A caminhada continua

Cheguei cedo, para mim pelo menos, umas 7 da manhã, parei o carro e já bati com força no portão. Ele estava em cima do muro como sempre, os braços apoiados

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Por Ferréz

Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.

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Cheguei cedo, para mim pelo menos, umas 7 da manhã, parei o carro e já bati com força no portão. Ele estava em cima do muro como sempre, os braços apoiados.

– Fala, Nal.

Sempre me chamou assim, apelido de infância.

Sorriu, desceu e abriu o portão, a camiseta branca regata, o short surrado, e o tênis bem estilo bamba.

Minha tia falou lá do alto da casa.

– Quer café, Vim?

Outro apelido de infância.

– Não tia, tô de boa. Vamos, tio?

Saímos como em toda semana, o passo apressado, uma conversa qualquer enquanto a periferia ia passando, com seus bares ainda fechados, seus cachorros nas ruas ainda limpas e os carros com sereno nos vidros.

O Valo Velho passava rapidamente e logo a estrada de Itapecerica ia se mostrando, larga e poderosa, com seus postes sempre mais altos.

– Então, o gerente da Requipe disse que ia me mudar de rumo, eu falei pra ele que…

Meu tio era assim, falava como se a gente tivesse vivido o tempo todo junto, não importava o que era Requipe, quem era o cara que ele dizia ser seu chefe, a história ia sendo narrada como se fosse tudo familiar, eu tentava pegar a moral da história.

A gente tinha que ir para a contra-mão, pois quando começava o acostamento da avenida não dá para confiar em ir no mesmo fluxo dos carros. Uma vez, um caminhão passou raspando no braço dele, nunca mais demos as costas.

O sol começava a se descolar e eu lembrava por que trouxe boné, ele sempre caminhava sem, a pele morena, o andar reto, o problema que tinha no braço depois do primeiro AVC.

Uns 25 minutos de caminhada, ele encostou num tronco perto do ponto de ônibus, abaixou as vistas pro short e retirou – olhei pra ele e não sabia se ria ou se achava ruim – o cigarro e o isqueiro.

– É só um, Nal, já a gente continua.

Não tinha como brigar, o tom que ele usava era tranquilo e firme.

Os carros passavam rapidamente, ele fumava e olhava para a estrada, eu tentei achar um lugar para sentar, na guia mesmo era o jeito.

Pronto, só foi eu sentir as pernas descansando que ele terminou, a gente acelerou de novo, embalamos na descida, era hora de entrar no caminho mais estreito, sair da avenida principal e caminhar numa pequena estrada de terra.

Hoje, ali tudo virou obra do Rodoanel, passa uma ponte por cima, isolaram o rio, mataram muito animal silvestre.

E ele emendou outra história, de quando chovia gelo e ele pegava pra chupar com seus irmãos, emendou outra de quando era caminhoneiro e saía por aí pegando as cargas, e de como uma senhora tentou lhe vender uma santinha no meio do caminho. Ele tinha parado o caminhão, pois as cordas viviam soltando, depois que comprou a santa as cordas não soltaram mais. Quando chegou na hora de descarregar, já em São Paulo, tiveram que cortar as cordas, pois o nó estava muito forte, olhou para a santa dentro do caminhão e agradeceu.

A estradinha de barro tinha algumas poças de água, numa delas meti o pé, me segurei, nunca falei palavrão na frente do meu tio.

Viramos, subimos mais um morro, descemos por uma encosta, passamos paralelo a um antigo moinho e lá vinha mais uma história.

– Aqui funcionava o frigorífico Éder, era tudo deles, aí o banco tomou, mas antes o filho gastou tudo com cachaça…

E a história continuava, e os passos já estavam mais lentos, pelo menos os meus.

Finalmente fizemos a curva e saímos numa estrada maior, em cinco minutos de subida estávamos na Itapecerica novamente, a volta sempre parecia mais rápida.

Passamos pelo Cemitério da Paz.

Finalmente chegamos no Valo-Velho, no Rondon, lugar onde vivi na casa do meu tio com meu pai até os quatro anos de idade.

Minha tia tinha a mesa pronta, pães, manteiga, café quente e leite.

– Vocês foram muito longe hoje?

– Fomos um pouco, tia, o tio Élcio anda demais.

– E ele fumou no caminho?

– Nada, nem paramos para nada.

Meu tio me olhou com um pequeno sorriso, quase imperceptível.

O tempo foi passando, as obras do Rodoa­nel avançaram, a caminhada foi mudada, adiada, muitos compromissos iam me tomando o tempo.

Meu tio ficou doente, tossia muito, não tinha mais convênio, não conseguia médico, o posto de saúde marcou os exames, nunca chegava o seu dia na fila.

– Trabalhei a vida toda, agora preciso de médico e não tenho.

Um dia ele piorou, eu liguei para um amigo político, consegui falar com um assessor. Ele ligou, outros ligaram, conseguiram marcar com uma responsável pela comunicação de um hospital, fomos todos para lá. Mesmo assim, fomos parar no corredor, meu tio numa cadeira de rodas, não tinha maca disponível, não tinha vaga disponível, não tinha ninguém disponível.

Ele era forte, foi ficando magrinho, ali na cadeira, no corredor, no meio de tantos, não contava mais histórias, não tinha mais o sorriso de antes.

A gente comprava lanche para ele, o hospital não podia dar nada para quem não estava internado oficialmente, a nora ajudando, minha tia levando no banheiro, esperando esvaziar, muita gente em situação de rua usando também.

Um médico passava, dava esperança de uma vaga. Mais uma madrugada, todos ali em volta da cadeira, conseguimos pegar uma maca, ele deitou algumas horas, fomos no banheiro com ele, pegaram a maca.

Uma senhora de uns 50 anos suava na minha frente num banco, foi abaixando a cabeça até não existir mais.

O chefe dos médicos mandou ele pra casa, não tinha mesmo vaga, não ia ter vaga, ele tinha que marcar no posto.

– Mas doutor, tem meses que ele está nessa fila do posto, ele tá muito mal, como vai esperar?

Marcaram uma biópsia, o resultado saiu.

Já em sua casa, o filho comprou uma cama igual à do hospital, a nora cuidava como enfermeira.

Alguns dias depois fui caminhando num lugar verde bonito, pouco depois do Rodoanel, pela mesma estrada de Itapecerica onde a gente caminhava junto para levar flores. Ele não sentiria mais seu perfume.

Élcio Burgos deixou dois filhos, quatro netos, uma esposa e um sobrinho e amigo de caminhada.



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