Governo de Honduras destitui diretor da escola que foi centro de resistência ao golpe

“Estou sendo objeto de uma perseguição política por parte do Estado", acusa Roberto Armando Ordóñez Flores

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“Estou sendo objeto de uma perseguição política por parte do Estado”, acusa Roberto Armando Ordóñez Flores

Por Leonardo Severo

“Sou um perseguido político, submetido a uma brutal campanha de intimidação, com o governo disparando seus misseis midiáticos a menos de 40 dias das eleições presidenciais” (Foto: Leonardo Severo)

Faltando menos de 40 dias para as eleições presidenciais de 24 de novembro e frente à iminente derrota eleitoral, o governo hondurenho destituiu o diretor do Instituto Central Vicente Cáceres (ICVC), Roberto Armando Ordóñez Flores, escola de Tegucigalpa que foi o centro da resistência ao golpe contra o presidente Manuel Zelaya. “Neste momento, estou sendo objeto de uma perseguição política por parte do Estado, feita diretamente pela Secretaria de Educação e pelo ministro Marlon Escoto Valério”, denunciou o diretor, para quem “o objetivo óbvio e imediato é tomar o centro educacional, que é onde naturalmente se reunirá a população caso o governo se atreva a trilhar o caminho da fraude”.

A que se deve esta perseguição?
Tudo começou no golpe de Estado de 28 de junho de 2009 quando a sociedade se convulsionou. A partir daquele momento o povo saiu às ruas para defender a constitucionalidade e o direito legítimo do presidente Manuel Zelaya, que foi tirado do poder e enviado à Costa Rica pelo poder das armas. O povo se organiza na Frente Nacional de Resistência e permanece durante meses nas ruas, protestando em marchas e mobilizações, enfrentando os abusos e atropelos dos golpistas. Durante todo este período o Instituto Central Vicente Cáceres (ICVC), do qual sou diretor, colocou toda sua enorme infraestrutura, seu ginásio propício a reuniões e assembleias, à disposição da resistência popular.

O Instituto é uma referência para a luta democrática em Honduras.
Claro. Foi aqui que a resistência realizou suas primeiras assembleias e constituiu-se como uma Frente, como um movimento social que luta pela democracia em nosso país. Posteriormente, esse movimento deu um giro político e se conformou no que é hoje o Partido Liberdade e Refundação (Livre), que com muita evidência, e todas as pesquisas apontam isso claramente, assumirá o poder no próximo dia 24 de novembro. É isso o que preocupa o atual governo que, sabendo da inviabilidade eleitoral de seu candidato, o presidente do Congresso, e da iminente vitória popular, também sabe que este será o centro de organização contra uma eventual fraude, que será o centro de luta para a garantia de um futuro melhor para a sociedade hondurenha.

Qual a justificativa do governo para o seu afastamento?
É uma perseguição terrível que vem se concretizar com uma justificativa minúscula: a de que declinamos de um convite do ministro para que participássemos do desfile de 15 de setembro (dos 192 anos da Independência de Honduras) que a Secretaria de Educação organiza todos os anos. Nós informamos ao ministro que não podíamos participar porque o governo não cumpriu com suas obrigações de repassar os recursos para a realização das matrículas. É importante lembrar que a matrícula em nosso país é gratuita. O governo do presidente Zelaya garantia a gratuidade, disponibilizando os recursos que equivaliam a 300 lempiras (o equivalente a 15 dólares) para os estudantes da sétima a nona série e a 400 lempiras (20 dólares) para os demais cursos. No nosso Instituto com mais de sete mil alunos e 322 professores, o total equivale a dois milhões e meio de lempiras por ano desde 2012. Como não recebemos um único centavo por parte do Estado não era factível que desfilássemos, pois os instrumentos da nossa banda precisavam ser consertados, e tínhamos de priorizar a continuidade dos estudos dos jovens, para comprar papel, tinta e manter o Instituto funcionando durante os mais de duzentos dias do ano letivo.

O que o governo respondeu?
O ministro contestou dizendo que tínhamos de desfilar, do jeito que fosse. Da nossa parte foi dada uma resposta diplomática, educada ao ministro, cordial, apontando as razões pelas quais não iríamos desfilar por absoluta falta de condições. Como resposta nos enquadrou num processo de destituição da direção, de afastamento do centro educativo pelo simples fato de não tê-lo atendido, sem levar em conta a realidade. O governo quer me destituir sem respeitar o processo legal, que não pode ser arbitrário, pois existem regras disciplinares e prazos. Temos claro que devemos defender o Estado de direito, embora tantas coisas tenham passado desde o golpe de Estado… Se depuseram um presidente, se o tiraram de sua casa no meio da madrugada, o que dizer de um diretor, de um professor de um centro docente? A resposta é simples, elementar. Sou um perseguido político, submetido a uma brutal campanha de intimidação, com o governo disparando seus misseis midiáticos a menos de 40 dias das eleições presidenciais. O objetivo óbvio e imediato é tomar o centro educacional, que é onde naturalmente se reunirá a população caso o governo se atreva a trilhar o caminho da fraude.



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