussão em torno da política de “tolerância zero”. No início dos anos 1990, o ex-prefeito de Nova York ganhou fama mundial após implantar um sistema penal que dava eco ao famoso provérbio “quem rouba um ovo, rouba um boi”. A mensagem era clara: os pequenos delitos tinham que ser combatidos de forma rigorosa, para evitar a formação de futuros marginais profissionais. A “tolerância zero” foi um sucesso. Os índices de criminalidade despencaram, sendo que o metrô de Nova York, antes inseguro e violento, transformou-se no símbolo da política de segurança da cidade. Giulliani passou a ser tratado como um verdadeiro pop star.

Nesse contexto, é importante relembrar um livro famoso, As prisões da miséria, que traz a genealogia do discurso da “tolerância zero”. Nesse livro, o sociólogo francês Loïc Wacquant nos mostra como o envolvimento dos think tanks neoconservadores – em especial o Manhatan Institute e a Heritage Foundation – contribuiu para o sucesso da política de segurança de Giulilani. Esses “tanques de pensamento”, como o próprio nome indica, são gigantescos institutos de pesquisa, na maior parte das vezes financiados por grandes empresas, que colocam algumas ideologias no campo de batalha. No começo do século XX, Carnegie, Rockefeller, J. P. Morgan (e os demais robber barons, para usar a expressão que ficou famosa na pluma do historiador Howard Zinn) já tinham descoberto o poder das ideias, ao criar fundações que financiavam aqueles que criticavam os direitos dos trabalhadores e não se opunham à criação de monopólios. No seu livro, Loïc Wacquant mostra como o Manhatan Institute e a Heritage Foundation – que já tinham usado a mesma estratégia para financiar o ataque do governo Reagen ao welfare state, distribuindo gratuitamente mais 10 mil cópias de um livro que exaltava o neoliberalismo – resolveram de repente investir numa nova empreitada: a “tolerância zero” do prefeito de Nova York.

Projeto de Rudolph Giulilani, com o apoio dos think tanks neoconservadores, transformou-se no modelo a ser exportado para o resto do mundo (Foto U.S. Department of State)

Mas a crítica de Loïc Wacquant não se limita ao marketing e à manipulação patrocinada por esses institutos de pesquisa, que muitas vezes inundam os campos científico e midiático com supostos consensos empíricos. Wacquant mostra como, no mesmo período da “tolerância zero”, a cidade de San Diego, na Califórnia, conseguiu índices de redução de criminalidade tão bons e às vezes até melhores dos que os de Nova York, tendo como estratégia a “polícia comunitária”, mais preventiva, que incentivava o diálogo e a interação da população com os policiais. Fora isso, havia algumas diferenças: enquanto o modelo de Giulliani aumentou em 40% o orçamento da polícia e em 24% o número de pessoas apreendidas, o modelo californiano aumentou em 6% o orçamento e diminuiu em 15% as prisões; a outra diferença é que o projeto de Rudolph Giulilani, com o apoio dos think tanks neoconservadores, transformou-se no modelo a ser exportado para o resto do mundo, com diversas publicações científicas, traduções e campanhas publicitárias, enquanto a experiência de San Diego ficou restrita a alguns especialistas da área.

Nas últimas décadas, o Brasil vem discutindo e reestruturando sua política de segurança pública. Nesse contexto, uma das divergências clássicas se dá entre os paradigmas “repressivo” e “preventivo”, que, de forma simplificadora, podem remeter aos modelos nova-iorquino e californiano. Trata-se de um debate complexo, sem uma única resposta verdadeira, que deveria ser feito com cautela e de forma plural. Para que isso aconteça é importante ficarmos atentos às estratégias de marketing. O espaço público não deveria ser tratado como mercado publicitário.

*André Rubião, Doutor em Ciência Política (Universidade Paris 8), é membro do Centro de Estudos Sociais da América Latina (UFMG) e professor na Faculdade de Direito Milton Campos.



