Há 46 anos, Che Guevara era assassinado

Mesmo sob o risco de banalização pela superexposição de sua figura, o original pensamento revolucionário de Guevara permanece uma referência mundial, 46 anos após a sua morte

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Esta matéria faz parte da edição 55 da Fórum.

Che, além da imagem

Mesmo sob o risco de banalização pela superexposição de sua figura, o original pensamento revolucionário de Guevara permanece uma referência mundial, 46 anos após a sua morte

Por Glauco Faria

De repente, o portão não resistiu, cedeu. Uma multidão furiosa partiu pra cima de Guevara, como se fosse estraçalhar o corpo. A polícia assistiu, inerte, como que gostando. A três metros do cadáver, no entanto, como se obedecesse a uma ordem muda, a turba estancou. Podia então ver um rosto terno, calmo, desprotegido, quase sorrindo. ‘Então era esse o demônio de que nos falavam?’. As mulheres foram se destacando, tomando a frente. Logo uma disse: ‘que magro!’. Uma outra sussurrou: ‘Tan lindo!’. Uma terceira: ‘Es como Cristo!’. Sem ninguém para dar ordem, a multidão de mulheres e homens rudes, humildes, entrou em fila organizada para passar, serenamente, diante daquele corpo, como se faz em guarda de morto querido”.

A narração acima é da jornalista Helle Alves e está no livro Jornalistas: 1937 a 1997, escrito por José Hamilton Ribeiro. Além do furo internacional – a jornalista, o fotógrafo Antônio Benedito Moura e o cinegrafista Walter Gianello foram os primeiros a reportar a morte de Che – aquele era o primeiro impacto que um dos maiores nomes da esquerda mundial causaria após sua morte. Mas não foi só uma legião de camponeses bolivianos que mudou sua concepção de mundo a partir dele. Embora sua imagem seja forte em todo o planeta, nem todos sabem a extensão do seu legado, principalmente no campo do pensamento político e da interpretação do marxismo, sendo mais notável a sua figura de herói rebelde.

No campo político, um dos principais desafios de Che foi lutar contra o dogmatismo e o burocratismo do sistema soviético, em especial fazendo o contraponto ao stalinismo. Ele alertava para os riscos que Cuba corria ao absorver aspectos que condenava em abril de 1962. “Surgiu em todo o país como um vício nefasto que devemos banir por completo: o afastamento das massas, o dogmatismo, o sectarismo. Por sua causa, o burocratismo nos ameaçava”, diz em seus Textos Políticos.

“O internacionalismo revolucionário, combinado por um sentimento de justiça, o manteve eqüidistante tanto do capitalismo quanto do socialismo soviético”, explica Frei Betto. “Estive três vezes na União Soviética e sou testemunha de que o nome do Che fora proscrito pela nomenklatura. Referia-se a ele como ‘terrorista’. Isso porque, na Conferência de Argel, no início dos anos 60, ele criticou o ‘social-imperialismo da URSS’”, completa. Betto se refere ao famoso “discurso de Argel”, feito em fevereiro de 1965, que evidencia a ruptura de Che com a URSS, e também se trata de uma crítica à política cubana.

Àquela altura, Cuba discutia acordos comerciais com os soviéticos. Che, apesar de reconhecer no discurso o aumento do fornecimento de açúcar ao Leste Europeu, ressaltava que os meios de pagamento eram deficitários para Cuba, reproduzindo de alguma forma os termos de intercâmbio clássicos entre os países centrais e periféricos (um fornece equipamentos e máquinas enquanto o outro fornece matérias-primas). A diferença é que isso se estava dando não entre nações capitalistas e sim socialistas.

“Como se pode chamar de ‘benefício mútuo’ a venda, aos preços do mercado mundial, de produtos brutos que custam aos países subdesenvolvidos esforços e sofrimentos sem limite e a compra, também aos preços do mercado mundial, de máquinas produzidas nas grandes fábricas automatizadas da atualidade?”, criticava. “Se estabelecermos esse tipo de relacionamento entre dois grupos de países, temos que reconhecer que os países socialistas são, até certo ponto, cúmplices da exploração capitalista.”

As críticas que já fazia internamente em Cuba agora eram ditas em alto e bom som em uma conferência internacional, com a presença de observadores soviéticos. E era coerente com falhas que Che tinha atentado no pensamento de Marx, uma omissão de dois elementos considerados fundamentais por ele: a teoria do imperialismo e a da pauperização.

