Educação neoliberal sem cortes

Um pai divulgou, em sua conta no Facebook, a planilha de mesada dos filhos, de 6 e 8 anos. O que está acontecendo nesta família, na minha opinião, é o contrário de educar. É a criação de pessoas que aprendem desde cedo que o...

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Um pai divulgou, em sua conta no Facebook, a planilha de mesada dos filhos, de 6 e 8 anos. O que está acontecendo nesta família, na minha opinião, é o contrário de educar. É a criação de pessoas que aprendem desde cedo que o dinheiro é o mais importante e que, para merecê-lo, devem seguir todas as regras

Por Thalita Pires, no Futepoca

Lidar com dinheiro? (flickr.com/photos/criminalintent/)

Foi uma (in) feliz coincidência ler a notícia bem às vésperas do Dia das Crianças, essa data comercial sem qualquer fundo histórico, que serve apenas para movimentarmos nossa indústria de brinquedos. Fez sentido.

Um pai divulgou, em sua conta no Facebook, a planilha de mesada dos filhos, de 6 e 8 anos. O cálculo para o recebimento do valor é feito da seguinte maneira: a mesada básica é de R$50, a cada “falta” da criança, um valor é descontado. As infrações computadas na planilha incluem atraso e reclamação para ir à escola, inglês e igreja, esquecimentos de várias ordens e desobediência. Ao fim de cada período, as faltas são computadas e o valor final é conhecido.

O pai afirmou que publicou a foto apenas para mostrar à família, que mora longe, a maneira que encontrou para passar valores (com ou sem trocadilho, essa fica à escolha do leitor) para os filhos. Como pouca gente sabe que o melhor mesmo é fechar as publicações no Facebook, o post viralizou e já ultrapassa os 100 mil compartilhamentos. Depois da fama instantânea, o pai em questão preferiu fechar o perfil na rede social.
Prefiro não citar nomes nem lincar a notícia aqui pois meu objetivo não é julgar uma atitude individual. É, sim, tentar desconstruir o pensamento geral de que o que esse pai está fazendo é educar. Pelo menos dentro do meu conceito de educar, não é.

O que está acontecendo nesta família, na minha opinião, é o contrário de educar. É a criação de pessoas que aprendem desde cedo que o dinheiro é o mais importante e que, para merecê-lo, devem seguir todas as regras. Quaisquer que sejam elas. Aprendem que suas opiniões não importam. Aprendem que existe sobre elas uma vigilância eterna. Aprendem que não existe flexibilidade e negociação no mundo.

Ok, eu entendo. Existe um apelo forte nesse tipo de estratégia de educação. Numa primeira olhada, a impressão é que há pais zelosos cuidando para que as crianças aprendam que as regras devem ser respeitadas. Há ainda a vantagem de não haver castigos físicos, o que, dada a propensão da sociedade em aceitar violência contra crianças, é sempre um avanço. Mas pra mim, continua sendo errado.

Uma das razões citadas pela família para explicar o método foi a intenção de educar as crianças a serem responsáveis com o dinheiro. Bom, essa alguém vai ter que me explicar. Não vejo qualquer relação entre educação financeira e cortes na mesada por motivos comportamentais. Na minha cabeça, quando os pais decidem dar a mesada, ela serve para que a criança tome decisões sobre o próprio dinheiro. Não é o caso. Nem entendo, aliás, por que crianças dessa idade já entraram no mundo do dinheiro. Parece-me que elas deveriam aprender conceitos de responsabilidade por meio de brincadeiras e de faz-de-conta. Algum educador pode me corrigir se eu estiver sendo muito conservadora.

Em segundo lugar, a impressão que esse método passa é que que não há acolhida dentro da família aos sofrimentos das crianças. Guardo viva a sensação física de desespero que era ser acordada pela minha mãe para ir para a escola (que continua acontecendo a cada vez que meu filho me acorda de madrugada). Não tinha nada contra a escola, mas acordar cedo sempre foi um suplício. Se uma criança sequer pode reclamar de que não gosta de acordar cedo, poderá reclamar do quê? Além disso, atrasos, nessa idade, são de responsabilidade dos pais. Que criança de 6 anos tem noção exata de quanto tempo pode levar em cada atividade matinal para que não se atrase? Perder a noção do tempo acontece com adultos com frequência. O que está sendo exigido dessas crianças é mais do que podem oferecer. Elas devem ter a oportunidade de errar e de entender as consequências desse erro (as consequências reais, não aquelas inventadas pelos pais). Como aprender de outra forma?

