Biografias em tempos de mercadoria

Na barafunda do projeto de acumulação do capital, onde autores/artistas, como celebridades, têm as próprias vidas mercadizadas, torna-se cada vez mais complexa a tarefa de distinguir entre mercadoria e História

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Na barafunda do projeto de acumulação do capital, onde autores/artistas, como celebridades, têm as próprias vidas mercadizadas, torna-se cada vez mais complexa a tarefa de distinguir entre mercadoria e História

Por Guilherme Leite Cunha*

Por detrás da disputa entre os que são a favor ou contra biografias não autorizadas, o momento é singular para desvelarmos a estrutura do capitalismo cultural contemporâneo, cujos dois lados curiosamente se condicionam. E talvez deixem mais claras as angústias de Chico Buarque com sua privacidade, os anseios de Djavan por mais dinheiro e o desejo dos biógrafos pela liberdade. E possam exibir, por fim, os mecanismos da mercadoria cultural, nesses tristes dias em que se leem tantas biografias, e em que elas ganham tanta relevância.

De uma só feita, no episódio da crise das biografias, podemos observar a estatura que alcançou a figura do “Autor” – aqui entendido como o artista criador/executor – se tornando hegemônico no campo da cultura. E, junto a isso, podemos ver como ele também, contraditoriamente, possui a mesma condição de mercadoria.

O trabalho do “autor” é o epicentro de acumulação de nosso atual capitalismo cultural. Pois no momento em que toda a cultura é capitalista, a figura do autor é a que move o sistema, é a que cria novos produtos, que lança modas e discursos, é a que possui a “autoridade” (como lembram Raymond Willians e Francisco Alambert), e que produz mais valor, por sobre simples produtos, apenas com sua assinatura. É ele, portanto, a figura chave para a inovação, atitude tão cara à economia criativa de nossos tempos. O autor é a figura, no terreno da cultura, que possui a capacidade de gerar valor abstrato, tão importante ao sistema ficcional criado pelo capitalismo pós-industrial.

Os exemplos são inúmeros, desde a chamada alta cultura até a indústria cultural de massa, o autor é aquele que cria, com seu toque, milhares de produtos a serem consumidos, para muito além daquilo que de fato produz, de modo exímio ou não. Isso tudo porque, em algum momento, artificialmente ou não, ele ganhou reconhecimento social e notoriedade. Assim, materialmente, aos poucos o autor ganhou mais importância do que as próprias coisas que produz, ou seja, as obras de arte. Ele, desse modo, vira o centro das atenções. Podemos ver esse fenômeno em todas as linguagens artísticas, desde o cinema, a literatura, até as artes-visuais e a música. O autor passa a valer mais do que a obra em si. Assim, não são poucos os artistas que, conscientes ou não, passam a trabalhar na capitalização e valoração de sua imagem, administrando-a. E isso pode ser feito à revelia de sua própria vontade, algumas vezes. Mas em geral muitos passam a contratar profissionais de relações públicas e assessores de imprensa para lidar com a engenharia de exploração de sua imagem.

Esse caldo faz com que sua própria vida seja comercializada, e se, num primeiro momento, são suas obras (por mais radicais que sejam) que se mercantilizam, agora é sua vida que se torna mercadoria. Ou seja, que se torna objeto de consumo e se constitui como valor de troca. Assim, o mercado de biografias, que inclui não somente livros, mas infindáveis revistas, sites e programas de TV, sobre personalidades, se expande enormemente, chegando ao ápice nas biografias (autorizadas e não-autorizadas – as mais rentáveis) de artistas cada vez mais jovens, como as de Justin Bieber, do alto de seus 15 anos.

Mas por que o trabalho dos autores/artistas tem tamanha importância em nossos dias? Por que somos ávidos por conhecer todos os detalhes de suas vidas?

O trabalho do “Autor” surgiu, e só pode ser compreendido, em oposição ao trabalho anônimo. O trabalho autoral é o extremo oposto do trabalho “sem autor”, das massas, das multidões, dos operários, cujo trabalho é dominado, coordenado e imposto por um outro, em nosso caso, o capital. Nesse sentido, ele promete, em si, uma liberdade para o trabalho. Possível, contudo, apenas em antinomia a um trabalho dominado. Pois ele só existe nessa dialética.

