93% dos leitores da Fórum querem a descriminalização do aborto

É interessante como os resultados mostram um número tão significativo de leitoras e leitores pró-legalização, que compreendem o aborto como uma questão de escolha e direito das mulheres sobre seus corpos

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Por Jarid Arraes

Na última terça-feira foi publicada no Questão de Gênero uma enquete com algumas perguntas sobre o aborto, com o objetivo de compreender o que os leitores da Revista Fórum pensam sobre o assunto. A enquete teve a participação de 2.551 pessoas, com predominância das mulheres. De acordo com as palavras e frases atribuídas, a maioria dos participantes enxergam mulheres que abortam como pessoas guerreiras e corajosas. Palavras relacionadas a dor, sofrimento, confusão e dificuldades foram muito comuns, assim como “liberdade” e suas variações. Foram poucos os adjetivos moralmente negativos e a maioria dos participantes expressou empatia e compreensão.

Algumas coisas são particularmente curiosas nos resultados: embora 175 pessoas tenham dito que o aborto deve continuar sendo crime, apenas 85 acham que quem fez um aborto deve ir para a cadeia. Seria interessante ouvir o que essas pessoas têm a sugerir ou explicar a respeito de seus posicionamentos. Mas o que é absolutamente assustador é que 2% dos participantes acham que uma mulher que aborta e tem complicações de saúde merece morrer. 

É interessante como os resultados mostram um número tão significativo de leitoras e leitores pró-legalização, que compreendem o aborto como uma questão de escolha e direito das mulheres sobre seus corpos. Até porque a lei brasileira já dá o direito ao aborto em casos de estupro ou risco de morte para a mãe; ou seja, seria redundante para os movimentos sociais lutar pela legalização do aborto por qualquer razão além da livre escolha.

Com isso em mente, a enquete tinha o objetivo de conhecer o posicionamento moral, empático e político dos leitores. Veja a seguir os resultados da enquete na íntegra:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É preciso compreender que quando o movimento feminista fala em descriminalização do aborto, a reivindicação é pelo aborto por escolha, devidamente regulamentado. Ou seja: se uma mulher fizer sexo consentido com alguém, descobrir que ficou grávida e não tiver condições de ter uma criança, o aborto deve ser uma alternativa. O ponto mais importante a ser mencionado é que, de certa forma, essa opção já existe: para as ricas, está nas viagens ao exterior ou nas clínicas que poderá pagar para abortar em sigilo; para as pobres, nos utensílios e substâncias químicas que podem levá-las à morte.

Não adianta encarar o assunto com hipocrisia ou fantasias: o aborto é uma realidade e continuará a ser praticado quando necessário, ainda que seja considerado crime. O que é preciso se questionar é se as mulheres devem continuar morrendo por conta de abortos clandestinos, ou se merecem acompanhamento médico legal e seguro para amparar suas necessidades.

Algumas indicações de leitura sobre o tema:

Um site com fotos de um aborto real e legalizado – sem nenhum feto dilacerado
http://www.meuaborto.com.br/

As mães também abortam
http://femmaterna.com.br/as-maes-tambem-abortam

Pela defesa da vida através da descriminalização do aborto: uma nota de apoio ao CFM
http://www.elivieira.com/2013/04/pela-defesa-da-vida-atraves-da.html

A mulher que aborta
http://blogueirasfeministas.com/2012/05/a-mulher-que-aborta/

E o desejo de ser mãe, onde fica?
http://amanditas.wordpress.com/2011/09/28/e-o-desejo-de-ser-mae-onde-fica/

Ser a favor da descriminalização do aborto é ser a favor da vida
http://www.feministacansada.com/post/35488631240

Legalizar o aborto no Brasil pelo combate ao genocídio da população negra
http://marchamulheres.wordpress.com/2013/09/25/legalizar-o-aborto-no-brasil-pelo-combate-ao-genocidio-da-populacao-negra/



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11 comments

  1. Patricia Responder

    Olá Jarid, gosto de sua coluna, mas algumas vezes leio coisas que me incomodam bastante e este artigo incomodou muito. Peço sinceramente que pense a respeito do que vou comentar agora.

    Eu acredito que a maior parte do que faz o aborto ser considerado algo polêmico é a carga que se atribui a essa palavra. Essa carga emocional pesada tem muitas origens: religiosa, cultural, e porque não, o próprio machismo.

    De alguma maneira, o fato de o feminismo transformar tb a questão do aborto em uma bandeira pelo direito da mulher de controlar a sexualidade contribui para esse excesso de cargas emocionais em torno da palavra e do tema, e acho que isso pode estar prejudicando um pouco a difusão da mensagem entre pessoas não envolvidas diretamente com estas causas.

    Vamos ao que me incomodou:

    1) “93% dos leitores da Fórum (…)” – Sim, sabemos disso. Já era esperado. Repita a mesma pesquisa com os leitores da Veja e o resultado será outro. A Fórum é claramente esquerdista e liberal, é natural que esse resultado tenha aparecido e me perdoe, mas chega a ser ridículo usar isso como argumento. Seria como perguntar, por exemplo, aos membros do PSTU se eles apoiam o socialismo.

    2) “De acordo com as palavras e frases atribuídas, a maioria dos participantes enxergam mulheres que abortam como pessoas guerreiras e corajosas.” – Entendo que sejam consideradas assim em função do contexto atual da proibição transformar o aborto em um ato de coragem, mas aqui vem o que eu falava no início deste comentário: acho realmente MUITO IMPORTANTE que o ato de abortar não seja encarado nem como algo glorioso, “uma atitude de mulher moderna e livre”, nem demonizado como um “pecado mortal”, como querem os religiosos. O aborto precisa ser visto mais friamente. Se não formos capazes disso, se feministas começarem a cercar o tema de preciosidades tanto quanto os “pró-vida”, temo que ele sempre será um tabu. E eu entendo que o que se quer é a quebra desse tabu.

