O sabiá desmente o sábio

Pouco depois de se aposentar como ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto deu uma entrevista à Folha de S. Paulo em que contou, entre outras coisas, que se tornou vegetariano.

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Por Mouzar Benedito

Esta matéria faz parte da edição 126 da revista Fórum.

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Pouco depois de se aposentar como ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto deu uma entrevista à Folha de S. Paulo em que contou, entre outras coisas, que se tornou vegetariano.

Falou uma coisa que achei muito interessante: “Eu observo coisas interessantíssimas. Uma delas é que nenhum pássaro carnívoro canta. Nunca vi ninguém dizer isso. Os pássaros carnívoros, corujas, águias, falcões, ou crocitam, ou piam, ou grasnam, nenhum deles canta, como se a natureza dissesse: Só tem direito de cantar se for herbívoro”.

Pensei um pouco e achei que a conclusão dele, apesar de interessante, era incorreta. Muitos passarinhos que cantam bonito comem grãos ou frutas, mas também comem insetos e larvas. Quer dizer, não são totalmente vegetarianos, porque insetos e larvas fazem parte do reino animal.

Se fosse como pensa o ex-ministro, que a natureza parece dizer que aves que comem carne não têm direito ao canto, imagino que o beija-flor, que se alimenta de néctar, deveria ser o cantador mais sonoro entre as aves.

Então me lembrei de uma aula-show de Ariano Suassuna, em que ele fez uma brincadeira, dizendo que as pessoas acreditam que cachorro gosta de osso, mas não é verdade. Ele come osso porque só dão ossos a ele. Mas ponham um osso e um pedaço de carne para um cachorro escolher e vão ver que ele gosta mesmo é de carne.

Daí outra lembrança: um dia, na chácara de um amigo, bebendo vinho e comendo queijo provolone, joguei uma casca dele pela janela e ela ficou presa a uma teia de aranha. Ela estava no meio da teia e “correu” em direção ao objeto preso à sua teia.

Comentei que ela estava “pensando” que era uma mosca, e meu amigo, grande conhecedor do comportamento de bichos, disse que ela iria “limpar” a teia, quer dizer, jogar a casca de queijo fora. Mas o que ela fez surpreendeu a mim e muito mais a ele: ela foi comendo vagarosamente o pouco de queijo que tinha na casca até deixar limpinha aquela película que envolve o provolone. Aí, sim, jogou o que restava fora.

Fiquei rindo e gozando: “O que aranha come? Insetos, mas só quando não tem um provolonezinho pra traçar. O que ela gosta mesmo é desse queijo”.

E mais lembranças: na minha infância, numa pequena cidade do sul de Minas, o lixo das ruas era recolhido por um cara apelidado Beiço de Porco, numa carroça puxada por um burro chamado Diamante.

O Beiço de Porco agradava o burro como podia, satisfazia seus desejos, principalmente um ligado à sua alimentação: quando ia começar seu trabalho, punha na boca do Diamante um pedaço de rapadura, e ele parecia gostar muito da dita cuja. Então, penso agora: burro come capim e milho, mas gosta mesmo é de rapadura.

Volto às aves que cantam. Diz a lenda que, quando o uirapuru canta, toda a floresta se cala, porque o canto dele é encantador. Pois os insetos estão entre os alimentos do uirapuru.

Até o nosso glorioso canarinho, de canto muito bonito, come insetos também, assim como o bem-te-vi e o sabiá. E mais que isso, comem coisas que nem imaginamos.

Eu deixo na janela do meu apartamento algumas frutas pros passarinhos, mas alguns deles invadem a cozinha atrás de outras coisas. Um dia, deixamos em cima da mesa um pedaço de quibe e saímos, e de repente a Célia, minha mulher, entrou lá e deu de cara com um sabiá comendo quibe. E não comia só os grãos de trigo, não, comia carne mesmo.

Dias depois, aconteceu a mesma coisa com uma panqueca. Aí fui eu que vi um sabiá mandando ver na carne.

Há pouco tempo, comprei bacalhau pra fazer no dia seguinte, e nem tirei da embalagem, um plástico fininho. Deixei em cima da mesa e tive outra surpresa: quando a Célia entrou na cozinha, ficou espantada: um sabiá tinha furado a embalagem e comia bacalhau cru, salgado.

Então, há muito mais mistérios na alimentação dos passarinhos cantadores do que passa pela cabeça dos vegetarianos. Tá aí o sabiá pra desmentir o que eles falam.  F

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).



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