Portanto, o autor, como o conhecemos, é fruto de uma sociedade de classes. Sua origem remonta entretanto à era pré-capitalista, quando artesãos eram alçados a artistas, por, primeiramente, serem exímios e depois por expressarem algo de singular no que produziam. É quando, no Renascimento, os quadros passam a ser assinados. Assim, começam a se diferenciar do trabalhador comum, por sua singularidade, e ganham com isso, mais singularidade. Criavam-se desse modo condições para uma distinção de classe. Que, entre outros fatores, levaram os artistas a se associar à classe que domina o trabalho alheio. Passaram a ser da elite.

Em conjunto com essas transformações materiais, durante toda a história cultural capitalista desenvolveu-se, nas diversas artes, a figura do herói burguês, que fundamenta duplamente a mitologia do indivíduo vencedor e a do gênio criador. Nesse sentido, o trabalho do autor e o herói burguês estruturam na sociedade o desejo de ser artista, de ser famoso e de ser alguém. O artista é ao mesmo tempo o trabalhador livre e o herói reconhecido.

Esse trabalhador que tem nome, por sua vez, gera cada vez mais fascínio na massa “desnomeada”, como um lugar idílico a ser alcançado. Assim, na mesma medida em que se produz uma massa de trabalhadores sem nomes, dominados pelo capital e alienados de sua condição, mais se produz o desejo pela vida desses artistas. Mais se tem curiosidade por ela, mais se anseia consumir a história de outras vidas, em forma de mercadoria, como meio de reconstituir, ao menos no terreno da fantasia, a própria insignificância – dentro da lógica do fetiche da mercadoria.

Contudo, os artistas estão próximos, mas não são, em sua maioria, os capitalistas, por mais ricos que possam ser. Por mais singularidade que possuam, não são eles que organizam seus trabalhos. Para isso, existem inúmeros investidores e empresas, como editoras, marchands, gravadoras, empresas de espetáculo e de comunicação. Assim, a liberdade que passou a possuir, também o transformou em mercadoria, contraditoriamente.

O artista, ao defender, portanto, ao menos um terreno, mesmo que este seja sua própria vida íntima, livre de comercialização, pretende colocar limites a esse poder alheio. Ele, em suma, procura colocar barreiras a sua própria exploração. Contudo, essa defesa é insegura e incerta, oriunda da dificuldade de impor limites à sua própria produção de valor, que, como vimos, se origina em sua imagem e existência, e não mais em seu trabalho.

Por isso, vemos tentativas diversas. Artistas mais reclusos como Chico Buarque, advogam pela defesa de sua intimidade, como campo livre de exploração. Outros como Djavan, pretendem repartir os lucros dessa produção, que, em última instância, advém de sua existência. E outros, como Caetano Veloso, pretendem regular o uso de sua intimidade, ora se expondo em revistas como Caras, ora proibindo o uso alheio, quando negativo à sua imagem.

O que importa caracterizar é que a relevância em se conhecer a intimidade de artistas não ultrapassa o domínio da mercadoria, porque não encontra, nessas revelações, importância social e histórica. Saber dos pormenores privados de um artista não altera em nada o rumo da vida social, modificando no máximo sua realidade de mercadoria, ao influir para mais ou para menos o seu valor de mercado.

Contudo, isso difere em substância, da investigação biográfica de personagens históricos, cujas vidas interferiram na vida das pessoas. É preciso fazer a distinção categórica desses dois tipos de obras que não são as mesmas, embora venham se confundindo no calor do debate sobre biografias.

Estudos sobre Carlos Marighella, sobre generais, “príncipes da privataria”, torturadores e outras personalidades históricas (seja quaisquer profissão que tenham) que em suas vidas interferiram na sociedade, podem contribuir com os rumos e os debates sociais e merecem ser explicitadas. Podem influir sobremaneira nas disputas da história. A revelação, por parte de biógrafos e jornalistas, de fatos privados de personalidades vivas ou mortas de importância histórica e social é trabalho do mais vivo jornalismo, pois pode contribuir decididamente com as disputas de poder. Tais revelações podem ter tamanha importância social, que se configuram muito além da mercadoria (muito embora jornais também as tratem desse jeito) e podem ser reproduzidas e difundidas diretamente e de modo gratuito, através de novos meios disponíveis, do tipo Wikileaks ou “blogs sujos”.

Nessa barafunda criada pelo projeto de acumulação do capital, onde os autores/artistas como celebridades têm as próprias vidas mercadizadas, com ou sem consentimento, torna-se cada vez mais complexa a tarefa de distinguir entre mercadoria e História. Trabalho árduo a ser realizado por jornalistas, escritores e críticos da cultura, do campo progressista, sob o risco de sermos todos também colonizados pelo capital.

*Guilherme Leite Cunha é mestre em estética e história da arte pela USP



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