De acordo com Manolo Monereo Pérez, em seu Che Guevara: Contribuição ao Pensamento Revolucionário, o revolucionário “considera que um dos erros mais graves de Marx é não levar em conta, em sua análise do capitalismo, o imperialismo e seu caráter polarizador; e, portanto, não situar no centro a contradição entre países imperialistas e países subdesenvolvidos ou dependentes e como esta contradição afeta a oposição entre capital e trabalho nos paí­ses centrais. Partia da análise de Lênin quanto a uma ordem hierárquica e um desenvolvimento desigual da cadeia imperialista”.

“Che rejeitou os modelos da Europa Ocidental de um socialismo que clama a ‘conquistar o capitalismo com seus próprios fetiches’”, esclarece Peter McLaren, professor da Universidade da Califórnia. “Também desafiou a visão economicista do socialismo, que considerava a esfera econômica como um sistema autônomo governado por suas próprias leis e valores ou pelo mercado, com uma visão mais política do socialismo, que coloca a idéia de que os preços e a produção são baseados em critérios sociais, éticos e políticos. O marxismo de Che era, nesse aspecto, essencialmente antidogmático.”

No discurso da Conferência de Argel, ele criticou ainda o que chamava de falta de “solidariedade internacional” em relação a países como o Vietnã, que pouco antes começara a ser bombardeado pelos estadunidenses, atacando de forma indireta a URSS e também a China. De novo, nada mais coerente com uma linha concebida por ele e adotada de forma prática.

O novo homem

Michel Löwy, em seu O Pensamento de Che Guevara, compreende que a interpretação de Che a respeito de O Capital, consegue resgatar a dimensão humana da obra de Marx, entendendo que isso não contraria seu caráter científico, “mas, pelo contrário, se encontra dialeticamente ligado a ele”. Isso fica claro em seus Textos Políticos, onde diz: “O peso desse monumento da inteligência humana é tal que nos faz esquecer freqüentemente o caráter humanista (no melhor sentido da palavra) das suas preocupações. O mecanismo das relações de produção e sua conseqüência, a luta de classes, escondem, em certa medida, o fator objetivo de serem os homens que se movem na atmosfera histórica”.

De acordo com Löwy, Che distingue o humanismo de Marx de outros tipos de humanismo: o filantrópico, o burguês e o cristão tradicional. Para o autor, “tanto o humanismo de Che como o de Marx estão ‘empenhados’ explicitamente numa perspectiva da classe operária, contra todo o humanismo abstrato que se pretende ‘para além das classes’ (e que é, em última análise, burguês); opõem-se, pois, radicalmente, ao ‘mau humanismo’ por essa premissa fundamental: a libertação do homem e a realização das suas potencialidades não podem ser alcançadas senão pela revolução proletária, que elimina a exploração do homem pelo homem e instaura o domínio racional dos homens sobre seu processo de vida social”. Esse pensamento iria, aliás, ao encontro de Rosa Luxemburgo, que reconhece uma moral humanista do marxismo, mas observa que toda moral e todo humanismo tem, necessariamente, um caráter de classe, enquanto não for instaurado o comunismo.

Mas como definir o humanismo de Che diante de alguém que, ao mesmo tempo, defende a “morte impiedosa do opressor”? Essa aparente contradição é feita reiteradas vezes principalmente por políticos ligados à direita que, em geral, vêem sentido em ditaduras alinhadas a sua postura política mas tratam do revolucionário como “terrorista”. Löwy não vê tal contradição já que, para o humanismo revolucionário, a guerra empreendida pelo povo é a única resposta necessária e a única possível dos oprimidos contra os opressores que patrocinam a violência institucionalizada.

“Na atual conjuntura latino-americana, a luta armada só interessa aos fabricantes de armas e à extrema direita. No entanto, como princípio, defendido por Santo Tomás de Aquino e o papa Paulo VI na encíclica Populorum Progresio, ela é legítima, desde que não reste ao povo outro recurso para demover o tirano senão a legítima defesa das armas. Essa é uma interpretação humanista da tradição judaico-cristã, incorporada pelo marxismo”, entende Frei Betto.

