Safadezas de um pseudo-deficiente

Luizim não tinha ainda nem um mês de São Paulo. Saiu do Sul de Minas disposto a trabalhar e estudar, e já estava empregado. Tinha também arrumado um colégio para fazer o curso noturno.

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Por Mouzar Benedito

A matéria abaixo faz parte da edição 118 de Fórum, compre aqui.

Luizim não tinha ainda nem um mês de São Paulo. Saiu do Sul de Minas disposto a trabalhar e estudar, e já estava empregado. Tinha também arrumado um colégio para fazer o curso noturno.

Nesse pouco tempo de São Paulo, aprendeu a se virar bem na cidade, conhecia razoa­velmente o centro e o bairro de Pinheiros, onde foi morar, mas ainda não tinha se acostumado com certas coisas.

Em Minas, numa cidade pequena, não tinha essa coisa de pegar ônibus diariamente. Aliás, andar em qualquer veículo motorizado era um luxo. Quando pegava a jardineira – o que era só de vez em quando, pra ir às cidades “grandes” da região, Guaxupé e Muzambinho – ela esperava o passageiro se acomodar, ainda que de pé, e saía devagarinho, ele se equilibrava fácil dentro dela.

Em São Paulo era uma loucura, tudo era muito apressado, achava que ninguém tinha paciência pra nada, e muitas pessoas não eram dispostas a ter uma atitude compreen­siva com quem não estava acostumado ao ritmo da cidade.

Num sábado, início da tarde, fazendo quatro semanas de vida na Pauliceia, o Luizim foi visitar um conterrâneo num bairro próximo. Depois de um bate-papo em que rolaram muitas saudades da família e da cidade natal, mas ao mesmo tempo uma vontade de encarar a cidade grande e “vencer” nela, foi pegar o ônibus de volta para casa.

Estava na rua da Consolação, longe do ponto, viu o ônibus que queria tomar se aproximar e passar por ele. O ônibus parou para pegar alguns passageiros, ele correu e o alcançou quando já ia saindo, com a porta aberta. Entrou correndo e o ônibus deu uma arrancada brusca, antes que ele se segurasse “naqueles canos de travessado”. Perdeu o equilíbrio, rodopiou e caiu em direção a uma mulher que estava sentada num banco que fica de costas para a janela, o que na época se chamava “banco dos bobos”. Uma mão dele passou rente ao rosto dela e se afirmou na janela do ônibus. A outra foi direto num seio da danada. Pra quê! Foi um escândalo!

A mulher começou a falar alto:

– Sem-vergonha! Finge que tá caindo pra se aproveitar da gente. Pensa que eu não vi suas intenções?

E xingou, xingou, conquistando aos poucos alguns adeptos, a começar por uma mulher com cabelo cheio de laquê, que afirmava ser essa uma nova tática dos tarados: fingir que estava caindo pra apalpar os seios das moças. Luizim nem chiou. Achou que não valia a pena tentar explicar, que ninguém ouviria, e ficou calado, injuriado. Outros foram aderindo à “vítima” daquele tarado. Uns cinco minutos depois já estavam quase querendo linchar o rapazinho tão novo – pela cara nem tinha dezoito anos ainda – e já tão safado.

Como ele não falava nada, não respondia nem reagia, uma das esbravejadoras desconfiou:

– Acho que ele é surdo-mudo. Não ouviu nada, não falou nada…

Aí outros foram olhando, aderindo ao pensamento dela e, por fim, a própria vítima estava reconhecendo:

– Coitado… acho que ele caiu sem querer… Foi desequilíbrio…

E o Luizim achou divertida a conversão de todos. Pagou a passagem e passou a roleta sem falar nada e ficou escutando as declarações de pena dele, enquanto pensava: “Quer dizer que surdo-mudo não faz sacanagem? Só porque acham que sou surdo-mudo agora sou um santo?”.

Bom, se fosse hoje teria que censurar seus pensamentos politicamente incorretos. Hoje em dia cara que não ouve nada não é mais surdo, é “deficiente auditivo”. E mudo também… Seria deficiente áudio-oral?

Fechemos o parêntese, voltemos ao Luizim no ônibus. Ficou na dele, sendo olhado com piedade por pessoas que minutos antes queriam matá-lo. Aí chegou ao ponto em que devia descer. Desceu. No chão, andou uns três metros, virou-se para trás e gritou para todo mundo no ônibus:

– Ô, mudaiada!

Aí sim, viu gente braba. O ônibus parou e abriu a porta para a horda correr atrás dele. E como corriam!… F




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