Depois da Chuva traz a atmosfera das Diretas Já para o cinema

Filme exibido na 37ª Mostra retrata a juventude na redemocratização do País na década de 1980; “O Brasil é um país que trata muito mal a sua memória”, diz diretor Cláudio Marques

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Filme exibido na 37ª Mostra retrata a juventude na redemocratização do País na década de 1980; “O Brasil é um país que trata muito mal a sua memória”, diz diretor Cláudio Marques

Por Gabriel Fabri

(Foto: Divulgação)

Vencedor de três prêmios no Festival de Brasília (melhor ator, roteiro e trilha sonora), o longa “Depois da Chuva”, de Cláudio Marques e Marília Hughes, teve suas primeiras exibições em São Paulo durante a 37ª Mostra Internacional de Cinema, sendo o escolhido para abrir o 14º Festival da Juventude. A Revista Fórum conversou com Cláudio sobre a obra e as questões políticas retratadas no filme, que conta a história de um estudante de classe média no período de redemocratização do Brasil. Confira a entrevista a seguir.

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Fórum – Como a sua juventude inspirou o filme? Há alguma cena inspirada em alguma lembrança específica?
Cláudio Marques – O filme inteiro, de alguma maneira, tem uma inspiração autobiográfica. Cenas jamais iguais às que eu vivi, mas muito próximas. De fato, participei de um jornal chamado “O Inimigo do Rei”, de um grupo anarquista. Jornal que na verdade era muito mais profissional do que aquele fanzine mostrado no filme. Teve a questão do despertar crítico e político naquela época, uma sensação de potência que eu e muitas pessoas próximas a mim sentiam, e o despertar amoroso também. Acima de tudo, o nosso desejo com “Depois da Chuva” era trazer uma atmosfera da época, cultural e política, que remetesse à construção do imaginário do que eram os anos 1980 em Salvador.

Fórum – Como essa sensação de potência se relaciona com o contexto político da época?
Cláudio Marques – A narrativa do filme respeita os fatos. Veja, você tem o início eufórico e musical, com uma sensação de que tudo é possível. O protagonista está numa situação muito boa, mas depois vem os primeiros obstáculos e a sensação de impotência ao final. No plano macropolítico, a Diretas Já no início proporciona essa sensação de potência, entretanto é imposta depois a eleição indireta e no final ainda tem a morte do Tancredo Neves e a posse do Sarney – uma figura totalmente vinculada à ditadura militar se tornando o primeiro presidente depois de 20 anos de ditadura no País. Nunca de uma maneira didática, esses tempos são respeitados na história do protagonista.

Fórum – Vocês assistiram a muitos filmes sobre jovens antes de filmar Depois da Chuva? Teve algum que exerceu forte influência?
Cláudio Marques – Vimos muitos, mas a maioria nos alimentou de modo contrário, no sentido de “isso é o que a gente não quer fazer”. Acho que o jovem no cinema, de uma maneira geral, é retratado de uma maneira muito boba, às vezes até estúpida mesmo, e sem potência. Todavia, há um filme que particularmente nos inspirou muito, que é “Água Fria”, do cineasta francês Olivier Assayas. Também é um filme de época, se passa na década de 1970, e também tem essa pulsão da juventude, que nos orientou bastante, pois representava justamente a força dos personagens que a gente queria para o “Depois da Chuva”.

Fórum – O longa apresenta diversas questões políticas que ainda estão em voga hoje. Que tipo de reflexão vocês esperam provocar no público?
Cláudio Marques – O cinema brasileiro não lançou um olhar sobre o período da redemocratização. Falou-se muito sobre a ditadura, mas praticamente nada sobre a transição política. Então, queremos ajudar a discutir o que aconteceu em 1984, a forma como foi feita a redemocratização. Que o nosso filme seja um primeiro, já que ano que vem vamos comemorar 30 anos do início das Diretas Já. Seria muito interessante se o filme ajudasse a discutir o momento atual, de inconformismo e insatisfação em relação à nossa democracia e ao nosso sistema político. Quando a gente joga uma luz no passado, imediatamente falamos de um processo que é formador do País hoje e de toda essa insatisfação que estamos vivenciando. Alguma coisa muito mal feita, deixada lá trás, que está reverberando fortemente nos dias de hoje.

Fórum – Qual a importância de rever as imagens dos noticiários da época e resgatar a história da redemocratização, hoje?
Cláudio Marques – O Brasil é um país que trata muito mal a sua memória. É cheio de histórias, mas a gente parece estar sempre olhando para frente. Entretanto, não podemos construir o futuro sem olhar para o passado. Quase todos os nossos curta-metragens tratamos da memória de alguma maneira, e não fazemos de forma militante, mas quase instintiva. É muito importante que o cinema brasileiro trate da memória.

