Voz poderosa, mas esquecida

Milton Santos de Almeida, mais conhecido como Miltinho, fez muito sucesso nos anos 1960, cantou em parceria com Elza Soares e Doris Monteiro e foi artífice de uma música brasileira quente, corpulenta, híbrida de samba e jazz com suingue negro

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Milton Santos de Almeida, mais conhecido como Miltinho, fez muito sucesso nos anos 1960, cantou em parceria com Elza Soares e Doris Monteiro e foi artífice de uma música brasileira quente, corpulenta, híbrida de samba e jazz com suingue negro

Por Pedro Alexandre Sanches

Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.

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“Cara de palhaço/ pinta de palhaço/ roupa de palhaço:/ foi esse o meu amargo fim.” Apesar dos versos autodepreciativos, quem estava cantando, no longínquo ano de 1961, era um dos maiores intérpretes masculinos de nossa história. Falamos de um Brasil que saíra do governo de Juscelino Kubitschek e vivia o exato instante de ascensão-e-queda do presidente aloprado Jânio Quadros, rumo a João Goulart, rumo a uma ditadura civil-militar de pelo menos duas décadas.

“Estavas roxa por um trouxa pra fazer cartaz/ na tua lista de golpista tem um bobo a mais”, dizia a letra de “Palhaçada”, escrita pelo compositor carioca Luís Antônio (1921-1996), também coronel do Exército e também autor dos clássicos carnavalescos “Sassaricando” (1952, “sassassaricando/ todo mundo leva a vida no arame”), “Lata d’água” (1952, “lata d’água na cabeça/ lá vai Maria) e “Eu bebo sim” (1973, “eu bebo, sim/ estou vivendo/ tem gente que não bebe e está morrendo”).

Você e eu não nos lembramos muito bem do intérprete de “Palhaçada”, Milton Santos de Almeida, mais conhecido como simplesmente Miltinho, assim mesmo, nesse esquisito diminutivo talvez depreciativo. Nascido no Rio de Janeiro em 1928, ele segue vivo ainda hoje, embora quase nem pareça. O selo conterrâneo Discobertas se encarrega de nos refrescar a memória sobre Miltinho, nas duas caixas de CDs Miltinho – Anos 60, com 12 álbuns originalmente gravados entre 1960 e 1965 (ou seja, dois por ano, no mínimo). “Ele não tem saído mais de casa e a saúde está bem debilitada. Me pediram que não marcasse nada”, responde o dono do Discobertas, Marcelo Fróes, a um pedido de entrevista.

Por que Miltinho se tornou um segredo, mesmo ainda vivo, mesmo depois de todo o sucesso que teve, mesmo após as explosivas séries de discos em dupla com Elza Soares (três álbuns entre 1967 e 1969) e Doris Monteiro (quatro LPs entre 1970 e 1973)? Elza é elo perdido que atravessa décadas entre inúmeros altos e baixos. Doris, como Miltinho, também segue viva e transformada em pequenino mistério. Os três foram (são) artífices de uma música brasileira quente, corpulenta, híbrida desconcertante de samba com jazz com balanço com suingue negro.

Particularmente, o vozeirão suave cheio de “sambalanço” de Miltinho imperou nas paradas dos anos 1960 com sucessos alegretristes como “Palhaçada”, “Ri” (1960), “Mulher de 30” (1960), “Poema do adeus” (1961), “Poema das mãos” (1962), “Só vou de mulher” (1962), “Canção da manhã feliz” (1962) e outros sambas quase sempre suingados. “Luminosa manhã/ por que tanta luz?/ dá-me um pouco de céu/ mas não tanto azul”, pedia a “Canção da manhã feliz” (de uma dupla de compositores constante em seu repertório, Haroldo Barbosa e Luiz Reis), indecisa e choramingosa entre o muito e o pouco.

O “bim bom” e o “pim pom”

Mas por que mesmo o que era sólido pode se desmanchar no ar com tamanha facilidade no seio dessa nossa música popular brasileira? Este texto tem caráter analítico, e não de reportagem, portanto não dará conta de respostas, a não ser as de especulação. Uma resposta possível entre muitas se encontra em outra canção interpretada por Miltinho, mas jamais transformada em sucesso popular.

O pequenino segredo chama-se “Samba sem pim pom” e foi escrito por Jair Amorim e Evaldo Gouveia, autores de “Alguém como tu” (1952), “Conceição” (1956), “Alguém me disse” (1960), “Brigas” (1961), “Sentimental demais” (1964) e outros temas românticos, de fossa, imortalizados nas vozes de Angela Maria, Cauby Peixoto, Maysa, Altemar Dutra, Jair Rodrigues, Wilson Simonal etc.

