Paulo Nogueira: Por que a direita e a esquerda se unem no ódio aos black blocs

No meio do calor das discussões parece ficar de lado uma questão crucial: por que irromperam na cena brasileira estes mascarados pouco amistosos e extremamente combativos?

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Por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

Ninguém gosta dos black blocs exceto eles próprios.

Cheguei a essa conclusão depois de ver Dilma, pelo Twitter, condená-los pelo ato “covarde” de bater num coronel da PM. Segundo Dilma, eles têm protagonizado cenas de “barbárie”.

Você lê o Globo e a Veja e lá estão eles, atacados como vândalos, baderneiros, criminosos, bandidos etc.

A direita e a esquerda estão unidas no ódio aos black blocs por diferentes razões. Para a direita, eles são um incômodo porque denunciam escandalosamente a desigualdade social brasileira.

Para a esquerda, especificamente a ligada ao PT, eles são um incômodo porque mostram que não estão satisfeitos com os avanços sociais feitos nos últimos dez anos por governos petistas. Em consequência, atrapalham a marcha de Dilma rumo ao segundo mandato.

No meio do calor das discussões parece ficar de lado uma questão crucial: por que irromperam na cena brasileira estes mascarados pouco amistosos e extremamente combativos?

Sem responder a isso a polêmica em torno dos black blocs é estéril. Os black blocs são os filhos não amestrados da iniquidade. Poucos dias atrás, uma militante do grupo concedeu uma entrevista cândida à BBC Brasil, republicada pelo DCM.

Ela contou que virou black bloc por causa da “concentração de renda”. Não viu nos partidos políticos convencionais nada que a interessasse.

Eis o ponto.

O PT, com as alianças no poder em busca da “governabilidade”, deixou de ser atraente para jovens inconformados, idealistas, indignados com tanta miséria no Brasil.

Eles querem algo novo. E é então que entram em cena os garotos do Passe Livre e do Black Blocs. Ao contrário de outros grupos que poderiam e talvez deveriam estar protestando nas ruas – sindicatos e UNE, por exemplo – eles não têm o rabo preso com o PT.

Querem que o Brasil melhore socialmente – com PT ou sem PT. Por isso são tão detestados pelo PT.

A emergência dessa nova categoria de manifestantes – que não têm nada a ver com os demagogos que falam em “corrupção” para comover a classe média como já aconteceu em 1954 e 1964 — mostrou uma coisa. O Brasil pede um partido de esquerda que represente, hoje, o que o PT foi em seus primeiros tempos.

O PT poderia caminhar mais para a esquerda e atender aos anseios dos neomanifestantes? Eis a grande questão. Pessoalmente, não acredito. Os compromissos em nome da “governabilidade” tornam virtualmente impossível fazer alguma coisa muito diferente do que se fez nos últimos dez anos.

Como proteger os índios decentemente, para ficar num só caso, se alianças com ruralistas são vitais para que o governo toque a sua vida?

Uma coisa parece certa: a Rede Sustentabilidade não é a novidade que os inconformados das ruas pedem. Mudam os personagens, mas os compromissos permanecem: Marina jamais falou em aumentar o imposto dos mais ricos porque vai depender deles para tentar se eleger.

Spinoza dizia sobre certas coisas que o importante não era gostar ou desgostar delas, mas entendê-las. Ninguém parece estar entendendo os black blocs.

Querem que eles sumam? Experimentem reduzir a desigualdade social que está na origem deles.

O resto é silêncio, como escreveu Shakespeare.

Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.



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14 comments

  1. Fábio Responder

    Não acho que a Esquerda tenha ódio dos BBs. Apenas crê que os BBs não praticam uma ação política que acumule forças, eleve consciência de classe e organize a luta popular para obter objetivos concretos.

    1. Victória Responder

      A esquerda que não gosta dos BBs são os socialistas. Os BBs são anarquistas, não acreditam mais na máquina estatal, não apoiam nenhum partido, por mais que ainda exista um com alguns políticos decentes, como o PSOL.
      Partidos de esquerda acham então que vale mais a pena acumular massa fascista nas ruas, que os estavam rechaçando nos outros protestos, do que a galera anti-capitalista, mesmo que essa use ação direta?!

  2. Emerson Novais Oliveira Responder

    Oh, revistinha cagona, meses atrás vocês não vieram com o papinho furado dizendo que o vandalismo vinha da direita? Mentira tem perna curta! O que esperar de uma gibizinho estatal?