Peter McLaren tece uma consideração interessante a respeito de como a teoria revolucionária de Che foi absorvida inclusive por setores católicos na América Latina. “Figuras religiosas como Dom Helder Camara e Oscar Romero falaram de ‘trindade de sangue’, três níveis de violência: violência estrutural, violência revolucionária e, por fim, reacionária”, explica. “O primeiro nível, ou violência do ‘pai’, seria a opressão social, econômica, política, do sistema militar e de arranjos, codificada na lei e nos hábitos e que é responsável por dezenas de milhares de mortes de inocentes em todo mundo diariamente. A violência revolucionária, o segundo tipo, ou violência do ‘filho’, seria a resposta à violência de primeiro nível, a estrutural. A reacionária, ou ‘diabólica’, consistiria na resposta do Estado a atos de revolta contra a violência estrutural”, descreve.

Ainda segundo o professor, a revolucionária é a única violência que pode ser justificada, pelo menos teoricamente, como forma dos trabalhadores defenderem suas famílias da agressão exercia pelos representantes ricos da violência de primeiro e terceiro níveis. “Mesmo a figura de Jesus revela alguma simpatia com os objetivos da violência de segundo nível, já que ele era bastante simpático à insurreição contra a ocupação romana, embora tenha praticado a resistência da não-violência”, pontua.

Luiz Bernardo Pericás, em Che Guevara e o Debate Econômico em Cuba, acredita que esse tipo de enfoque pode levar à interpretação de Che como um homem conduzido por inspirações éticas ou quase “religiosas”. Ele adota a definição do cubano Raúl Fornet-Betancourt como a que melhor expõe a relação entre Guevara e o que entende por humanismo revolucionário. “Já que, segundo Guevara, o comunismo de Marx representa um programa humanista, cuja especificidade consiste em que este ‘objetivo de humanidade só pode ser alcançado conscientemente’, ele interpreta a teoria de Marx no sentido do humanismo e do novo homem, para, com isso, acentuar precisamente a decisiva importância da subjetivação do homem no desenvolvimento histórico, como resultado de um processo conscientemente executado de auto-libertação. Pois o humanismo do novo homem significa, para Guevara, progresso no curso daquela dialética da emancipação que, exatamente, é libertadora porque é executada pelo homem concreto na sua situação histórica”.

A imagem que perdura

A presença de Che ainda pode ser vista em inúmeras citações por líderes de esquerda de todo o mundo, em camisetas e objetos dos mais variados e também na produção cultural principalmente dos países da América Latina. Um feito para alguém morto há 40 anos. No entanto, é na América Latina que o revolucionário deixa sua impressão mais forte. Che é citado freqüentemente, por exemplo, pelo presidente venezuelano Hugo Chávez como um dos inspiradores de seu “socialismo do século XXI”. Ele ainda se faz notar em inúmeras outras áreas.

É importante ressaltar que outra contribuição importante de Che à esquerda é justamente o fato de ter sido um dos primeiros teóricos do marxismo a deslocar o foco do setor urbano e dar importância fundamental aos camponeses. Isso explica o fato de ter influenciado a Frente Sandinista na Nicarágua, o exército zapatista no México e o MST no Brasil. Cada qual adaptou a sua maneira os ideais guevaristas, mas a sua marca é nítida em todos eles.

“A sua presença no imaginário latino-americano se deve à força e à multiplicidade de representações que o cerca: há muitos ‘Ches’: Che mártir, herói, santo, guerrilheiro, irmão etc. Isso ocorre após sua morte e a divulgação, muito impactante, da foto de seu cadáver, seu rosto com expressão sofrida e os olhos entreabertos, que lembra muito a imagem de Cristo”, analisa a historiadora Mariana Villaça. “Sua figura passa a ser moldada às ansiedades de cada contexto de luta política: para a esquerda cristã, ele é o exemplo de homem abnegado, humilde, solidário; para os grupos guerrilheiros ele é o soldado implacável, eficiente, que conhece as montanhas e sabe usar como ninguém sua metralhadora, e assim por diante”.

