Paz? Cientistas acusam governo dos EUA de desenvolver novas armas atômicas

Associação norte-americana apresentou informe sobre a modernização do arsenal nuclear do seu país e não detectou quase nenhum progresso em matéria de desarmamento

329 0

Associação norte-americana apresentou informe sobre a modernização do arsenal nuclear do seu país e não detectou quase nenhum progresso em matéria de desarmamento

Por Markus Becker. Tradução para espanhol por vientosur.info e do espanhol para português por Carlos Santos para Esquerda.net

Barack Obama tem falado muitas vezes de desarmamento nuclear. No seu discurso de Praga em 2009 desenvolveu, pegando no lema “Yes, we can!”, a visão de um mundo livre de bombas atômicas. No seu discurso de Berlim no verão deste ano já se mostrou bastante mais modesto: disse que o número de armas atômicas norte-americanas poderia ser reduzido em um terço se os russos se mostrassem dispostos a fazer o mesmo nas negociações.

No entanto, a realidade é muito diferente, como afirmam agora novamente os críticos. A associação de cientistas norte-americanos Union of Concerned Scientists (UCS) acaba de apresentar um amplo informe sobre a modernização do arsenal nuclear do seu país. Este relatório não detecta quase nenhum progresso em matéria de desarmamento. Além disso, os cientistas acusam o governo dos EUA de ir para além da mera manutenção das suas armas atômicas e de desenvolver na prática novos sistemas de armamento.

O governo de Washington confronta-se desde há tempo com um dilema: a última bomba nuclear dos EUA foi desenvolvida em 1990 e está baseada na tecnologia dos anos setenta. Os ensaios nucleares subterrâneos ficaram suspensos em 1992 e desde então as provas baseiam-se em simulações por computador. Ao mesmo tempo, o arsenal envelhece, e para garantir a segurança e a fiabilidade do armamento é preciso investir enormes somas de dinheiro. Porque os EUA todavia dispõem de nada menos que cerca de 7.700 ogivas nucleares, das quais 2.150 estão ativas.

Governo de Obama quer investir 60 bilhões de dólares nos próximos 25 anos na modernização do seu arsenal nuclear (Tech. Sgt. Dawn M. Price, USAF)

É verdade que se trata apenas de prolongar a vida das bombas?

Segundo o relatório da UCS, o governo de Obama quer investir 60 bilhões de dólares nos próximos 25 anos na modernização do seu arsenal nuclear, mas isto não é mais do que uma fração do que a superpotência pensa gastar neste período com as suas armas atômicas. O relatório da UCS, de 81 páginas, cita alguns exemplos:

– O custo de uma fábrica química e metalúrgica no Laboratório Nacional dos Álamos ascendeu a um custo situado entre 3,7 e 5,9 bilhões de dólares, o que representa entre seis e nove vezes o custo estimado em 2004.

– A construção de uma nova fábrica de processamento de urânio devia custar em 2004 entre 600 e 1,1 bilhão de dólares, mas agora fala-se de 7,5 bilhões.

– A modernização das bombas aéreas do tipo B61 foi orçamentada em 2010, por parte do ministério de Energia dos EUA, em apenas 2 bilhões de dólares, repartidos em quatro anos. Mais tarde disse-se que seriam 4 bilhões e em 2012 já se falava de 6 bilhões. Segundo a UCS, agora a soma já ascende a 10 bilhões de dólares (7,4 bilhões de euros).

O “programa de prolongamento da vida útil” da bomba atômica B61 já é objeto de crítica desde há tempo. Entre os especialistas reina em grande medida o consenso de que as bombas nucleares aéreas estacionadas na Europa ocidental são, do ponto de vista militar, relíquias inúteis da guerra fria que deveriam ser eliminadas de imediato. Não obstante, o governo dos EUA não só não se mostra disposto a retirar essas armas, como as moderniza a tal ponto que os técnicos já falam de sistemas completamente novos.

A UCS afirma agora algo parecido. É certo que o número de tipos de ogivas nucleares norte-americanas reduzir-se-á de sete para cinco durante o processo de modernização, mas essas ogivas empregar-se-iam em diferentes tipos de portadores: três em mísseis de longo alcance e dois em bombardeiros e mísseis de cruzeiro. Este propósito “viola o espírito, para não dizer a letra, da promessa do governo de não desenvolver novas armas nucleares”, declarou Philip Coyle, do Center for Arms Controle and Non-Proliferation, um dos autores do relatório da UCS.

Isto não é, de forma nenhuma, uma bagatela. Em 2011 entrou em vigor o tratado “New Start” de redução de armas estratégicas, pelo qual os EUA e a Rússia se comprometeram a reduzir até ao ano de 2018 o número das suas ogivas nucleares estacionadas no terreno das 4.000 atuais para 1.550. Os críticos temem que as futuras conversações em matéria de desarmamento se vejam enormemente dificultadas se os norte-americanos estacionam de repente, contrariamente às suas promessas em sentido contrário, armas com capacidades totalmente novas.

Material suficiente para 13 mil ogivas nucleares

Por exemplo, a bomba B61 completamente renovada, do modelo B61-12, é na opinião do especialista norte-americano em desarmamento Hans Kristensen uma arma destas características. De acordo com os planos atuais, a partir de 2019 fabricar-se-ão cerca de 400 unidades, das quais uma parte será estacionada também na Alemanha. Neste momento há entre 10 e 20 exemplares antigos desta bomba atômica na base aérea de Büchel, na Alemanha.

Os cientistas da UCS também estão preocupados com a enorme quantidade de bombas atômicas inativas. Segundo dados do instituto Sipri de Estocolmo, os EUA contam com cerca de 2,5 mil ogivas nucleares de reserva, às quais há que acrescentar outras 3 mil que estão à espera de ser destruídas. Segundo o informe da UCS, “há grandes quantidades de plutônio e urânio altamente enriquecido que o exército já não necessita”. Ainda que a National Nuclear Security Administration (NNSA) – o departamento do ministério da Energia dos EUA que se encarrega da custódia das bombas atômicas – tenha previsto destruir grande parte do material de fissão das armas destruídas, depois disso, diz a UCS, os EUA continuarão a dispor de material suficiente para 13 mil bombas atômicas. Por isso, os cientistas exigem que o governo elimine uma parte maior deste material e que o faça de um modo seguro, ainda que seja apenas para evitar roubos. Esta preocupação não é gratuita, como mostra um relatório da Nuclear Threat Initiative (NTI), que denunciou toda uma série de trabalhos mal feios e em parte horripilantes na custódia do material nuclear em todo mundo.

A UCS também vê possíveis problemas nos EUA. Assim, ao que parece a NNSA pretende desfazer-se do plutônio sobrante aproveitando-o para a fabricação das chamadas barras de combustível de mistura de óxidos para as centrais nucleares. “Isto comporta graves riscos de segurança”, escreve a UCS, que exige que a NNSA detenha este programa e elimine o plutônio em forma de vidro ou cerâmica.



No artigo

x