Diz assim o matreiro, mas tristonho “Samba sem pim pom”, gravado por Miltinho em 1963: “Dizem que o samba já mudou/ e em bossa nova se virou/ bobagens ditas por alguém/ pois o samba sendo bom/ todo samba bossa tem./ Chapéu de palha ele já foi/ e agora traje de rigor/ quiseram pôr o ovo em pé/ de sandália ou de gravata/ samba é samba quando é./ Meu sambinha é bom/ sem precisar pim pom”.

É óbvia a referência a “Bim bom” (1959), uma das pouquíssimas composições de punho próprio de outro dos maiores intérpretes masculinos da história brasileira, João Gilberto. “Bim bom, bim bim bom, bim bom, bim bim bom bim bim:/ é só isso meu baião/ e não tem mais nada, não/ o meu coração pediu assim/ só bim bom, bim bim bom…”, cantava o pai da invenção bossa-novista em seu primeiro LP, Chega de saudade. Miltinho, percebe-se, tentava ser contrarevolucionário ao contrapor “bim bom” com “pim pom”. Você e eu sabemos quem venceu a guerra.

Deve haver antecedentes mais antigos nas divergências entre os dois cantores. Miltinho foi, a partir de 1946, um dos vocalistas do conjunto Namorados da Lua, ao lado de um dos mais importantes precursores da bossa nova, Lúcio Alves (1927-1993). Em 1948, Miltinho passou a integrar os Anjos do Inferno, com os quais chegaria a atuar ao lado de Carmen Miranda (1909-1955) em Los Angeles. João, por sua vez, se tornaria solista do conjunto vocal Garotos da Lua em 1949.

Ao longo da década de 1950, Miltinho se tornou crooner da Orquestra Tabajara de Severino Araújo e dos Milionários do Ritmo de Djalma Ferreira, enquanto João gestava subterraneamente, por descaminhos, a voz e a batida de violão que explodiria como bossa nova a partir de 1958.

O período de Miltinho no grupo dançante de Djalma Ferreira (1913-2004) também acaba de ser documentado pelo selo Discobertas, na caixa de sete CDs Drink no Rio de Janeiro etc. – Anos 50. Ali, o sambalanço virtuoso do futuro intérprete-solo surge episodicamente, em interpretações suaves e seguras de standards norte-americanos como “Love is a Many Splendored Thing” e “Lady Be Good” e brasileiros como “Mulata assanhada”, de Ataulfo Alves, e o apaixonante “Lamento”, de Djalma e Luís Antônio.

O que estava acontecendo na música nacional daqueles instáveis anos 1950? O canto de peito aberto de ícones como Francisco Alves, Dalva de Oliveira e Nelson Gonçalves cedia lugar, pouco a pouco, à calma e à discrição vocal de Lúcio Alves, Dick Farney, Dolores Duran e outros. A evolução das tecnologias de gravação permitia que os intérpretes não precisassem mais cantar a plenos pulmões, o que João Gilberto, nascido três anos depois de Miltinho, viria a radicalizar com seu sopro de voz.

O intérprete de “Palhaçada” também se deu conta da guinada do vozeirão para o vozeirinho, mas jamais deixou de ser um híbrido, um cantor sutil que não gostava de abrir mão dos recursos do vozeirão que possuía. Coisa mais ou menos equivalente aconteceria a partir de meados dos anos 1960 com a gaúcha Elis Regina (1945-1982), que viveria e morreria tomada por uma relação de ódio e amor com a herança samba-chic da bossa nova.

As (não)relações entrecruzadas entre Miltinho e João são inúmeras. Antes de contar com Miltinho entre seus integrantes, os Anjos do Inferno registraram o samba “Brasil pandeiro” (1941), que Carmen Miranda (já estabelecida para sempre nos Estados Unidos) não quisera gravar e que João Gilberto sugeriria aos jovens hippies Novos Baianos resgatarem em 1970: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, “o tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada”…

Além de cantar, Miltinho tocou pandeiro nos conjuntos Namorados da Lua e Quatro Ases e Um Coringa (que integrou brevemente em 1952). João foi fazer percussão no violão e desferiu golpes mortais de gênio no samba suburbano e de morro, no romantismo de vozeirão, nos conjuntos vocais.

O samba “elitizado”

“Samba sem pim pom” se queixa, entre outras coisas, da elitização do samba operada pela bossa nova. Do mesmo álbum (Eu… Miltinho, 1963) consta outra canção significativa, o “Samba do crioulo”, este de autoria de Miguel Gustavo, que cairia em desgraça em 1970 ao compor o tema futebolístico-ufanista “Pra frente, Brasil”. “Crioulo/ roubaram teu samba, disseram que iam te dar parceirada/ te deram foi nada/ e ficou por isso mesmo, ai, ai/ não deu jeito nem de reclamar/ quem que ia acreditar/ moleque da tua cor/ analfabeto de souza/ ia ser compositor?”, cantou Miltinho, defendendo os inventores negros do samba de morro. A bossa nova joãogilbertiana branqueava o samba, não sem o protesto do mulato Miltinho.

