Mães e profissionais relatam a desumanização do parto

Prática é característica de um processo que alguns críticos chamam de método “fordista” do nascimento, ou seja, partos mecanizados, realizados em uma espécie de linha de produção

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Prática é característica de um processo que alguns críticos chamam de método “fordista” do nascimento, ou seja, partos mecanizados, realizados em uma espécie de linha de produção

Por Simone Freire, do Brasil de Fato   

(Foto: Marcelo Camargo / ABr)

Salas frias, presença de pessoas estranhas, falta de liberdade de decidir onde e como ficar, descaso, além de medicação excessiva e rotineira. Estas são características da maioria dos partos realizados no Brasil, entre eles, o de Daniele Ribeiro Marcondes, de 17 anos. Grávida de seu primeiro filho, a jovem viveu o que alguns especialistas e ativistas chamam de “desumanização” do parto.

No último sábado de maio, com 41 semanas de gestação, Daniele retornou pela segunda vez consecutiva ao Hospital Municipal Universitário, em São Bernardo do Campo, área metropolitana de São Paulo. Logo pela manhã, pouco tempo depois de dar entrada no HMU, Daniele soube que teria que ser transferida, pois o hospital não tinha condições de atendê-la.

Ela e outras gestantes esperaram por horas por um transporte. “Uma menina teve que ganhar lá mesmo [no HMU] porque a bolsa estourou. Ela estava em pé do meu lado esperando a ambulância chegar para buscar a gente”, conta.

De São Bernardo, ela seguiu para o Hospital Estadual Serraria, no município vizinho, em Diadema. Já internada, fez exames e, no início da tarde, ainda não apresentava dilatações para um parto natural, recomendado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Perguntei se podia fazer uma cesária e ele [o médico] disse que não porque ia correr riscos”, disse.

Para induzir suas dilatações ela foi medicada com um “comprimido” que não soube identificar. Embora a indução de dilatação do útero por meio de medicamentos seja uma prática já considerada comum dentro dos hospitais, sejam particulares ou públicos, para alguns especialistas o processo é equivocado, pois, além de aumentar a dor da gestante, aumenta a sua tensão, bloqueando de vez as dilatações e o processo natural do parto.

O cansaço e a impaciência aumentavam na mesma proporção que as dores. Somado a isso, ainda sem dilatações suficientes, ela foi medicada novamente. “Lá para as duas da manhã eu fiz muita força para estourar a bolsa. Pensei que ia dar pra fazer um parto normal”, disse.

Infelizmente, o cordão umbilical do bebê desceu primeiro que ele e poderia enrolar o seu pescoço. “Quando a enfermeira viu que o cordão umbilical estava descendo teve que chamar a médica. Mas ela demorou uns 10 a 15 minutos para vir para o quarto porque estava dormindo”, relembrou.

Em seguida, Daniele foi levada às pressas para a sala de cirurgia. Seu filho nasceu, mas, infelizmente, o cordão umbilical bloqueou por algum tempo a passagem de ar para o cérebro ocasionando a perda da sua visão. Até o fechamento desta reportagem, ele já havia passado por uma cirurgia e estava internado em estado estável.

Daniele e a família acreditam que houve erro médico durante o atendimento e o procedimento do parto e pretendem processar o hospital. 

Humanizado

O parto natural é o mais aconselhado pelas entidades médicas, pois oferece, entre outras vantagens, menos riscos de infecção, hemorragia e prematuridade do bebê. No entanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que muitas das práticas realizadas nos partos normais podem ser prejudiciais.

Na lista de procedimentos comuns durante o parto que são questionados pela OMS estão a raspagem e aplicação do clister, o uso da oxitocina, a quase obrigação de dar à luz deitada e imobilizada, a ruptura da bolsa por rotina, os puxos dirigidos na fase de expulsão, a medicação para expulsar a placenta e a exploração do útero depois do parto.

Neste sentido, com ou sem erro médico, casos como o de Daniele, segundo alguns ativistas e especialistas da área da saúde, refletem a crescente e despercebida “desumanização” do parto que chega a descaracterizá-lo como um processo natural da mulher.

“A rotina de qualquer mulher que chega em um hospital público é tirar a roupa, colocar uma camisola, ir para o centro obstétrico, ficar deitada e colocar soro. Com seis centímetros rompe a bolsa dela, manda ela fazer força, deitar com as pernas pra cima e amarrada, empurram a barriga, cortam a vagina dela. Quer dizer, isso não é um parto normal! Mas os médicos acham que isso é um parto”, questiona a obstetriz Ana Cristina Duarte, coordenadora do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (GAMA).

Esta rotina, intrínseca à questão da violência contra a mulher, vai além dos muros dos hospitais públicos. Segundo a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, realizada em 2010, pela Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres que realizou parto natural tanto na rede pública quanto na privada sofreu algum tipo de violência no atendimento. Entre as possíveis formas de abuso relatadas, as mães citaram exame de toque doloroso, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais, negativa de atendimento, humilhações, entre outros. 

