Oito de março: dia de celebrar conquistas

É bastante comum a divulgação do Dia Internacional da Mulher tanto como um festival da beleza feminina como um dia para lamentar os grandes problemas enfrentados atualmente. É necessário incorporar a esse discurso a percepção histórica de que os direitos das mulheres se ampliaram...

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É bastante comum a divulgação do Dia Internacional da Mulher tanto como um festival da beleza feminina como um dia para lamentar os grandes problemas enfrentados atualmente. É necessário incorporar a esse discurso a percepção histórica de que os direitos das mulheres se ampliaram nas últimas décadas, melhorando suas vidas radicalmente

Por Cynthia Semíramis

A matéria abaixo faz parte da edição 120 de Fórum, compre aqui.

Existem diversas histórias sobre a origem do 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Em sua grande maioria, falam de um dia em que se concentram homenagens e lutas por liberdade e direitos para mulheres, especialmente em relação a direitos trabalhistas, combate à violência e melhoria das condições de vida para a população feminina.

A pressão comercial fez com que esse momento de luta fosse mascarado por um elogio às mulheres: é cada vez mais comum que elas recebam presentes e parabéns por serem mulheres – desde que usem maquiagem, aceitem flores e continuem caladas, apenas “embelezando o mundo”. Essa é uma visão extremamente limitada sobre o que é ser mulher, invisibilizando a luta feminina por liberdade e igualdade de direitos e oportunidades em relação aos homens.

Mulheres de todo o País na Cúpula dos Povos (paralela à Rio+20): manifestações sempre continuam após o 8 de Março (Marcello Casal Jr. / ABr)

Há que se tomar cuidado, contudo, com um enfoque também restrito, mas em outro sentido. Muitas reportagens sobre o 8 de março que escapam de tratar mulheres como objetos decorativos optam por falar apenas do quanto a sua situação é ruim atualmente. Ao fim do dia, o conjunto de notícias sobre mazelas faz crer que a luta por direitos das mulheres é um esforço em vão, indo completamente contra o propósito da data de fortalecer o espírito de luta.

É importante, nessas horas, lembrar das conquistas das últimas décadas e perceber que, por pior que esteja a situação atual, já é uma situação muito melhor do que a vivida pelas mulheres das gerações anteriores. Resgatar a história dos direitos das mulheres é fundamental para que se perceba e valorize essas mudanças, incentivando novas gerações a continuarem lutando por esses direitos.

Direitos das mulheres e feminismo

Devemos lembrar que até o século XIX as mulheres não tinham muitos direitos. Estavam obrigatoriamente sob a tutela do pai ou do marido e sofriam inúmeras restrições no seu cotidiano.

O movimento feminista surgiu para reivindicar que as mulheres fossem tratadas como seres humanos e reconhecidas como sujeitos de direito. Dessa forma, não precisariam mais ficar sob o jugo masculino e obteriam os mesmos direitos que os homens já tinham e igualdade de oportunidades. Ao longo das décadas, o movimento feminista questionou estruturas sociais e ampliou a percepção acerca de direitos.

As mulheres ainda recebem menos que os homens pela realização do mesmo trabalho. Embora o direito de votar e ser votada exista, são poucas as eleitas ou com poder de decisão política. Hoje, a educação para homens e mulheres é a mesma desde a infância, e não há mais lei para definir qual o nível máximo de instrução ou quais as profissões e atividades permitidas ou proibidas para mulheres. Cada vez mais os homens têm aprendido a dividir tarefas domésticas, e os que são pais vêm sendo chamados à responsabilidade com a prole em igualdade com as mães. E, apesar da resistência dos conservadores, cada vez mais a maternidade volta a ser uma escolha, e não uma obrigação. Hoje, as mulheres podem ter conta em banco e gerir seus bens sozinhas, não precisando mais entregar o salário para o pai ou marido. Não existe mais a figura do homem chefe de família, ao qual a mulher tinha de obedecer. Casamentos não precisam ser eternos, e o divórcio não exclui a mulher socialmente. Mecanismos legais foram criados para respeitar as decisões delas sobre seus relacionamentos ao procurar coibir o estupro marital, a violência doméstica, bem como as agressões quando a mulher não quer mais prosseguir na relação.

Cem anos atrás, nenhum desses direitos havia sido conquistado.

E mesmo sabendo que ainda há falhas na efetivação desses direitos, e que muitas pessoas que se consideram feministas cometem deslizes, agindo no cotidiano de forma contrária ao que professam, não há como negar o quanto a vida das mulheres mudou. Esses direitos passaram a ser vistos hoje como senso comum ou como direitos que sempre existiram, quando na verdade são conquistas recentes que decorrem de muita luta feminista.


Dia de luta e celebração

É importante reconhecer que a situação atual da maioria das mulheres não é das melhores, e se torna pior quando vem em conjunto com outros fatores que ampliam desigualdades, tais como raça, etnia, classe social, orientação sexual, escolaridade, idade e maternidade.

É bastante comum que muitas pessoas, especialmente mulheres brancas e de classe alta, acreditem que ser feminista e lutar por direitos para mulheres é um tipo de vitimismo que não cabe mais no mundo atual. Para elas, todas têm vidas como as suas: nunca precisaram lutar para estudar ou trabalhar nem sofreram violência ou discriminação porque viveram sempre em ambientes em que havia igualdade de gênero. Não percebem que são uma minoria privilegiada. O que chamam de vitimismo na verdade é a justa reclamação da maioria das mulheres, porque, apesar dos direitos conquistados, continuam sendo discriminadas por serem mulheres.

Infelizmente, violência, julgamentos morais e discriminação ainda são o cotidiano da maioria. Ainda é necessária muita luta para que as condições de trabalho das mulheres se tornem iguais às dos homens. A pobreza e a miséria são majoritariamente femininas, e há muito o que fazer para corrigir essas desigualdades.

Porém, é importante também reconhecer e celebrar as conquistas das últimas décadas. Mulheres passaram a ser sujeitos de direito. Muitas das reivindicações feministas de um século atrás hoje são consideradas senso comum. Distorções legais e discriminação estatal hoje são combatidas não só por manifestações nas ruas, mas também por políticas públicas, processos judiciais e outros mecanismos jurídicos.

No Dia Internacional da Mulher, temos de comemorar bastante o fato de que houve mudança efetiva – e para melhor – na vida das mulheres ao longo desses séculos de luta. Porém, não podemos apenas comemorar: é necessário aperfeiçoar essas mudanças e continuar combatendo a mentalidade que tenta fazer com que retornemos a um passado sombrio, quando mulheres não eram reconhecidas como seres humanos. F



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