A tensão nacional-internacional era outra encruzilhada onde os cantores se (des)encontravam. Em texto na contracapa do primeiro LP de Miltinho, Um novo astro, um escriba denominado Aor Ribeiro afirmava que o “novo astro” cantava “sem as afetações extranacionais tão comuns aos cantores de sua geração”, mas com “bossa – a velha bossa”. Ficava (sub)entendida a birra com a bossa que se declarava nova.

Transferido para RCA Victor no ano seguinte, Miltinho desfrutaria de reparo por um outro escriba (não identificado) de contracapas de discos: nosso herói era “cantor dotado de uma voz até certo ponto discreta”, ideal para “ouvintes não só do país, mas também do estrangeiro”.

A cisma entre a bossa velha nacionalista e a bossa nova internacionalista, entre o samba e o pós-samba, se espalharia pela década de 1960 em discussões daquelas que são acertadas e equivocadas ao mesmo tempo. A bossa norte-americanizava, sim, a música brasileira, mas isso a música não raro jazzificada de Miltinho também fazia, por outras vias. “Não falem de bebop” (1964), de Lúcio Alves, que ele cantaria num disco chamado Bossa & balanço, brincava de ser e de criticar bebop. “Samba de branco tem conta no banco/ tem Cadillac, mordomo e chofer”, protestava a última faixa de Bossa & balanço, “Samba de branco” (de João Roberto Kelly, autor da marchinha carnavalesca “Cabeleira do Zezé”), tentando mais uma vez criticar nosso racismo “cordial”.

A bossa branca machucou, sim, o samba ao roubá-lo do morro e jogá-lo no colo das elites que se perfumavam de Frank Sinatra. Artistas mestiços como Miltinho seguiram adiante abraçando o samba suburbano, periférico, volta e meia utilizando modos interpretativos que faziam lembrar de Nat King Cole ou de… Frank Sinatra.

O baiano interiorano João Gilberto sempre pareceu arrependido de ter se tornado o guru de dez entre dez mauricinhos cariocas. Dos anos 1970 em diante, passou a retomar muitos sambas brejeiros do repertório dos conjuntos vocais dos anos 1940 e 1950 – sambas tipo “Adeus, América” (1986), dos Namorados da Lua, que diz: “Não posso mais, que saudade do Brasil, ai, que vontade que eu tenho de voltar/ adeus, América, essa terra é muito boa, mas não posso ficar porque/ o samba mandou me chamar.”

Outro dessa linhagem é “Eu quero um samba”, que João regravou no mítico álbum branco de 1973: “Eu quero um samba feito só pra mim/ me acabar, me virar, me espalhar/ eu quero a melodia feita assim/ quero sambar, quero sambar, quero sambar porque/ no samba eu sei que vou me acabar, me virar, me espalhar/ a noite inteira até o sol raiar.”

Composto em 1945 por Haroldo Barbosa com Janet de Almeida, “Eu quero um samba” também foi gravado pelos Namorados da Lua. Miltinho o regravaria solo 12 anos antes de João, em 1961. “Ah, quando o samba acaba/ e eu fico triste então/ vai, melancolia, eu quero alegria/ dentro do meu coração”, cantam, cada um a seu jeito, Miltinho e João, dando de bandeira o que é que importa mesmo lá no fundo dos corações.

A tristalegria era o tema central de Miltinho quando ele estreou solo com “Ri” (1960), um tema melancólico-circense estirpe de “Palhaçada”, também escrito pelo compositor-coronel Luís Antônio: “Ri/ ai, quanta gente infeliz/ a sorrir, ninguém diz/ leva a vida cantando/ a própria dor negando/ o seu amor calando./ No picadeiro ao léu/ palhaços sem papel/ somos todos nós/ falseando a voz/ e a plateia chora rindo.”

Nos acomodamentos automáticos que nossos cérebros costumam procurar, Miltinho ficou na gaveta dos antiquados, apesar ou inclusive por causa do vozeirão bem colocado. Enquanto isso, moderna nos pareceu toda uma legião de herdeiros vocais de João: Chico, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Jorge Ben, Erasmo Carlos, Marcos Valle, Raul Seixas, praticamente todo mundo. Os conjuntos vocais caíram em desuso, com a possível exceção do MPB 4, que, na órbita de Chico Buarque, ajudou a popularizar a sigla pela qual nossa música seria abreviada décadas afora.

Paralelamente a esse pinote histórico, ergueu-se o senso comum de que no Brasil não existiam (não existem) grande intérpretes homens, só mulheres. Dizem isso sobre nós que já tivemos Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Wilson Simonal, Tim Maia e ainda temos João Gilberto e… Miltinho.  F



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1 comment

  1. Alice costa souza Responder

    Miltinho será sempre um dos melhores interplete da musica brasileira, sou sua admiradoura aqui no estado do amap


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