  3. Maicon Malk Responder

    Black Blocs , sao os revolucionarios e a Globo? uma grande farsa Midia podre. Dilma defende o coronel ke foi agredito? e os jornalistas cego? e os manifestante ke sumiram na viatura? e os ke foram covardimente agreditos . mts casos

  4. Maicon Malk Responder

    Black Blocs odiados? kkkk acorda! o povo ta do lado deles . só essa midia podre que n e voces burgueses ricos que tremen vendo seu plano de explorar o povo sendo ameaçado

  5. Maicon Malk Responder

    Coronel agredito aiwn coitado né? pq n teve dó dos professores cego e agredito ? e os manifestante covardimente agreditos por + de 10 pm. pq n tem dó deles? so tem um coronel di merda que mereceu!

  6. Vitor Macedo Responder

    O Grande problema de grupos assim é que não enxergam que temos uma Direita que ainda manda no Governo do PT. O PT ficou amarrado ao PMDB e não pode fazer nada. É um poder paralelo que não deixa o PT fazer o que deveria. O PT até tentou, várias vezes mudar a legislação eleitoral, mas o PMDB bloqueou. E outras tantas mudanças. Se pode dizer assim: nós deixamos vocês chegarem ao poder, mas deve ser do nosso jeito. E assim é que o PT está amarrado. Fez algumas mudanças sociais importantes e não consegue mais. Vejam como foi a votação para modernização dos portos. A Presidenta Dilma estava em batalha contra o PMDB, pois este estava alinhado aos empresários que ainda dominavam os contrato dos portos. O Governo foi derrotado na lei que regulamentava a agricultura, para que não tivesse um impacto muito grande na ecologia. O PSB da Marina foi um grande opositor desta lei e votou a favor dos latifundiários. Se o PT tentasse fazer qualquer reforma mais profunda sofreria um golpe. E não duvidem que isto pode ocorrer a qualquer momento em nossa história. então, é muita ingenuidade destes movimentos quebra quebra pensar que irão mudar alguma coisa desta forma.

    1. Flavio Hernandez Responder

      Olha, não tenho tanta certeza de que o tal quebra-quebra não pode mudar alguma coisa, pois já começou, criou-se uma polarização já no simples debate de sua existência… Agora, muito bem lembrado o poder paralelo, mas não creio mais que esconda por trás do PMDB, mas – mesmo que pareça estranho – o ‘pemedebismo’ se difundiu e até então, só o PT e partidos como PSTU, PSOL, não fazem parte dessa política de fundo, conservadora até a raiz. Novamente, muito bem lembrado.

  7. Osvaldo Aires Bade Responder

    Certo, então vamos acreditar que os “combativo” terroristas estão certos e um país inteiro esta errado,

    COMO FOI QUE A ISLÂNDIA FEZ UMA NOVA CONSTITUIÇÃO USANDO O FACEBOOK

    http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/08/como-foi-que-islandia-fez-uma-nova.html

  8. Flavio Hernandez Responder

    Osvaldo, você continua não entendendo. Vítor, esse é um dos pontos da revolta, não só dos Black Blocs, mas também de muito petista; a defesa de Sarney pelo Lula, foi emblemático nesse ponto. Foi uma grande decepção para todos. Maicon, realmente chega a soar hilárias quaisquer defesas para a PM, pois fatos não cansam de surgir, evidenciando o ‘dois pesos, duas medidas’, basta dar uma voltinha pelo youtube mesmo, que imagens da brutalidade policial contra quem quer que seja, estão lá para todo mundo ver, só não enxerga quem não quer. Fiquei pensando nas palavras do Alckmin, dizendo que eles praticaram a ‘tentativa de homicídio’… É muita cara de pau! No que o ‘couro’ que o coronel levou dos manifestantes difere dos excessos que vemos e que a mídia esconde? No dos outros é refresco.
    Há décadas ouço gente falar que o Brasil tem que acabar e ser refeito, que deveriam jogar uma bomba em Brasília e por aí vai… Mas isso só evidencia que somos todos muito bundões, pois agora que a revolta dá suas caras, fica todo mundo com papinho ‘glúteos flácidus’, de que pra mudar, só com o voto! Mudar o que, Cara-Pálida? A m&%#$ é a mesma, só mudam as moscas. É sempre a mesma máfia tomando conta do país. Você quer a marionete da esquerda ou quer a marionete da direita? Se o povo conseguisse compreender a importância da luta desses Black Blocs e também saíssem em peso para reforçar o contingente e causar danos, certamente, muito governante safado perderia seu cargo. O Black Blocs é um ‘fenômeno’ que – ao que tudo indica – veio pra ficar. E querem saber? Demoreaux para acontecer. A única diferença para um Black Bloc de um pai desesperado ao saber que a filha morreu por falta de remédios ou de atendimento numa fila de SUS e saiu quebrando tudo dentro da unidade, é que o pai não está mascarado. E com o peso das novas acusações que vão se acumulando, veremos mais mascarados, pois ninguém quer ser identificado, aliás, muitos são aqueles que desejam que os jovens Black Blocs sejam mártires, pois ficam com o papo de que “ah, no meu tempo a gente protestava de cara-limpa” e eram presos, torturados, mortos, desaparecidos, ‘suicidados’… Compreensível ter gente que não quer ser identificada… Ou não?! Eu tenho parentes que fugiram do país, que foram torturados até as raias da loucura, portanto entendo. Quer ser mártir? Vai lá e sai quebrando tudo com a cara-limpa mesmo, daí eu respeitarei, pois ficar exigindo que os Black Blocs mostrem o rosto é fácil pra quem está no sofá de casa. Ah, voltando à Dilma, muitos se preocuparam com uma possível ação dos Black Blocs durante o desfile de 7 de Setembro em Brasília. Só que não entenderam, que ela não era o problema, pois muitos desses jovens compreendem que apesar de ainda insatisfatórias, as medidas da Presidente caminham ao lado do interesse do povo. Ela poderia ter evitado fazer comentários em prol do coronel, foi infeliz.