“Queremos ajudar a discutir o que aconteceu em 1984”, diz Cláudio Marques, que dirigiu o filme ao lado de Marília Hughes (Foto: Divulgação)

Fórum – Que paralelo você traça entre a juventude de hoje e a juventude da época? As manifestações de junho e as diretas já?
Cláudio Marques – Depois de vinte anos de ditadura, acho que estava mais fácil nos anos 1980 que os políticos manipulassem a população e a juventude. E foi de fato o que aconteceu, eles conduziram isso mais facilmente. Hoje, a juventude está mais cansada dessa representação partidária tradicional, então em um certo sentido a gente perdeu uma ingenuidade e a sensação de que os políticos, ou da esquerda ou da direita, poderiam resolver os nossos problemas. A juventude está indo para as ruas reclamando uma participação política verdadeira, sem colocar isso nas mãos dos políticos, e isso pode ser um avanço muito interessante. Gostaria que outras formas de representação política fossem criadas, nossa participação hoje é mínima: a gente deixa nas mãos dos eleitos para fazerem o que quiserem por quatro anos, é patético. Precisamos descobrir formas mais efetivas de democracia.

Fórum – Que paralelo vocês traçam entre os black blocs e os anarquistas da época, retratados no filme?
Cláudio Marques – Os anarquistas da década de 1980 eram uma espécie de “os últimos dos moicanos”. A gente precisa lembrar que os anos 1980 representam o final das utopias, então é um mundo ainda que acredita no socialismo libertário, na revolução armada, mas já desgastado por todo o século de guerras e violência. E hoje os black blocs, que é um fenômeno novo aqui no Brasil mas que existe desde a década de 1970 na Grécia e na Espanha, por exemplo, trazem de volta o ideal dos anarquistas, no sentido do desejo de que você não delegue seu poder para políticos. Só que os black blocs estão muito mais ligados a tentativas de protestos, a modelos de resistência a uma violência policial e atitude de partir para o ataque em determinados momentos. Acredito que os anarquistas dos black blocs ainda não têm planos bem definidos, como tinham os da década de 1980, de uma elaboração de uma sociedade. Acho que os black blocs ganharam muita mídia hoje, porque também interessa vilanizá-los, colocá-los como uma coisa que ameaça a sociedade. Foi uma sacada no meio de tanta coisa acontecendo, para que a população ficasse com medo e deixasse os protestos de rua. Seria muito importante que as pessoas entendessem que existe uma grande estratégia, um complô, para fazer com que os black blocs pareçam protagonistas, quando apenas representam um elemento a mais dentro de toda essa insatisfação.

Fórum – O que ainda permanece na política e na sociedade brasileira do que foi retratado no filme da década de 1980?
Cláudio Marques – Uma questão muito forte que tem no filme é em relação às alianças dos opostos, de pessoas que defendem bandeiras completamente diferentes e que se juntam para chegar ao poder. Esse vício se estende até os dias de hoje. O PT entendeu que para chegar ao poder tinha que se aliar aos partidos mais diferentes possíveis, distantes do discurso que o partido tem. Em nenhum lugar outro do mundo você vê alianças de um partido que se diz de esquerda, como o PT, com um partido de extrema direita, como é o do Maluf, do Sarney, do Feliciano. É uma maluquice em que se perdem completamente as bases. Você está votando em quem, afinal? Nos ruralistas ou nos ambientalistas? Quando você vê, os dois estão dentro de uma mesma lógica de poder nos dias de hoje. Isso a gente retrata no filme por meio de personagens secundários e diz muito da política que construiu a “Nova República”.

Fórum – O filme dialoga com todo o Brasil, mas se passa em Salvador (BA). Quais são as peculiaridades regionais retratadas no filme?
Cláudio Marques – Tem o sotaque baiano, mas não é um sotaque da Globo que estamos acostumados a ouvir. Você tem um jeito baiano de falar e de se relacionar com as coisas, que para mim demonstra uma riqueza da “baianidade” que foge da representação comum dela. Há também uma riqueza musical de concepções artísticas e sonoras da Bahia que também são muito diferentes do que se está acostumado a esperar da musicalidade baiana. Por exemplo, na década de 1970, um músico suíço erradicado na Bahia chamado Walter Smetak criou instrumentos e uma sonoridade que é muito forte lá e gerou uma série de “discípulos” dessa musicalidade. A gente tem bandas de jazz e hard-core com influências de Smetak e tentamos trazer essa variedade musical para o filme. Há também os cenários, como o subúrbio ferroviário, o Colégio Central, o Museu de Arte Moderna e as ruas do centro histórico, que são representações que fogem dos cartões postais e a tradição de como se vê a Bahia.

Fórum – No filme, uma estudante recita o poema José, de Drummond. Acredita que o momento político de hoje também nos faz questionar “E agora, José?”
Cláudio Marques – Totalmente. Estamos num momento de insatisfação e indefinição muito fortes. Precisamos questionar os políticos e nos questionar também. Que sociedade nós queremos construir? É algo que precisamos pensar.



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