A Marina de 2012 pensava bem diferente da de 2013

Em entrevista a Fabiola Perez, no ano passado, Marina dizia: "não tenho nenhum problema em não estar na política institucional. (...) Não se faz partido político por causa de eleição"

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Em entrevista a Fabiola Perez, no ano passado, Marina dizia: “não tenho nenhum problema em não estar na política institucional. (…) Não se faz partido político por causa de eleição”

Por Fabíola Perez, do blog Além da Mídia

“A ideia de um novo sujeito político, que não quer mais ser expectador da política e sim protagonista, acontece independentemente do momento eleitoral” (Foto: José Cruz/ABr)

Fomos enganados mais uma vez. Com muito menos alarde do que um escândalo de desvio de dinheiro público e menos impacto do que as manifestações do último mês de junho, assistimos a uma liderança política – que inflou o discurso do diferente, do inovador – se curvar diante do pragmatismo da velha política. Marina Silva, ex-PT, ex-PV, e atualmente candidata à vice-presidência da República pela mesma legenda de Eduardo Campos, o PSB, alimentou os sonhos de quem acreditava em uma via alternativa para o sistema político atual. Quem acompanhou a disputa de 2010 deve se lembrar de uma candidata que teve o mérito de empunhar a bandeira ambientalista antes de o tema ganhar vez na campanha de adversários e de reconquistar a atenção de eleitores descrentes da política institucional.

Ao mesmo tempo em que lutava para disseminar suas idéias programáticas, Marina escorregava ao tentar mostrar imparcialidade em temas polêmicos como direito ao aborto, legalização do uso da maconha e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ela defendia, por exemplo, que o direito ao aborto fosse votado em plebiscito. Uma ideia que, em princípio, parece democrática. O que muita gente não percebia, no entanto, era que de nada valeria um plebiscito sem informações que munissem a população brasileira antes de dar seu voto. As urnas captariam apenas os anseios de uma sociedade majoritariamente conservadora. Exatamente esse conservadorismo que fez minguar a fé dos setores mais progressistas na candidata que aparentemente representava o “novo” na política brasileira.

Apesar disso, em 2010, as contradições não se mostraram tão evidentes – ou pelo menos não chamaram tanta atenção diante de uma sociedade enfadada com as opções que se apresentavam naquela disputa. A ânsia pela mudança se relevou nas urnas: o resultado de 19,6 milhões de votos deu à Marina um poder único e despertou em seus adversários um interesse particular para 2014.Renegando a velha estrutura da política institucional, a ex-senadora preferiu, então, seguir carreira solo. Articulou lideranças da esfera institucional e civil para ajuda-la a criar a Rede. Em nenhum momento, Marina admitia a ideia de estar criando um novo partido político. Nada mais apropriado para quem desejou tanto se descolar das velhas estruturas.

A contradição maior veio meses depois, quando Marina decidiu registrar a Rede Sustentabilidade no Tribunal Superior Eleitoral. Rejeitado o pedido de registro, a dona dos 20 milhões de votos precisou de pouco mais de 24 horas para declarar aceito o convite de Eduardo Campos (PSB) para concorrer à vice-presidência. A questão é: pelo novo fazer político que Marina defendia ela não precisava necessariamente estar filiada a um partido político tradicional. Crítica ferrenha das “estruturas estagnadas”, ela foi contra todo o discurso que adotou nos últimos meses para emprestar seu respaldo a um partido político que disputará eleições. Vale lembrar que logo após o fim da última disputa presidencial, Marina se desligou do PV porque, segundo ela, houve “dificuldade em oxigenar o partido com os núcleos vivos da sociedade”. Resta saber se as mesmas dificuldades também não serão encontradas no PSB mais tempo, menos tempo.

Marina decepcionou quem acreditou no jeito inovador de fazer política e mostrou a que veio. Concorrer a cargos públicos é totalmente legítimo, mas nutrir um discurso totalmente divergente de interesses práticos é enganar eleitores e subestimar a inteligência da opinião pública. Marina Silva deveria ter encontrado um ponto de equilíbrio mais sutil entre teoria e prática: não ter rejeitado completamente as instituições tradicionais ou continuar seu ativismo independentemente de interesses eleitorais.