Se isso é um problema, não é o maior, ou pelo menos não é o problema base aqui. Não bastaria trocar as faltas por outras, mais apropriadas para a idade. Isso porque crianças não podem ser subornadas para cumprir com as regras da casa. Elas devem, sim, entender os motivos por trás dessas regras. Mais do que isso, devem ter a oportunidade de questionar aquilo que não lhes parece certo. E, desse processo, nascem acordos. Eu não tenho como saber se isso aconteceu no caso dessa família, mas parece que não, dada a natureza autoritária da solução encontrada para conseguir obediência.

Um parêntese. Não tenho capacidade técnica para discorrer sobre psicologia, mas essa abordagem é behaviorista. Assume que temos que buscar o comportamento ideal por meio dos estímulos certos. Bom, é inegável que essa abordagem dá resultados, crianças são facilmente treinadas para reagir da forma esperada a determinados estímulos. Isso está na base dessas ideias cruéis de que bebês devem ser deixados chorando no berço para aprenderem a dormir sozinhos. Depois de muito sofrimento eles aprenderão mesmo, mas quais as consequências psicológicas de abandonar uma criança em seu berço? Ou de punir cada erro com a retirada de dinheiro da mesada?

A outra crítica a esse processo é a da monetarização da educação. Embora sutil, acho que existe uma diferença entre tirar atividades prazerosas da criança e tirar dinheiro. Não que eu defenda castigos do tipo deixar a criança sem brincar com os amigos ou coisas semelhantes. Só estou pontuando uma distinção. Ao envolver o dinheiro, os pais estão dando um valor monetário para as atitudes dos filhos. Além dos problemas práticos dessa ideia – quanto vale cada falta? – há a questão conceitual. A colaboração dos filhos não deveria ser comprada, e sim ensinada. Ao pagar pela obediência, os pais livram-se dos problemas cotidianos, mas não educam com profundidade. O que acontecerá quando não houver o castigo ou a recompensa financeira? Acredito que a ênfase no dinheiro tire de foco o principal, que é ensinar como o mundo funciona.

Sei que choverão comentários do tipo “quero ver quando chegar a sua vez”. E é verdade, também quero ver quando chegar a minha vez. Ainda faltam alguns anos para isso acontecer, mas juro que estou curiosa para saber quais serão as minhas reações. Em relação aos acordos conjuntos com a criança, não tenho dúvidas: eles acontecerão. Já acontecem hoje, com um bebê de pouco mais de 20 meses.

Em relação à desobediência desses acordos, não sei. Sei, sim, que haverá muitos momentos em que vou querer tomar a alternativa mais fácil, que é exigir obediência “por bem ou por mal”. Quem sabe do futuro? Entretanto, tenho certeza de que não me gabarei de comprar a obediência do meu filho, ainda que isso aconteça. Terei vergonha. Tentarei explicar a ele que perdi a paciência, que agi errado, mas que estou buscando melhorar.

Tampouco quero dizer que essas crianças se tornarão monstros que só respondem ao estímulo do dinheiro. Crianças são muito mais complexas do que a maior parte de nós imagina. Aliás, cada vez mais acredito que os pais não têm o poder de moldar a personalidade dos filhos. Essa personalidade já existe desde o útero. O que acontece são estímulos positivos ou negativos, que atingirão cada criança de uma maneira diferente. É possível, inclusive, que essas crianças estejam sendo educadas pelo exemplo negativo, ou seja, que sintam-se tão compradas pelos pais que, apesar de se submeterem ao esquema (que remédio?), sabem que isso é errado. Não há como prever os resultados do exemplo dos pais. Não tem grupo de controle na educação dos filhos. Essa é, na verdade, a minha esperança.

Por fim, uma pequena justificativa. Este post sobre criação de filhos está num blogue que não tem muita relação com maternidade ou paternidade. Mas na verdade tem sim. Apesar de ser encarada como uma questão privada apenas, a criação dos filhos é uma atividade política. Afinal, as crianças crescerão e participarão da sociedade. Acredito que, ao mesmo tempo que não devemos impor nossos pontos de vista a famílias que pensem diferente, é importante debater as maneiras de criar e educar. Elas refletem o que somos e o que seremos como sociedade.



