Baixinho encrenqueiro

Não se pode mais usar certas expressões para falar dos baixinhos. Aliás, tem militante do “politicamente correto” que não permite nem que se chame um sujeito de baixinho, acha ofensivo

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Por Mouzar Benedito

Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.

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Não se pode mais usar certas expressões para falar dos baixinhos. Aliás, tem militante do “politicamente correto” que não permite nem que se chame um sujeito de baixinho, acha ofensivo.

E se falar aquela frase famosa, que baixinho só serve para arrumar encrenca pra gente grande? Piorou.

Mas o Marinho era um baixinho que em certa fase teve essa especialidade. Era só tomar umas e outras que arrumava encrenca pra ele e pra quem estivesse com ele. Por exemplo: depois de umas doses, qualquer loiro que visse já xingava de nazista.

Uma vez estávamos um bando em Salvador e, lá pelas dez da noite, fomos à festa do Bonfim.

A área em frente à igreja estava lotadíssima, mal dava para andar. Comprar cerveja e acarajé nas barracas era outra dificuldade. Mas conseguimos. Comemos uns acarajés e tomamos muitas cervejas. Numa barraca, o Marinho conseguiu uma dose de cachaça… e outra… e outras.

Resultado: dali a pouco já estava provocando as pessoas.

Num certo momento, nos perdemos no meio da multidão. Eu fiquei conversando com umas meninas que conhecemos na festa e não vi para onde ele e os outros amigos tinham ido. Aí apareceu um desses amigos, o Ricardo, e começamos a insinuar um fim de noite com as recém-conhecidas.

Parecia que a paquera tinha futuro, em princípio elas não rejeitaram a ideia, o problema era onde levá-las, pois estávamos hospedados numa espelunca. Continuamos bebendo e conversando, bem juntinhos, porque a multidão era tamanha que ficava todo mundo meio espremido.

De repente, uma agitação. Parecia que a multidão se mexia toda, como uma onda. Aí vimos o porquê: o Marinho, baixinho, passava correndo no meio das pessoas e um negão (olha aí o “politicamente incorreto” de novo) furioso passava por cima, atrás dele, empurrando pessoas para os lados.

Uma turma do deixa-disso conseguiu segurar o negão, e o Marinho falava pra gente:

– Esse cara é doido! Eu não fiz nada. Ele começou a correr atrás de mim à toa.

Mas todos sabíamos que ele devia ter ofendido o sujeito, falado alguma besteira pra ele.

O Ricardo estava muito nervoso:

– O filho da mãe vai arrumar encrenca pra nós.

Por falar nisso, o Ricardo também era baixinho. Só que não do tipo de arrumar encrenca pra gente grande.

Ele acabou resolvendo levar o Marinho para a pensão, irritado por largar a paquera no meio, mas temeroso de alguma encrenca mais braba.

Pegou o Marinho pelo cangote – quer dizer, pelo colarinho – e foi embora, rumo ao centro, à pensão na rua Areal de Cima. Eram duas horas da manhã, não havia mais ônibus. Táxi também, nem pra remédio. O jeito era ir a pé, gastando mais de duas horas, ainda mais que o Marinho estava bêbado.

Sempre segurando o Marinho, parou no primeiro bar e pediu uma pinga. O Marinho falou:

– Uma pra mim também.

– Não! Você está bêbado, não vai beber mais nada.

Duas quadras adiante, outro bar aberto. E a cena se repetiu. Pouco depois, mais outro bar… E assim foi. Quando chegaram à praça Castro Alves, a coisa tinha se invertido: o Ricardo estava completamente bêbado, e o Marinho tinha sarado com a brisa do mar. Agora era ele que segurava o Ricardo pelo cangote, pra ele não cair.

O Ricardo, quando bêbado, tinha outra mania: transar com prostituta. E logo ali no caminho, na ladeira da Preguiça, tinha o 63, um dos mais famosos prostíbulos de Salvador. Exigiu que parassem lá.

Segurado pelo cangote, bateu na porta do 63. A cafetina abriu com um sorriso insinuante, ele tentou falar alguma coisa e vomitou nos pés dela! A mulher ficou furiosa:

– Meus sapatos novos! Você vai ter que pagar.

Logo, o Ricardo e o Marinho estavam cercados por leões de chácara tipo armário, com uns dois metros de altura por um e meio de largura.

Pagou pelos sapatos três ou quatro vezes o preço que custava nas lojas. E foi pra pensão duro, sem consumar o que pretendia no 63. E xingando o Marinho.

PS: O Marinho morreu em junho, o Ricardo morreu há uns dois anos. Esta crônica é uma homenagem a esses dois grandes amigos, companheiros de muitas aventuras e personagens de muitas histórias divertidas.  F

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).



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