A raiva na rede

Não há um ser humano razoavelmente conectado à internet que não tenha sido vítima ou agente de atos estúpidos na rede

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Não há um ser humano razoavelmente conectado à internet que não tenha sido vítima ou agente de atos estúpidos na rede

Por Vange Leonel

A matéria abaixo faz parte da edição de fevereiro (119) de Fórum, compre aqui.

Não há um ser humano razoavelmente conectado à internet que não tenha sido vítima ou agente de atos estúpidos na rede. Provavelmente, todos nós praticamos ou experimentamos bullying na internet, em um grau ou outro, num momento ou outro, sendo minicarrascos ou vítimas de ataques estúpidos.

Com o surgimento da web 2.0, mais interativa, ambiente perfeito para o florescimento das redes sociais, percebemos um aumento do fluxo de informações nas duas direções. O blogueiro ou jornalista não apenas escreve, mas pode ler o que seu público está pensando na caixa de comentários. Ali, instantaneamente, depois de publicado o texto, o blogueiro/jornalista recebe palpites, críticas, elogios e safanões de seus leitores. Isso mesmo: safanões.

Não vou aqui falar sobre as enormes vantagens e benesses da web 2.0 e da internet. E, atenção: as qualidades são muitas e superam vários de seus efeitos indesejáveis. Não pude deixar de notar, porém, o quanto comentários preconceituosos, desinformados, estúpidos e rudes têm aumentado na última década.

(Thiago Balbi)

Jornalista e correspondente de guerra, Robert Fisk cobriu conflitos no Iraque, Irã, Afeganistão, Síria, Palestina e outras regiões do Oriente Médio. Mesmo ele, acostumado a se proteger e desviar de tiros de fuzis, se declarou farto dos comentários preconceituosos e criminosos no seu e em outros blogues: “Comentários on-line quase sempre possuem erros factuais, mas o anonimato garante ao comentarista o uso de linguagem abusiva e chula para sustentar suas mentiras.” Fisk foi xingado e acusado ora de ser pago pela Irmandade Muçulmana, ora por neonazistas europeus, e chegou a receber uma ameaça de morte velada de um blogue antipalestino apócrifo: “Fisk será o próximo?”.

Pesquisadores de comunicação da George Mason University fizeram um estudo* sobre comportamentos dos internautas num fórum sobre mudanças climáticas. Em resumo, descobriram que, quando o assunto é polêmico, a tendência geral é que as pessoas já comecem o debate agarradas às suas predisposições. Isto é, quando falamos de Palestina, apocalipse climático, casamento gay e aborto, por exemplo, a tendência é que haja, de um lado e de outro, debatedores pouco dispostos a mudar de posição.

Interessante também na pesquisa é a correlação que seus autores fazem entre o aumento da barbárie nas caixas de comentários e o aumento da estupidez e incivilidade dos próprios jornalistas. Rush Limbaugh, radialista ultraconservador da Fox News, é um exemplo desse fenômeno lá nos Estados Unidos. Aqui, talvez possamos incluir o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo no rol de “jornalistas” contaminados pela (e perpetuadores da) estupidez on-line.

Enfim, o troll das caixas de comentários ou o troll tornado carne e osso por um certo “jornalismo” provocador e desestabilizador produzem confusão, ódio e desinformação. Sua tática é atacar o interlocutor e fulanizar (achar um bode expiatório para) a questão. Levam o pseudodebate às raias da insanidade e, sempre que possível, tentam pautá-lo, trazendo para discussão as suas (dos trolls) ideias fixas, de maneira rude e indelicada. Ainda bem, nem só de trolls é feita a web. Em todo caso, não os alimente. F

*Crude comments and concern: Online incivility’s effect on risk perceptions of emerging technologies (Ashley A. Anderson et al. – 2012).




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