    1. Osvaldo Aires Bade Responder

      Flavio Hernandez, você quer que eu entenda, sendo uma pessoa direita, que crime é virtude e burrice é autoridade e outras coisa nessa linha isso é muita cara de pau da sua parte miliciano.
      A minha postagem foi sobre um país inteiro – um país decente, termo totalmente desconhecido por aqui.
      Volto a publica-la:

      COMO FOI QUE A ISLÂNDIA FEZ UMA NOVA CONSTITUIÇÃO USANDO O FACEBOOK

      http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/08/como-foi-que-islandia-fez-uma-nova.html

      1. Flavio Hernandez Responder

        Ok, posso até ser chamado de cara-de-pau, mas ‘miliciano’? Melhor deixar essa discussão de lado. Ah, legal, falar da Islândia, que tem uma Educação completamente diferente da nossa, aliás, é um país de dimensões continentais, não é mesmo? Aqui a gente já tem problemas com a Educação em nossas cidades. E, de boa, não dá para comparar os dois países, isso aí é sonho de consumo, ou melhor, utopia de consumo.

  9. Rik Daniel Responder

    Uma pequena correção, black bloc não é um grupo, mas sim uma tática.

  10. Leandro Resende Responder

    Texto fraco, infelizmente. Primeiro que parte da compreensão dos black blocs como um grupo, e não como uma tática, que possui histórico de uso muito anteriores a decepção da esquerda brasileira com o PT, como o texto tenta sugerir como condição para a articulação do “””grupo””” no Brasil. Ao colocar o surgimento blackbloc como resposta ao distanciamento do PT e sua base, o texto presta serviço, sim, à direita de Reinaldo Azevedo e seus comparsar, que não hestiam em taxar o petismo como causa de todo mal que surja no país. Longe de ser petista, só faço aqui um chamamento: colocar esquerda e direita no mesmo saco na hora do ódio aos blocs é de um reducionismo argumentativo e ideológico perigoso.

    Os manifestantes taxados de blackbloc nem de perto se assemelham aos descritos pelo autor, crente num cenário idílico onde todos partilham de um discurso “contra tudo isso que está aí” e que não mais levam fé na política. Hoje, os atos perpetrados por esse grupo deixaram de ser uma autodefesa às manifestações e deram lugar à destruição pura e simples, sem objetivo. O objetivo é não ter objetivo!, me dirão, mas nem isso não é o que apregoa a ideologia anarquista, a qual o autor tenta filiar o “”grupo””.

    Outro ponto: os atos dos “black blocs” – uso as aspas por crer que é um reducionismo atribuir certas atitudes a esse grupo (que não é grupo) – só REFORÇAM a desigualdade social brasileira, no lugar de, como crer o autor, denunciá-las. Vi, por mais de uma vez, bandidos tirando pessoas de dentro de ônibus no centro do Rio para queimá-los. Bandidos sim, não são vandâlos, P2 infiltrados, black blocs. Quem atinge o trabalhador, seja político, pm ou manifestante, é BANDIDO. Logo, quem sofre é quem tá na base social. Basta fazer uma pesquisa simples: a defesa de certas depredações (as quais também já fiz) partem sempre de uma casta social dotada de maior capital cultural que as outras. Como no passado dos anos 1980, em que os trabalhadores tinham verdadeira repulsa às greves, os membros das classes mais baixas hoje se apavoram em saber que terão, por exemplo, menos ônibus para pegar no dia seguinte. A violência simbólica, contra o grande capital, jamais atingiu ou atingirá quem realmente importa. Mais uma vez, e como o perdão da expressão, quem se fode é o trabalhador.


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