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12 comments

  1. Ana Responder

    Como você mesmo disse “não tenho capacidade técnica para discorrer sobre psicologia”. Então, já que é ciente que não tem tal capacidade, melhor nem citar o assunto. Behaviorismo é sim uma das abordagens da psicologia; Mas ele vai muito além disso aí. Não futilize, por favor. Behaviorista nenhum, que se preze, usaria essa tabelinha pra educar ninguém. Só tenho pena dos leigos, porque lendo absurdos como estes – não é a primeira crítica infundada que fazem a respeito – acabam construindo uma visão erradíssima acerca da análise do comportamento.

    1. kamilly Responder

      Eu já conheci psicólogos behavoristas muito bons… Mas outros pareciam uma caricatura e trabalhavam a maneira do behavorismo metodológico que nem parece uma linha da psicologia…

      O comentário acima foi estúpido e arrogante… Mostra de longe a sensibilidade e a disposição da behavorista que se diz diferente dos esterótipos do psicólogo….

      1. Gleice Cardoso Responder

        Existem sim behavioristas ruins, assim como existem psicanalistas, humanistas e pessoas incompetentes em toda e qualquer formação. Não entendi a pertinência dessa colocação, quando o que está sendo questionado é a irresponsabilidade da autora, ao relacionar suas críticas com uma filosofia que ela, assumidamente não conhece.

    2. Luis R. Responder

      Depois da crítica, você bem que poderia fazer uma emenda, citar bibliografia, enriquecer a conversa. Ter “pena” de leigos assim é atitude das mais pedantes e desagradáveis… faz até crer que você não tenha nada a dizer sobre o tema. Caso citasse esses tais “behavioristas que se prezam”, tenho certeza que a autora do artigo faria bom proveito. Eu certamente faria.

  2. joao Responder

    Eu como professor nunca vi na pauta de renvidicações melhorias nas condições de trabalho. Somente reclamam salários.

  3. Allef Responder

    Como a ignorância torna as coisas mais bonitas e politicamente corretas…

  4. Borges Responder

    À autora, não havendo capacidade técnica, o julgamento deve ser prudentemente suspendido e corrigido. O Behaviorismo Radical, inclusive citado na reportagem, não corrobora e, contrário ao veiculado, estabelece a crítica da punição na educação e da adoção de estratégias arbitrárias de ensino na educação. Para autores analistas do comportamento, reforçadores naturais (que em nosso cotidiano chamamos de atenção sócio-afetiva, dedicação, carinho, respeito etc.) são muito mais importantes e eficazes que reforçadores arbitrários (doces, dinheiro, etc.) na relação ensino-aprendizagem. Nesse sentido, o Behaviorismo Radical é igualmente contrário ao que você chama, coerentemente, de monetarização da educação, ressaltando as consequências nefastas desta. Existe ampla produção nacional e internacional sobre o tema em Análise do Comportamento, bastando para tanto apenas buscá-la em publicações científicas de referência.

  5. Ana Paula Responder

    Não tem opção de não curtir aqui não… Falar de coisas que não sabe é o mesmo que dar tiros no escuro… Aprenda um pouquinho mais sobre o behaviorismo e como ele vem sendo utilizado na psicologia atualmente antes de citá-lo em seus textos…

  6. Kellen Laryssa Lima Responder

    Prezada Thalita,

    Admiro a sua postura de questionar comportamentos que
    parecem se transformar em verdades e em exemplos a serem seguidos no mundo da
    tecnologia e informação no qual vivemos hoje. No entanto, é preciso ter cautela
    ao divulgar algo que nem você sabe se é condizente com a verdade; estou me
    referindo à sua frase: “Não tenho capacidade técnica para discorrer sobre
    psicologia, mas essa abordagem é behaviorista. Assume que temos que buscar o
    comportamento ideal por meio dos estímulos certos.”