Confira a entrevista:

Além da Mídia – Os partidos políticos estão passando por uma crise de representatividade? A senhora concorda com esse ponto de vista?
Marina Silva – As pessoas estão reconhecendo que há matrizes da política. E isso também se traduz em crise dentro dos partidos políticos. A crítica que está sendo feita à política no mundo inteiro é o forte questionamento da visão, dos processos e das estruturas que se tem em relação ao fazer político. Quem disse que nós estamos no “Nirvana”, no céu da democracia? Estamos diante da possibilidade de um novo sujeito político. Antes quem operava os processos políticos eram os acadêmicos, as cooperações, os governos, os sindicatos e ONGs. Hoje, com a internet, bilhões de pessoas estão buscando novos aplicativos para a democracia.

Além da Mídia – É possível canalizar a energia política das manifestações para o atual sistema político?
Marina Silva – Acredito que se partirmos da ideia de que devemos canalizar a energia produtiva e da sociedade para as estruturas estagnadas que temos hoje, talvez a gente corra o risco de estagnar o próprio processo político inovador. Por que não pensamos na possibilidade de que os partidos políticos se reestruturarem diante das novas demandas da sociedade? O problema só será resolvido dentro dos partidos políticos? Não se consegue pensar fora daquilo que já está estabelecido. Se a gente não for capaz de admitir que há um núcleo estagnado e que uma parte da sociedade que está se descolando desse núcleo para constituir nova superfície de sustentação a gente não vai conseguir avançar. Quem disse que as estruturas não podem ser atualizadas?

Além da Mídia – O que mudou desde 2010 com sua projeção nacional?
Marina Silva – As pessoas não querem mais assistir a disputa do poder pelo poder, quem tem mais alianças, independentemente da qualidade política. Hoje assistimos a uma espécie de privatização dos partidos políticos. As alianças são feitas e os partidos passam a ser donos de partes do Estado brasileiro. Não vou ficar na cadeira cativa à presidência da república. Se for para a política continuar relevante, não tenho nenhum problema em não estar na política institucional. Não tenho problema em fazer essa escolha. Por isso estamos em um movimento por uma nova política. Não se faz partido político por causa de eleição. Faz-se um partido quando se tem uma ideia, quando se pode juntar pessoas em cima de um ideário de mundo.

Além da Mídia – Houve uma decepção com o modelo que a senhora acreditava no PV?
Marina Silva – Eu já sabia que o PV tinha problemas, mas houve um compromisso de que se faria uma reestruturação do partido. Sabia que seria muito difícil, porque os que estavam à frente do processo tinham muita dificuldade de oxigenar o partido com esses núcleos vivos da sociedade. Há uma decepção da sociedade brasileira. A novidade que se revelou foi que da mesma forma que eu saí do PT por entender que o partido não estava sendo capaz de integrar os desafios da sustentabilidade como eixo estratégico do seu programa, também sai do PV por perceber que não há como se fazer um novo modelo de desenvolvimento e a nova política com as velhas práticas da centralização e falta de democracia.

Além da Mídia – O desejo de fazer política de forma independente continuará tomando a cena política?
Marina Silva – A ideia de um novo sujeito político, que não quer mais ser expectador da política e sim protagonista, acontece independentemente do momento eleitoral. A eleição é um momento onde a questão política se acentua mais. A grande novidade é a existência do fazer político nos intervalos das eleições e não a política como um simples passo de disputa pelo poder como vem acontecendo historicamente em vários momentos da história brasileira.

Entrevista realizada em setembro de 2012.



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2 comments

  1. disqus_LEmqaHQUys Responder

    Fomos enganados? Fale apenas por você. Nunca me enganou essa mulher que além de fanática religiosa e defensora do abjeto Marco Feliciano, sempre se mostrou uma oportunista politicamente.

  2. Carlos Henrique Muller Responder

    Sra Fabiola Perez, a sra tem medo de que alguém que esteja fora dos padrões e comprometimentos da atual estrutura política ganhe espaço na mente do povo? É o que está transparecendo nessa sua medíocre visão dos fatos, apesar da forma com que colocas no blog.
    Certamente a maioria do povo não sabe o que lê e não interpreta as intenções de quem escreve, mas tentar sujar a imagem de alguém como a sra Marina Silva, é agir contra qualquer tentativa de alguém que queira cobrar um pouquinho de moral e ética no uso do poder público do Brasil.
    Decepcionante uma matéria superficial e tendenciosa como esta…
    Que pena, o BraZil e o poder econômico ganham com isso, mas o povo trabalhador, honesto e ignorante das torpezas da imprensa, continua perdendo…


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