Villaça elaborou uma tese de doutorado que tem como tema As Representações de Che Guevara na Canção Latino-Americana e descreve também como ele enxergava o papel dos artistas na luta revolucionária. “Che partia do princípio de que, em geral, os artistas e intelectuais não eram revolucionários autênticos, pois haviam sido marcados pela formação burguesa, então, esses segmentos deveriam se livrar dessa mácula nociva que ele chamava de ‘pecado original’ e para isso deveriam trabalhar a serviço da revolução em qualquer função que lhes fosse atribuída, esquecer suas expectativas individuais, a liberdade formal, as buscas estéticas, os experimentalismos, a fim de promover a educação do povo através de uma arte pedagógica”, conta. “Naturalmente, sua ideologia deve ser contextualizada: nos anos 60, em Cuba, a prioridade ‘zero’ era fazer a revolução ter êxito e se manter a todo custo”.

Em relação às inúmeras canções que se inspiram em Che, Villaça observa que “pelo que averiguei, muitas músicas sul-americanas exaltam o mártir, com uma aura cristã (que é diferente do herói ou do militante): se fala de Che como daquele que deu a vida conscientemente, em sacrifício, para defender o povo. Mas em Cuba, por exemplo, a imagem recorrente nas canções é a do herói que morreu em plena luta, o ‘comandante’, o bravo revolucionário que precisa ser vingado”, explica, lembrando que as canções proliferam principalmente após sua morte, com uma significativa produção que se inicia no fim de 1967 e avança por todo o ano de 1968, embora se estenda por anos.

Pela recorrência de sua imagem em produtos como camisetas e outros objetos, estaria a imagem de Che sendo banalizada em detrimento de suas idéias? O sociólogo Emir Sader é peremptório ao afirmar que não. “Che ainda permanece hoje por conta de sua idéia de rebeldia, indignação moral e militância generosa, pelos seus critérios políticos e éticos e, principalmente, pela sua audácia revolucionária”, assegura. Ele refuta que sua figura tenha sido absorvida pela sociedade de consumo. “A imagem dele é diferente da de um Michael Jordan ou do Ronaldinho Gaúcho. É justamente por passar um ideal de rebeldia que faz com que ele seja a imagem mais vista do mundo”, acredita.

Já Frei Betto tem uma avaliação mais cautelosa. Ele acredita que “o sistema aprendeu que cooptar um símbolo é a melhor maneira de neutralizar seu significado. Assim, faz de Francisco de Assis um mero amigo dos animais e pioneiro da ecologia, encobrindo seu gesto contra o capitalismo nascente; de Gandhi um mero pacifista, encobrindo sua luta contra o império britânico; de Che um retrato charmoso estampado na camiseta, encobrindo sua opção revolucionária pela libertação da América Latina”.

“Por que a vida de Che virou uma commodity de modo tão intenso? Porque se segue o mesmo processo de tentar transformar em mercadoria até o ar que respiramos”, ironiza Peter McLaren. Ele acrescenta que é importante, apesar disso, permanecer tendo os ideiais guevaristas como um farol para o ideário da esquerda. “Ele buscou criar as condições necessárias para uma sociedade qualitativamente diferente da capitalista, uma alternativa verdadeiramente libertadora ao capital em todas as suas formas, uma revolução total que poderia transcender o valor do trabalho”, diz. “Che não viveu para ver sua missão completa e é pouco provável que nós vivamos para isso, o que não significa que possamos diminuir nossos esforços. Na verdade, devemos aumentá-los para trazer um futuro socialista trabalhando para construir uma sociedade socialista no presente.”

O maior político argentino do século XX

Embora tenha se notabilizado pela trajetória construída fora da Argentina, onde nasceu, Che Guevara foi eleito por seus conterrâneos o maior político e personagem histórico do século XX no país. Ele obteve 59,8% dos votos dos 2 milhões de participantes de uma enquete realizada pelo programa de televisão “El gen argentino”. Ele deixou para trás nomes como o de Evita Perón e também de seu marido, Juan Perón, que comandou o país em três ocasiões distintas.

Mariana Gainza, natural de Buenos Aires e doutoranda em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), esclarece que a figura do revolucionário foi resgatada em seu país juntamente com o colapso do modelo neoliberal no fim dos anos 90. “Ele foi resgatado como um ícone quando o povo saiu às ruas. Houve uma grande aceitação dele em vários grupos com diferentes orientações”, conta. “Acredito que isso aconteceu para se poder refletir sobre as mudanças que tinham que ser feitas e pelas idéias e nobreza que ele inspirava.” F



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