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5 comments

  1. Alexandre Maciel Responder

    Rubião, sou seu amigo, respeito sua opinião, mas devo dizer: sua visão “neosocialista”, está coberta de preconceito “neocomunista, “anti-liberal” e anti-responsabilidade individual. Você vive defendendo o estado (como se o estado fosse perfeito), mas quando o estado resolve agir nas únicas áreas que só ele deve agir (justiça funcionando, punindo e polícia agindo) você mete o pau. Francamente Rubião, não vejo empenho da sua parte em criticar os mensaleiros, os ministros canalhas do STF, os parasitas do erário, os funcionários públicos com milhões de privilégios, regalias e mordomias, etc. Agora vem você criticar a tolerância zero do Riudolph. Isso não é marketing meu amigo, é “case” de ação bem sucedida. Na boa, um dia seu “deus estado” vai te engolir. Prefiro o conservadorismo que limpou NY do que esse bolivarianismo bananesco que mantém as mentes e cidades brasileiras na lata de lixo. Aliás, quem é John Galt?

    1. Gabriel Rodrigues Responder

      Alexandre, não sou seu amigo, e respeito sua opinião, mas devo dizer:
      sua visão liberalesca, está coberta de preconceito fascista,
      “anti-democrático” e adepta do pressuposto que as pessoas são más ou
      boas por sua própria natureza. Você vive defendendo o Estado na sua
      dimensão mais violenta (como se o estado fosse imperfeito só para
      garantir direitos sociais e não na hora de reprimir) mas quando o Estado
      resolve agir nas áreas que garantam cidadania e perspectiva de vida às
      pessoas (como agem os Estados democráticos de bem estar social na Europa
      onde os direitos individuais são garantidos e os índices de violência
      são baixos) você mete o pau. Francamente Alexandre não vejo empenho de
      liberais como você em criticar o tucanoduto ou a privataria tucana, que
      desviou bilhões de reais, esses sim os verdadeiros parasitas do erário, e
      tampouco vejo na crítica de vocês ao STF fundamento técnico (em que o
      voto do ministro Celso Melo Está errado?). Veja só, funcionário público
      não é só os de cargos em comissão. Já viu quanto ganha um técnico em
      enfermagem? um gari? Agora vem defender a tolerancia zero do Riudolph.
      Isso é Marketing meu amigo, não é “case” porque faz correlações espúrias
      para a diminuição da criminalidade em Nova York. Na boa um dia seu deus
      mercado vai te engolir. Prefiro um estado democrático de direito que
      limpou a Europa que esse conservadorismo pseudo-democrático norte
      americano que mantém o classe média americana com o Q.I. de um babuino.

      1. Alexandre Maciel Responder

        Ainda bem que não sou seu amigo, parei de ler em “liberalesca” e que bom, não vou nem perder meu tempo te respondendo. Passar bem.

  2. Alexandre Maciel Responder

    Lá tem deveres meu amigo, direito vem depois, ao contrário dessa republica das bananas em que os imbecis só querem direitos.

  3. Omar Ramos Responder

    Gabriel Rodrigues, adorei a sua resposta ao Alexandre Maciel. Viu como os conservadores se comportam diante de respostas que lhes chegam à altura? Sempre fugindo ao debate. Ou seja, não aceitam a oposição às suas ideias. Acham que estes comportamentos de ultra-direita, fascistas, conseguem lograr êxito aqui. Não, o brasileiro é livre por natureza, por formação. Tem uma cultura, que muitos não respeitam, não falo de educação, totalmente diferente daquela dos Norte Americanos. Se lá deu certo realmente, se não foram apenas os negros, os pobres, mais ainda os negro pobres, que pagaram pelos “erros sociais”, que usufruam os seus benefícios. Aqui não obrigatoriamente. Não temos que aceitar importar padrões dos USA. Vejamos o que há de positivo e o que é negativo. À partir daí, definidos o que nós é salutar. Portanto, Gabriel Rodrigues, em relação a um ponto com verdade suprema, parabéns e tolerância zero!


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