Fordismo

A desumanização do parto é característica de um processo que alguns críticos chamam de método “fordista” do nascimento, ou seja, partos mecanizados, realizados em uma espécie de linha de produção e que visa o lucro. Não à toa, entre outras questões, a vantagem financeira tem contribuído para o aumento de cesarianas no país.

Em 2011, segundo o Ministério da Saúde, mais da metade dos nascimentos no Brasil foram feitos por cesarianas. O dado extrapola a recomendação da OMS para que apenas 15% dos partos sejam feitos por este método.

“Os planos de saúde pagam por volta de R$ 300 por um parto. Não compensa financeiramente para o médico conveniado. A solução é marcar mais de uma cesárea num só dia, sem comprometer o consultório e a vida privada”, explica Ana Cristina.

Para ela, a cesariana acaba sendo, de longe, o mais lucrativo dos procedimentos de maternidade e a questão da estrutura dos hospitais privados também vai de encontro a esta lógica.

“Os hospitais não só recebem mais dos planos de saúde por esses procedimentos como também conseguem maximizar o uso dos leitos. Convém lembrar que a UTI neonatal e os banhos de luz são igualmente muito bem remunerados pelos seguros e planos”, ressalta. 

Alternativa

Na contramão deste processo fordista, mães, ativistas, especialistas da saúde, entre outros, militam pelo parto humanizado, um “conceito de assistência” que vai além de apenas tratar bem a gestante. Baseado em evidências científicas e nas recomendações da Organização Mundial da Saúde, o método preza o menor número de intervenções possível para a mãe e o bebê, além de proporcionar liberdade e um ambiente acolhedor para a mãe, ou seja, fora de um hospital e, na maioria das vezes, sem a presença de um médico.

“Se a mulher não tem patologia e não corre riscos, não tem nenhuma justificativa. Ela pode ter o bebê dentro de um ambiente menos invasivo e menos ameaçador”, explica Ruth Osava, professora de obstetrícia da Universidade de São Paulo (USP) e ex-diretora da Casa de Parto de Sapopemba, espaço que prioriza a assistência ao parto.

A Casa, fundada em 1998, foi o primeiro espaço público de assistência ao parto humanizado no Brasil, e atualmente é o único mantido pelo SUS, em São Paulo. O processo nas Casas é bastante específico. Durante o trabalho de parto, as gestantes são aconselhadas a utilizar métodos de alívio da dor e que facilitam a saída do bebê, ensinados durante o pré-natal e as reuniões de grupo. Também é característico das Casas a presença de uma doula, acompanhantes que dão dicas e recomendações para a mãe.

“A mulher participa de um grupo de acolhimento onde explicamos como funciona a Casa. Quando ela faz a primeira consulta nós fazemos uma avaliação de risco que vai levantar todo o histórico dela, se está fazendo pré-natal e verificamos os exames”, explica Franciely Schermak, enfermeira obstetra e responsável técnica da Casa Ângela, criada pela Associação Comunitária Monte Azul.

Financiada, mas invisível

As Casas de Parto foram oficializadas em agosto de 1999, por meio da Portaria 985 do Ministério da Saúde, de autoria do então ministro José Serra. Neste mesmo ano foi criada a Casa de Parto de Sapopemba, anexa a Unidade Básica de Saúde Reunidas I, no bairro São Lucas, zona leste de São Paulo.

Diretora da Casa até 2003, a professora de obstetrícia da Universidade de São Paulo (USP), Ruth Osava, alerta para a invisibilidade que a Casa adquiriu nestes últimos anos. Para ela, há uma censura na Casa uma vez que os próprios funcionários não podem fazer divulgação ou outra ação de promoção do trabalho desenvolvido. Uma postura iniciada em 2003, depois da troca de gestão da administração da Casa e da Prefeitura, na época, no comando do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Ruth ainda menciona a questão da importância da realização de trabalho acadêmicos dentro da Casa. “Se eu não me engano, só até 2009 foram permitidas pesquisas, que são importantes pois vão de alguma maneira constatar a segurança ou não das Casa de Parto”, afirma.

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que segue um fluxo de solicitações de pesquisas ressaltando que por se tratar da área da saúde, todos os trabalhos precisam ser apresentados com um ofício da instituição de ensino e submetidos ao comitê de ética da Secretaria.

No entanto, questionada se há algum trabalho sendo desenvolvido no momento, a SMS apenas respondeu que “não possui um número que identifique a  quantidade de trabalhos acadêmicos realizados em suas dependências”.

Desde a sua fundação, a Casa de Parto de Sapopemba realizou mais de 4.500 partos. No entanto, o número de partos por ano reflete o processo de invisibilidade e tem caído. A Casa atingiu um ápice de 449 partos realizados no estabelecimento em 2003. Dez anos depois, o número caiu mais que a metade quando foram realizados 160 partos.



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