Onde estão as flores nos jardins que asfaltamos?

Mexer no texto é um trabalho árduo, bem diferente do criativo, em que a magia da imaginação exerce todo seu encanto, mas uma hora é inevitável começar o trabalho já sem a parte criativa, pois a formação da história passou e agora vem a...

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Por Férrez

A matéria abaixo faz parte da edição 119 de Fórum, compre aqui.

Mexer no texto é um trabalho árduo, bem diferente do criativo, em que a magia da imaginação exerce todo seu encanto, mas uma hora é inevitável começar o trabalho já sem a parte criativa, pois a formação da história passou e agora vem a labuta, o trabalho grosso.

Sempre tento escolher um lugar legal para mexer nessas palavras, às vezes vou para Itapecerica, que é mais calmo, tem menos carro e mais verde, sento em algum lugar onde tenha um banco e uma árvore e começo a trabalhar, está cada vez mais raro achar esses lugares, mas por lá ainda se acha.

Um lugar onde adoro escrever é no antigo I.A.E., Instituto Adventista de Ensino, que hoje todos conhecem como Unasp. Fica na estrada de Itapecerica, próximo à delegacia.

Mesmo antes de ser próximo da minha casa, eu já ia para lá digitar algumas linhas e enxugar o texto.

Sempre vou caminhando pela estrada de Itapecerica com o computador portátil na mão e depois chego ao pequeno mercadinho dentro da Unasp. Ao lado do mercado tem um pequeno bosque sempre calmo e silencioso, onde se encontram várias árvores, alguns bancos de concreto e mesas que são forradas com cacos de antigos azulejos. Ao lado desses bancos, que ficam na parte mais alta, tem uma construção bem antiga, com janelas ovais na parte de cima, e quadradas embaixo, uma construção feita de tijolos com uns 15 por 7 metros de largura, era ali que os jovens tinham aula. Anos atrás, os alunos chamavam aquele bosque de Praça da Bíblia, pois a casa atrás dele era onde estudavam os futuros pastores, e eles sempre iam para a praça com suas bíblias estudar. As meninas passavam pela praça para ver os rapazes, e muitos namoros e até casamentos tiveram início ali.

A sombra é muito boa e, pelo lugar ser alto, o vento é fresco.

O único desagrado aconteceu uma vez: me assustei quando uma sirene foi ligada, era o chamado do término das aulas.

Vou correndo o dedo pelas teclas, e as correções começam, algum personagem que está denso demais, outro que ficou meio esquecido, uso um pouco da experiência dos roteiros que li e escrevi nesses anos, e monto uma curva para os personagens, consulto sempre a estrutura do livro para saber se as ações estão em demasia, esse jeito de fazer a divisão dos sentimentos no trabalho ajuda bastante a ficar tudo organizado.

Minha rotina é escrever por algumas horas e, depois, ficar admirando as árvores desse pequeno bosque, nenhuma das pessoas passa, dão a volta e vão até o mercado e depois sobem para os cursos novamente.

Tem um momento em que paro, sempre quando o trabalho de leitura dos capítulos cansa minha vista, e vou ao mercado, compro um suco de uva, o mesmo suco de uva que ficou na minha mente desde quando era pequeno e minha mãe me levava no mesmo lugar para tomar, só que naquela época os adventistas administravam mais uma fazenda do que uma escola. Para acompanhar, compro um pedaço de pizza, ligo o computador de novo e vou comendo e escrevendo.

Fazia meses que queria escrever na Unasp de novo, mas com tanta corrida com o trabalho na loja 1DASUL, com a ONG e milhões de compromissos, fiquei adiando até hoje.

Imagina meu desgosto quando finalmente separei a tarde de hoje para mexer no romance, editar algumas partes, definir o final e dar uma enxugada em todo o texto. Essa era minha meta, mas quando cheguei no pequeno bosque, me deparei somente com grama, isso mesmo, grama, não tinha árvores, bancos, mesas, nada.

Fiquei aturdido, parado em frente ao grande nada, tentei olhar onde estavam as árvores e, com algum esforço, consegui ver o que restou delas: bem emparelhadas com o chão, estão as presentes mutilações, o que antes eram árvores, hoje são somente membros decepados.

Não sei dizer de fato o que senti, tristeza, pesar, decepção talvez sejam as palavras mais próximas, vi dois pedreiros fazendo uma passarela no canto do antigo bosque.

Fiquei tão abalado que andei de um lado para outro por alguns minutos, e olhando em volta para ver se eu não estava errado, mas ao lado também já não existia nada, só o mercado do lado esquerdo e uma livraria e papelaria, onde antes tinha uma charmosa casa de madeira.

Perguntei aos pedreiros se ali não tinha uma praça, bancos, mesas. Um deles respondeu que achava que tinha alguma coisa. Eu pensei na hora: Alguma coisa? Como podem não ter percebido as árvores, as plantas, a sombra maravilhosa que hoje não existe?

Andei por mais alguns metros, achei um banco, sentei e abri o computador, ele deslizava nas pernas, não tinha uma mesa para apoio, o vento não era bom, a altura era ridícula, mesmo assim comecei a mexer no livro.

Alguns minutos depois, eu já tinha desligado o computador, não achei justo trair aquele lugar assim, esquecer ele e começar em outro lugar.

Voltei para a frente do antigo bosque, fui no mercadinho, que também tem uma pequena lanchonete e sentei numa das cadeiras, comprei um suco de uva, um sanduíche natural, resolvi consumir para que ninguém me incomodasse quando eu fosse escrever.

Abri o computador, olhei para onde era o bosque. Enquanto escrevia, um trator subiu, devastando até o gramado, a antiga casa foi pintada de branco e detalhes de azul, o Sol consumia todos, pois não existia mais sombra.

Em uma semana, o mercadinho não existiria mais também, daria lugar a uma grande lanchonete com cadeiras padrão de plástico, piso branco higiênico e atendimento profissional para o consumo dos alunos.

Pelo menos, aqui neste texto, um dia saberão que acabaram com um grande bosque que abrigou por muito tempo casais, pássaros, estudantes, animais, insetos, e também um escritor, que até hoje não tem mais um lugar tranquilo para escrever. F



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