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Meios de comunicação digitais independentes se levantam na América Latina como laboratórios de um novo jornalismo de investigação, mas com a incerteza sobre como irão se manter

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Meios de comunicação digitais independentes se levantam na América Latina como laboratórios de um novo jornalismo de investigação, mas com a incerteza sobre como irão se manter

Por Milagros Salazar,da IPS/Envolverde

Meios de comunicação digitais independentes se levantam na América Latina como laboratórios de um novo jornalismo de investigação. Mas se desenvolvem junto com a incerteza sobre como conseguirão recursos para se manter. Essa mídia é “patrulha que garante uma autêntica qualidade do jornalismo de investigação”, disse Fernando Ruiz, professor de jornalismo e democracia na Universidade Austral de Buenos Aires.

“Não há uma receita única para conseguir que sejamos rentáveis, mas estamos na fase experimental, apostando em várias opções”, como produção de livros e conferências de jornalismo”, detalhou à IPS o diretor do jornal digital El Faro, de El Salvador, Carlos Dada. Dada empreendeu a odisseia da mídia própria junto com Jorge Simán, em 1998, vários anos antes da revolução digital da indústria jornalística nesse continente. Foi uma resposta crítica à informação que se mantinha oculta nesse país apesar de sua relevância para  vida pública.

Carlos Mojica, rodeado por outros detentos, fotografado na prisão de Cojutepeque, em agosto de 2012. Reportagens sobre o pacto secreto entre o governo de El Salvador e as gangues para reduzir a violência foram premiados com a melhor investigação jornalística da região (Foto Edgardo Ayala/IPS)

O esforço teve vários reconhecimentos, com o Prêmio Latino-Americano de Jornalismo de Investigação, entregue no dia 14 deste mês pelo Instituto de Imprensa e Sociedade (Ipys) e pela Transparência Internacional. O prêmio foi para a série investigativa que revelou o pacto secreto entre o governo de El Salvador e os líderes das gangues Mara Salvatrucha e Barrio 18 para reduzir a violência em troca de benefícios penitenciários para cerca de 30 chefes desses grupos criminosos.

No entanto, o El Faro não é um “meio de comunicação que possa ser replicado” em termos financeiros, explicou Dada à IPS. Em seus primeiros sete anos, “não recebemos nem um centavo”, afirmou com a emoção de quem pode comprovar que a perseverança tem sua recompensa. Como ele, outros jornalistas destacados criaram uma dezena de mídias independentes em formato digital para continuar vigiando o poder na América Latina, enquanto os espaços investigativos diminuem cada vez mais nos veículos de comunicação tradicionais.

Em junho, vários destes meios independentes formaram uma aliança em Buenos Aires para reforçar a qualidade do jornalismo, a cooperação mútua e a busca de novas fontes de renda. El Faro, Centro de Investigação Jornalística (Ciper), do Chile, IDL-Reporteros, do Peru, La Silla Vacía, da Colômbia, Agência Pública, do Brasil, Animal Político, do México, Plaza Pública, da Guatemala, El Puercoespín, da Argentina, são alguns dos integrantes dessa aliança.

Este ano o Ciper obteve uma menção honrosa por uma série de reportagens que mostraram como lucram as universidades privadas do Chile. O mesmo ocorreu com as investigações do Verdade Aberta sobre as injustiças cometidas na devolução de milhões de hectares para as vítimas da violência na Colômbia.

Essa premiação aconteceu no Rio de Janeiro como parte de um encontro de mais de mil jornalistas, entre 12 e 15 deste mês, na 13ª Conferência Latino-Americana de Jornalismo de Investigação, a reunião da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e da Conferência Global de Jornalismo de Investigação. No ano passado, o IDP-Reporteros levou um dos três primeiros prêmios por sua série investigativa sobre fraude de empresas poderosas do setor da pesca no Peru.

“Não há dúvidas de que a qualidade do jornalismo está assegurada por esses veículos”, afirmou Ruiz à IPS. Mas, nos tempos de hoje, “é preciso ser tão bom em desenvolver o jornalismo de investigação como na gestão do financiamento”, acrescentou. Enquanto os veículos tradicionais vivem uma crise sem fim, tampouco nesse novo território existe um modelo de negócio replicável.

Para o jornalista argentino Mariano Blejman, trata-se de “diversificar a forma de gerar financiamento e um grande valor interativo com o público a partir dos dados”. Blejman lidera o projeto Media Factory na América Latina, para promover a criação de meios digitais rentáveis. Em sua opinião, não é suficiente o uso de redes sociais para aproximar-se do público, mas se deve buscar novas formas a partir de uma avaliação constante do que melhor resulta dessa experiência.

Há três caminhos para explorar, segundo o jornalista romeno Paul Radu, do Organized Crime and Corruption Reporting Project, que reúne várias iniciativas de jornalismo de investigação da Europa oriental. O primeiro é fazer uso eficiente de bases de dados com alto impacto na vida dos cidadãos. O segundo, uma forte ligação com o público que possa doar recursos para sustentar o bom jornalismo. O terceiro é a cooperação internacional, que continua tendo o maior peso do financiamento destas iniciativas. “São caminhos que devem ser seguidos de maneira paralela e articulada. Mas creio que a chave de tudo é conectar com o público”, acrescentou Radu.

Giannina Segnini, chefe da equipe de investigação do jornal La Nación, da Costa Rica, considera que o futuro do jornalismo se baseia em um “real trabalho de equipe” de jornalistas, engenheiros de sistemas, desenvolvedores web e especialistas de outras áreas, para encontrar histórias fortes por trás de dados aparentemente difíceis de entender. Segnini, também premiada no concurso latino-americano deste ano, é criadora da primeira equipe com essas características na região.

A jornalista argentina Marina Walker, vice-diretora do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (Icij), acredita que “tentar pensar em um jornalismo de investigação rentável não é possível” porque exige um considerável investimento de tempo e recursos. “É muito caro e muito lento”, indicou à IPS. Para ela, o jornalismo independente continuará dependendo em grande parte da filantropia. Porém, “é preciso continuar testando”, ressaltou.

O Icij, que reúne repórteres de diferentes regiões do mundo e tem sede em Washington, garantiu nos últimos cinco anos seu trabalho com jornalistas da América Latina mediante um esforço colaborativo. Há pouco realizou uma investigação global sobre o secretismo dos paraísos fiscais, que exigiu processar 2,5 milhões de arquivos digitais, um volume várias vezes maior do que os vazamentos do Wikileaks.

Ying Chan, do Centro de Jornalismo e Meios da Universidade de Hong Kong, opinou que o ponto de partida é abrir a mente “e pensar diferente” para continuar informando em benefício da população mais vulnerável. Por isso, não acredita que seja fora de propósito pensar em um fundo global para o jornalismo, semelhante a outros esforços internacionais para combater doenças com a aids. Neste caso, se trataria de uma fonte de financiamento para fortalecer um jornalismo que contribua para enfrentar a corrupção e fortalecer a democracia.



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