    O Behaviorismo é a filosofia de uma ciência conhecida como
    Análise do Comportamento, que pelo seu post, você parece discordar por simples
    desconhecimento dela. A análise do comportamento em NENHUM momento do seu
    desenvolvimento (pautado em anos de pesquisas com validade metodológica) tenta
    buscar o comportamento ideal por meios de estímulos certos; até porque não
    existem estímulos certos ou errados, só existem estímulos e como cada indivíduo
    responde a eles. A ciência na qual estou me referindo busca o entendimento do
    comportamento humano em sua relação com o mundo (pessoas, objetos, animais,
    palavras, sentimentos, dentre outros), ou seja, com tudo aquilo que possa ter
    alguma relação que possa influenciar a emissão ou a manutenção de determinados
    comportamentos. Nós, analistas do comportamento, sabemos, e quando digo “sabemos”
    é porque pesquisas mostram; que a punição NÃO pode ser usada como meio de
    aprendizagem, uma vez que ela NÃO ensina nada, mas por ser um tema bastante
    amplo, não precisamos entrar nesse mérito.

    O que essa família pratica com os filhos de 6 e 8 anos NÃO é
    análise do comportamento e isso é importante deixar claro. Provavelmente são
    pais tentando acertar na educação dos filhos usando uma ferramenta,
    desenvolvida POR ELES, na tentativa de controlar determinados comportamentos
    que ELES consideram como inadequados para o convívio da família. Se é certo ou
    errado?? Depende de como essa contingência estabelecida pelos pais estão
    afetando o comportamento das crianças, e quando falo comportamento é muito mais
    do que aquilo que é observado, estou falando da relação dessas crianças como o
    mundo. Não cabe a nós julgarmos qualquer contexto de relação humana sem conhecimento
    aprofundado do caso, sem o conhecimento das contingências comportamentais
    envolvidas.

    Att.
    Kellen Lima

  7. Kellen Laryssa Lima Responder

    Resposta à matéria: Educação neoliberal sem cortes (by
    Thalita Pires)

    http://revistaforum.com.br/blog/2013/10/educacao-neoliberal-sem-cortes/

    Admiro a postura de questionar
    comportamentos que parecem se transformar em verdades e em exemplos a serem
    seguidos no mundo da tecnologia e informação no qual vivemos hoje. No entanto,
    é preciso ter cautela ao divulgar algo que possa não ser condizente com a verdade;
    estou me referindo à frase: “Não tenho capacidade técnica para discorrer
    sobre psicologia, mas essa abordagem é behaviorista. Assume que temos que
    buscar o comportamento ideal por meio dos estímulos certos”.

    O Behaviorismo Radical é a filosofia
    de uma ciência conhecida como Análise do Comportamento, que pelo seu post, você
    parece discordar por simples desconhecimento dela. A análise do comportamento
    em NENHUM momento do seu desenvolvimento (pautado em anos de pesquisas com validade
    metodológica) tenta buscar o comportamento ideal por meios de estímulos certos;
    até porque não existem estímulos certos ou errados, só existem estímulos e como
    cada indivíduo responde a eles. A ciência na qual estou me referindo busca o
    entendimento do comportamento humano em sua relação com o mundo (pessoas,
    objetos, animais, palavras, sentimentos, dentre outros), ou seja, com tudo
    aquilo que possa ter alguma relação que possa influenciar a emissão ou a
    manutenção de determinados comportamentos. Nós, analistas do comportamento,
    sabemos, e quando digo “sabemos” é porque pesquisas mostram; que a punição NÃO
    pode ser usada como meio de aprendizagem, uma vez que ela NÃO ensina nada, mas
    por ser um tema bastante amplo, não precisamos entrar nesse mérito.

    O que essa família pratica com os
    filhos de 6 e 8 anos NÃO é análise do comportamento e isso é importante deixar
    claro. Provavelmente são pais tentando acertar na educação dos filhos usando
    uma ferramenta, desenvolvida POR ELES, na tentativa de controlar determinados
    comportamentos que ELES consideram como inadequados para o convívio da família.
    Se é certo ou errado?? Depende de como essa contingência estabelecida pelos
    pais estão afetando o comportamento das crianças, e quando falo comportamento é
    muito mais do que aquilo que é observado, estou falando da relação dessas
    crianças como o mundo. Não cabe a nós julgarmos qualquer contexto de relação
    humana sem conhecimento aprofundado do caso, sem o conhecimento das
    contingências comportamentais envolvidas.

    Att.

    Kellen Lima

  8. Tuchaua Responder

    Acredito que o texto seria mais acertado se indicasse, no inicio, que, se a situacao nao foi precedida de acordos. A suposicao “Eu não tenho como saber se isso aconteceu no caso dessa família, mas parece que não, dada a natureza autoritária da solução encontrada para conseguir obediência” traz uma ideia terrivel de pre julgamento.


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