    Então seria importante separar o tema das defesas mais passionais para que, analisado friamente, torne-se possível mostrar à sociedade “não engajada” que o papel das entidades contrárias ao aborto é fazer campanha em prol do que acreditam, e não campanha para garantir a imposição de seus valores mediante a força da lei.

    Enfim, o que me incomodou foi a sensação de estar lendo argumentos quase do mesmo naipe dos usados pelos religiosos. Se for pra debater a coisa no nível “mas eu quero” / “mas eu não quero”, perderemos feio. Pq em matéria de raciocínio torto e malandragem, tá cheio de religioso aí com pós-doutorado.

  2. Caio Responder

    As imagens estão tão pequenas… ou estou ficando cego. rs

    Aposto como muitos pseudo-defensores da vida vão rebater a pesquisa, assim como os machistóides rebateram a Chega de Fiu-Fiu.

    Para eles é muito difícil enxergar o óbvio, que mulheres estão morrendo, e mulheres pobres, negras em sua maioria, sendo deixadas à míngua pelo governo e pela sociedade.

    1. Vanessa Diáspora Responder

      Pra ver as imagens maiores eu cliquei em casa uma e abri numa nova abra, Caio, acho que pode ajudar. ;)

      E realmente vai ter gente falando bobagem. As opiniões ruins e votos contra tbm estão aí, basta ver, agora se a maipria votou favorável fazer o que, minha galera? Eu votei favorável.

      Mais enquetes como essa deveria fazer parte da Fórum e de outras revistas e sites, sério.. façam mais!

    2. Natália Responder

      Caio, clica em cima de cada gráfico que eles aumentam =)

    3. Monique Responder

      Caio, é só clicar nas imagens que elas aumentam.

  3. Rosa Mattos Responder

    Nunca vou entender quem é contra o aborto mas não se dá ao trabalho (que na verdade é o MÍNIMO) de pesquisar sobre o verdadeira ‘inicio da vida’….

    Fico feliz por ver que os leitores votaram a favor da legalização.. eu na verdade votei a favor tbm, mas como já luto por isso há muito tempo sempre fico na expectativa.

    PARABÉNS PELA INICIATIVA!! Abraços.

  4. Cristiane Sanzoni Responder

    Muito reconfortante ler este resultado. Infelizmente estive em viagem e voltei há pouco, devido a isso não pude votar na enquete, porém certamente meu voto seria igualmente favorável a descriminalização do aborto.

    Aliás, em muito me agrada ver um blog feminista na Revista Fórum, a qual leio desde seu início. Tenho para mim que é preciso bater muito mais na tecla do gênero.

    Espero que essas pessoas que votaram pela morte das mulheres (tanto as que votaram contra o aborto em si quanto as que disseram que a morte de uma mulher é merecida) refliam um pouco mais; já fui contrária ao aborto e tornar-se uma pessoa mais esclarescida custou tempo, porém foi um tempo perdido em que não busquei aprender sobre aborto. Após me interessar e me informar, minha opinião mudou.

    Graças a Deus.

  5. Lili dos Santos Responder

    Sou a favor da descriminalização do aborto, cabe a cada um decidir sobre essa questão. Porém, sinto falta de perceber, junto à reivindicação pró-aborto, cobranças incisivas sobre uma política de educação sexual e métodos contraceptivos compromissada. Seria muito mais interessante que grande parte das mulheres, sobretudo, adolescentes, soubesse evitar uma gravidez indesejada. Aborto seria uma segunda opção, a qual costuma ser delicada e até traumática (não estou referindo-me a quem fez aborto em locais precários).

  6. marcio ramos Responder

    … o aborto me salvou… quando eu tinha 16 anos transava com a Fernandinha que ate hoje nao esqueço e ela tambem tinha 15… ela sumiu dois meses e eu fiquei sabendo depois que ela abortou com a ajuda de uma tia que pagou o medico… fiquei aliviado demais e ela tambem eu mesmo nunca tive filhos a Fe teve 2 meninos depois ja mulher… o aborto me salvou, não nasci pra ser pai embora pense que as crianças são o ápice do desenvolvimento humano…

    … legal seu texto.

  7. mauricio Responder

    vai procurar marido!!!!!!!!

  8. CarollynhaXD2000 Responder

    É fácil falar que “ah, você é uma assassina por tirar a vida de um ser vivo!”, mas a barriga é de quem? Quem é que vai sofrer com as dores nas costas, a dor do parto (cesariana tem a cicatriz e o pós-operatório, sem falar que é uma cirurgia de risco), e com o ESTIGMA SOCIAL da mulher que dá seu filho pra adoção, que fica grávida jovem ou solteira? Se é assim “não quer ter filhos não transe” então vamos todos parar de transar porque não desejamos ter filhos! Sexo não é só para o fim de procriação, e se acontece da camisinha furar ou os métodos contraceptivos falharem, a mulher não tem a obrigação de continuar essa gestação e ter uma criança indesejada que pode afetar, em muitos aspectos, a sua vida. E esse papo de “fala isso porque já nasceu” tá mais que furado, porque se eu soubesse que meu nascimento poderia e iria prejudicar a vida da minha mãe, eu escolheria ser abortada. Tá mais que na hora da mulher ter direitos sobre seu próprio corpo, e um deles, dos mais importantes, é o direito de continuar ou não gestando e alimentando um embrião.


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